terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Leandro Ventura, Presidente da Câmara de Morrinhos, Tenta Calar Denúncias com B.O., Mas Investigação Sobre Verbas do Esporte Só Vai Aumentar

Presidente da Câmara reage com B.O. após denúncia sobre verbas do esporte — e o jornalismo não vai recuar

Registro policial não apaga fatos, não responde aos números e não intimida a investigação sobre o uso de recursos públicos em Morrinhos


Quando um agente político decide responder a questionamentos públicos com um Boletim de Ocorrência, o movimento deixa de ser apenas jurídico — ele se torna político e institucional.


Foi exatamente isso que ocorreu após a publicação de reportagem investigativa apontando indícios de possível utilização irregular de recursos destinados ao esporte amador em Morrinhos. Em vez de apresentar documentos, contratos, planilhas ou explicações financeiras, o presidente da Câmara Municipal, Leandro Ventura, optou por registrar ocorrência alegando crimes contra a honra.


É um direito. Mas não é uma resposta.


A matéria publicada não atribuiu culpa, não declarou crime consumado e não antecipou julgamento. Fez o que o jornalismo investigativo faz: apresentou indícios, dados, estimativas de valores, conflitos de interesse e cobrou apuração pelos órgãos competentes.


O que o registro policial faz, na prática, é mudar o foco da discussão: sai o debate sobre dinheiro público e entra a tentativa de transformar questionamento institucional em problema pessoal.


Só que a matemática não se intimida.


Os números seguem lá:

• custos por partida

• estimativas de gastos

• ausência de fontes privadas de receita compatíveis

• emendas parlamentares irrigando associações

• concentração de poder político, esportivo e administrativo na mesma estrutura


Nada disso foi desmentido. Nada foi explicado.


O ponto que mais incomoda não é o tom da reportagem — é o conteúdo que ela revela: um ambiente onde denúncias são tratadas com deboche, onde a fiscalização é ridicularizada e onde o controle público parece ser visto como incômodo, não como obrigação democrática.


Registrar um B.O. contra um jornalista não transforma questionamentos em ofensas. Tampouco substitui transparência por silêncio institucional.


Agentes públicos estão submetidos ao escrutínio. Quanto maior o poder, maior o dever de explicação. E quando o tema envolve dinheiro público, o interesse coletivo prevalece sobre desconfortos individuais.


O jornalismo não acusa. O jornalismo expõe fatos, indícios, contextos e cobra investigação. Quem define culpa é o Judiciário. Quem fiscaliza é o Ministério Público. Quem responde à sociedade são os gestores.


E a sociedade ainda espera respostas:

de onde vem o dinheiro que circula no futebol amador?

qual o fluxo exato das verbas públicas destinadas ao setor?

há ou não conflito de interesses na estrutura descrita?


Perguntas objetivas. Técnicas. Institucionais.


Não serão apagadas por um boletim.

Opinião do Blog do Cleuber Carlos

A tentativa de deslocar o debate do campo da transparência para o campo da intimidação é um velho recurso de quem prefere reagir ao mensageiro em vez de enfrentar a mensagem.


Mas há um detalhe incontornável:

o jornalismo investigativo não depende da autorização de quem é investigado.


Ele continuará.

Com documentos.

Com números.

Com dados.

E com ainda mais rigor.


Porque, em uma democracia, a fiscalização do poder não é provocação — é dever.


Sobre o autor da investigação



A apuração é conduzida por Cleuber Carlos do Nascimento, jornalista investigativo e cronista profissional com mais de 35 anos de experiência na cobertura de gestão pública, esporte e administração institucional.


Com trajetória consolidada no futebol brasileiro, possui atuação direta como gestor esportivo e presidente de clubes, com vivência prática em estruturas administrativas, contratos esportivos, captação de recursos e organização de competições.


Sua experiência inclui participação e cobertura de:


• 22 Campeonatos Brasileiros

• 17 Copas São Paulo de Futebol Júnior

• 3 Copas do Mundo


Filho de Itumbiara, discípulo de Zé Gomes da Rocha, começou no rádio esportivo na Rádio Pousada do Rio Quente com Mauro Rodrigues e Evandro Magal. Integrante das feras do Kajuru por 20 anos. Sendo setorista do Goiás por 10 anos e 12 anos cobrindo a seleção brasileira.

Repórter político e candidato a deputado estadual pelo DEM em 2006 apoiando Demostenes Torres e fazendo dobradinha com Ronaldo Caiado e atualmente filiado no PL.

Essa trajetória une jornalismo investigativo, conhecimento jurídico-administrativo e vivência prática na gestão do esporte, o que permite análise técnica de:


✔ contratos públicos

licitações, Pregões e consultorias 


✔ Adesões de Atas


✔ datas e fluxos financeiros

✔ assessorias jurídicas e consultorias

✔ vínculos funcionais e contratações

✔ estruturas administrativas esportivas e principalmente emendas parlamentares.


A investigação não parte de suposições, mas de leitura documental, cruzamento de dados e conhecimento prático do funcionamento real do futebol e da administração pública.

Que comece o jogo!


segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Foto com Lula, pressão pelo Senado e “faca no pescoço”: os bastidores que levaram Wilder Morais a romper com Caiado e confirmar pré-candidatura


Vídeo, fotografia e articulações por cima da direção estadual do PL expõem guerra interna na direita goiana

A pré-candidatura de Wilder Morais ao governo de Goiás não nasceu apenas de divergência política. Ela foi empurrada por uma sequência de movimentos de bastidores que, segundo fontes ouvidas, tornaram a aliança com o MDB de Daniel Vilela politicamente insustentável dentro da base bolsonarista no estado.

O estopim simbólico foi uma fotografia de Daniel Vilela ao lado do presidente Lula, registrada em evento em Goiânia. A imagem foi encaminhada ao ex-presidente Jair Bolsonaro e aos seus filhos acompanhada de um questionamento direto:

“É com esse pessoal que a direita de Goiás deve caminhar em 2026?”

O material, segundo interlocutores do grupo de Wilder, reforçaria a tese de que o histórico político de Daniel inclui alianças passadas com o campo petista, argumento utilizado para contestar sua identificação atual com a direita.


A equação do Senado — o ponto de tensão

Mas a fotografia foi apenas parte da engrenagem.

Outro fator decisivo foi a estratégia atribuída ao grupo político do governador Ronaldo Caiado, com apoio do deputado Gustavo Gayer, de apresentar a Bolsonaro uma equação política: o PL abriria mão da disputa pelo governo estadual para apoiar Daniel Vilela, em troca da consolidação de uma candidatura de Gayer ao Senado numa coligação ampla.

Na prática, segundo essa leitura, o partido trocaria o Palácio das Esmeraldas por uma vaga no Senado.

Wilder reagiu de forma direta nos bastidores: Gayer poderia disputar o Senado pela direita sem necessidade de vincular o PL ao projeto do MDB.


A peça Isaura Cardoso

O senador também teria destacado à interlocução nacional que sua suplente, Isaura Cardoso, possui trajetória ligada ao campo bolsonarista, tendo participado de agendas ao lado de Michelle Bolsonaro em Goiás durante a campanha presidencial, especialmente em ambientes religiosos.

A mensagem era clara: a composição da chapa de Wilder já dialoga com a base conservadora, sem necessidade de alianças que gerem ruído ideológico.


“Faca no pescoço”

Em conversas reservadas, Wilder teria sido ainda mais enfático:

“Não dá para colocar uma faca no meu pescoço e dizer que a única opção é apoiar Daniel Vilela.”

A frase circulou nos bastidores como síntese do incômodo com a tentativa de impor um acordo visto como vertical e descolado da base da direita goiana.


O movimento que piorou o clima

Outro gesto que teria pesado negativamente foi a iniciativa de Caiado de procurar diretamente o senador Flávio Bolsonaro para tratar da composição, movimento interpretado como articulação por cima da direção estadual do PL, presidida por Wilder.

Fontes relatam que o gesto foi mal recebido por setores do partido, por ser visto como tentativa de atropelo político.


O pano de fundo ideológico

Durante o evento em Iporá, onde confirmou a pré-candidatura, Wilder resumiu publicamente sua posição:

“O MDB é um partido de esquerda, e nós somos da direita. Não vamos caminhar com a esquerda.”

Aliados do MDB e do governo estadual, por outro lado, costumam sustentar que alianças políticas são dinâmicas e que a construção de maiorias exige composições amplas.


O que o episódio revela

O caso expõe:

  • racha interno na direita goiana

  • disputa por legitimidade do discurso conservador

  • pressão nacional sobre decisões estaduais

  • conflito entre estratégia eleitoral e identidade ideológica

A guerra ainda é de bastidor. Mas já redesenha o tabuleiro de 2026.

Na política, imagem vira símbolo.
E símbolo vira decisão.

Violência em queda nos números, em alta nas ruas? O que os dados oficiais de Goiás não mostram

Casos brutais se acumulam em janeiro enquanto o governo mantém discurso de redução histórica da criminalidade. Especialistas alertam: a metodologia pode não captar a mudança no tipo de violência que atinge a população.

Goiás vive um paradoxo que não cabe em gráfico.
Enquanto o governo divulga quedas históricas nos índices de criminalidade, a percepção nas ruas é de que a violência voltou a ocupar o cotidiano com intensidade assustadora.

Em menos de um mês, o estado registrou episódios que chocam pela brutalidade e pela proximidade com a vida comum: adolescente assassinada e enterrada no quintal de uma casa, mulher morta pela própria filha, homicídio dentro de local de trabalho, brigas em bares e festas que terminam em espancamentos ou tiros. Não são cenas de crime organizado em guerra por território — são explosões de violência entre pessoas comuns.

É aí que nasce a pergunta que os números frios não respondem: o que está acontecendo com o padrão da violência em Goiás?


O que o governo diz — e está correto dentro da estatística

A narrativa oficial é baseada nos CVLI (Crimes Violentos Letais Intencionais), que incluem homicídio doloso, latrocínio e lesão seguida de morte. Dentro dessa metodologia, os dados apontam redução consistente desde 2019. Tecnicamente, o discurso de queda é verdadeiro dentro do que é medido.

Mas estatística não é sinônimo de realidade completa.


O que os indicadores não captam

O problema começa quando se observa o tipo de violência que cresce fora do radar da propaganda oficial.

Os CVLI medem mortes consumadas. Eles não medem:

  • Tentativas de homicídio

  • Lesões graves por arma branca

  • Agressões violentas que não resultam em óbito

  • Surtos familiares com vítimas hospitalizadas

  • Conflitos domésticos que escalam para violência extrema

E é exatamente essa violência interpessoal, imprevisível e doméstica que vem se multiplicando.

Não é mais o crime de facção. É o vizinho. O parente. O conhecido.
Isso gera sensação de insegurança maior, porque acontece perto, sem aviso e fora do “mundo do crime”.


A violência mudou de perfil

AntesAgora
Disputa de territórioConflitos pessoais
Execuções direcionadasBrigas que escalam para morte
Crime organizadoSurtos emocionais e violência doméstica
Locais de risco conhecidosAmbientes comuns: casa, bar, festa

Esse tipo de crime é mais imprevisível e produz impacto social maior, mesmo que o total de homicídios não suba na mesma proporção.


Existe manipulação de dados?

Não há prova de manipulação.
Mas há um ponto técnico importante: a forma como os crimes são classificados e consolidados pode gerar distorção na percepção pública.

Especialistas em segurança apontam que a estatística oficial:

  • trabalha com prazos de consolidação

  • depende da tipificação correta

  • não integra automaticamente dados de hospitais, Samu e saúde pública

Se o número de atendimentos por agressão grave cresce, mas isso não vira morte, não aparece como “violência letal”, embora o impacto social seja enorme.


Onde está a parte da história que não aparece nos gráficos

Para entender a realidade completa, seria necessário cruzar:

  • Registros do IML

  • Óbitos por agressão no sistema de saúde

  • Entradas hospitalares por perfuração e espancamento

  • BOs por lesão corporal grave

  • Medidas protetivas por violência doméstica

Se esses indicadores sobem enquanto o CVLI cai, o que temos não é uma mentira estatística — é uma mudança de padrão de violência que a propaganda não explica.


O medo que a população sente não nasce do PowerPoint

A estatística mede mortes.
A população sente o medo.

Entre uma planilha e a rua, pode existir uma violência que não está no destaque das coletivas, mas está explodindo dentro das casas, nas relações pessoais e nos conflitos cotidianos.

Não é questão de negar os números oficiais.
É reconhecer que eles contam só uma parte da história.

E a outra parte está sangrando fora da planilha.

sábado, 24 de janeiro de 2026

A QUEM INTERESSA UMA OAB OMISSA?

A história brasileira é marcada por brados e atos corajosos contra o arbítrio e a prepotência. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), outrora farol dessa resistência, pavimentou com bravura os caminhos da redemocratização. Liderou as "Diretas Já", defendeu presos políticos e foi coluna vertebral na construção do Estado Democrático de Direito. Em todos os momentos graves, de tensão ou de ataque aos princípios e fundamentos republicanos e democráticos, sempre elevou a sua voz protagonista e altissonante. Contudo, a entidade que tem o dever constitucional de ser essencial à administração da Justiça, de defesa à ordem jurídica, de fiscalização à escorreita aplicação das leis e, notadamente, da Constituição Federal, hoje parece refém de um silêncio comprometedor. Diante de graves ataques às funções da advocacia e de escândalos que abalam a República, sua postura omissa e subserviente a transforma em uma esfinge, uma estátua prestes a desmoronar sob a maré alta dos abusos de poder.

O contraste entre a atuação histórica e a inércia atual é chocante. Enquanto a OAB se cala, atos gravíssimos passam sem o devido reparo institucional. Entre tantos fatos e casos, recentemente, um advogado foi ameaçado de prisão e retirado da tribuna do Supremo Tribunal Federal (STF) durante uma sustentação oral — uma afronta direta à ampla defesa. Um juiz, durante um julgamento do Tribunal do Júri em Cuiabá/MT, ao cercear a palavra do advogado de defesa, usou a expressão “que se dane a OAB.” Em outro episódio, um deputado gritou "cala a boca" para um advogado que exercia o seu mais sagrado direito, a palavra, em uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPMI). E qual foi a reação da OAB nacional a esses ataques frontais? Um silêncio ensurdecedor. No caso da CPMI, apenas a seccional do Distrito Federal emitiu uma nota de repúdio específica, destacando a desconexão entre a base e a cúpula da entidade. 

Onde está a OAB de Heráclito Sobral Pinto, que protestava como paradigma: "advocacia não é profissão para covardes"? 

Sim, pois, com efeito, esse medo paralisante se estende da defesa das basais prerrogativas dos advogados aos grandes temas e escândalos nacionais. O caso da Operação Compliance Zero — do Banco Master —, tido e investigado como a maior falcatrua bancária da história, com indícios de lavagem de dinheiro e conexões com o crime organizado, é o exemplo mais berrante. Enquanto a sociedade clama por transparência, o STF impôs sigilo elevado ao processo. Apesar de a própria advocacia ser impactada — milhares de cidadãos e investidores podem ter seus direitos mitigados ou comprometidos pelo segredo de justiça —, enquanto a OAB federal mantém-se em letargia. Foi necessário que o Instituto Movad de Respeito à Advocacia protocolasse um requerimento formal pedindo que a OAB atue pelo fim do sigilo. Paralelamente, a OAB do Paraná emitiu um parecer técnico, isoladamente, criticando o sigilo integral imposto pelo Banco Central ao caso, apontando sua "fragilidade jurídica". 

Extraordinariamente ainda se ouve algumas poucas e heroicas vozes isoladas, mas sem a força institucional devida nesses momentos. Porém, a entidade nacional não assume a liderança desse embate crucial. Não há uma manifestação sequer!

O cerne do problema, na melhor das hipóteses, parece residir em um cálculo político míope que prevê não confrontar o Poder Judiciário, especialmente o STF -- caríssimo e recheado de regalias. A Corte, por sua vez, vive uma crise de legitimidade. Ministros agem, de maneira insolente, excessivamente egocêntrica, midiática, exibicionista até, sem qualquer escrúpulo de consciência ou constrangimento moral, em investigações que envolvem seus próprios interesses. O jurista Walter Maierovitch criticou a decisão do ministro Alexandre de Moraes de abrir um inquérito para apurar vazamentos de dados de familiares de ministros, classificando-a como "atuação em causa própria" e "uso da função pública em benefício privado". Especialistas respeitados alertam que tais atos violam o devido processo legal e o princípio do juiz natural. A OAB, que deveria ser a primeira a levantar a voz contra essa concentração de poder e flagrantes abusos, prefere o cômodo, embora vexatório, conforto da indiferença que beira a promiscuidade. No caso do Master, é evidente a suspeição do Ministro Dias Toffoli. Quem a questionará, a Procuradoria Geral da República? Por que a OAB não se apresenta como amicus curriae, para levantar tal questão?

Ademais, de acordo com o Índice do Estado de Direito 2024 do World Justice Project, o Brasil ocupa a 80ª posição entre 142 países, com nota 0,50 em uma escala de 0 a 1, em relação a transparência governamental, liberdade religiosa e acesso à justiça civil, mas apresentando péssimo desempenho em justiça criminal (113º lugar, nota 0,33), onde é o segundo pior do mundo em imparcialidade judicial em processos penais (nota 0,10, pasmemos, atrás apenas da Venezuela). O país também vai mal em ausência de corrupção (77º) e ordem e segurança (122º), com quedas históricas na pontuação desde 2015, refletindo lentidão processual, ineficácia investigativa e falhas no devido processo legal, conforme dados compilados de pesquisas com a população e especialistas.

Entrementes, a omissão em temas fundamentais é uma grave traição ao DNA da instituição. A Ordem foi criada e, também, empoderada para ser o bastião da cidadania contra o arbítrio do Estado. Seu papel, conforme a Constituição, transcende em muito a função de um conselho de classe; é de defensora do sistema de justiça e dos direitos fundamentais. Ao se omitir, ela não apenas falha com sua missão histórica, mas torna-se cúmplice da erosão das instituições que jurou e cumpre proteger. O advogado, nas palavras de Rui Barbosa, o patrono da advocacia, "pouco vale nos tempos calmos; o seu grande papel é quando precisa arrostar o poder dos déspotas". A OAB nacional, infelizmente, tem se contentado em viver um tempo de esdrúxula e pérfida calmaria, enquanto a democracia brasileira enfrenta tempestades.

É urgente que a Ordem dos Advogados do Brasil resgate seu ethos de coragem. Deve rugir bem alto contra todas violações às prerrogativas da advocacia, exigir transparência absoluta em casos como o do INSS, do Banco Master e outros, e posicionar-se com firmeza técnica e ética perante os abusos de qualquer poder, notadamente do Poder Judiciário, livre de qualquer pressão político-ideológica ou de quaisquer espectros partidários, seja de direita, seja de esquerda ou centro. Caso contrário, seu silêncio a enterrará. Quando a soberba dos poderosos ruir — e a história mostra que sempre rui —, a Ordem que se calou será lembrada não como espada, escudo ou farol da cidadania plena, mas como uma estátua luxuosa de areia em frente à Praça do Três Poderes, que nada fez para conter a maré dos mais acintosos desmandos da República. 


EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO é advogado, mestre em Direito Público (UNEx-Espanha); especialista em Políticas Públicas (UFG) e Segurança Pública (PUCGO). Ex-presidente e atual vice-presidente da Academia Goiana de Direito (ACAD). Membro da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (ABRACRIM). Membro (Convidado) da Academia Cearense de Direito. Delegado de Polícia Veterano. Diretor do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de Goiás (SINDEPOL) e da Associação dos Delegados de Polícia de Goiás (ADPEGO). Foi Delegado Geral da Polícia Civil de Goiás e Secretário de Estado da Justiça de Goiás.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Alô MP: Outdoor com fotos de vereadores e prefeito em Morrinhos escancara promoção pessoal com dinheiro público

Outdoor da Câmara de Morrinhos expõe vereadores e prefeito e levanta suspeita de promoção pessoal com dinheiro público

Publicidade institucional com fotos, slogan político e “cheque cenográfico” pode violar a Constituição e os princípios da impessoalidade e moralidade administrativa


A publicidade institucional instalada recentemente em Morrinhos, exibindo vereadores, prefeito e um cheque simbólico, sob o slogan “Uma nova gestão, um novo tempo”, vai além da simples prestação de contas e levanta um questionamento jurídico sério: houve promoção pessoal de agentes políticos com recursos públicos?


O outdoor anuncia um suposto repasse de R$ 1,6 milhão do Poder Legislativo ao Poder Executivo, apresentado como “economia recorde em 2025”. No entanto, a forma como essa informação foi divulgada chama atenção não pelo conteúdo, mas pela estética e pela personalização da mensagem.

Quando a publicidade deixa de ser institucional


A Constituição Federal, no art. 37, §1º, é clara ao estabelecer que a publicidade dos atos públicos deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social, sendo vedada qualquer forma de promoção pessoal de autoridades ou servidores.


No caso do outdoor em questão, não se trata apenas de informar dados objetivos. A peça publicitária:


  • exibe fotos individuais e em grupo dos vereadores e do prefeito;
  • utiliza cheque cenográfico, recurso clássico de marketing político;
  • adota slogan de forte apelo eleitoral;
  • associa diretamente a “economia” à imagem dos agentes públicos.

Ou seja, o foco deixa de ser o ato administrativo e passa a ser quem o realizou.


Economia pública não é favor político

Outro ponto sensível é a narrativa construída. Recursos não “sobram” por benevolência de gestores. Economia orçamentária, quando existe, decorre de dever legal de gestão responsável, não de concessão pessoal de parlamentares ao Executivo.


Transformar esse dever em peça de autopromoção institucionalizada desvirtua a finalidade da publicidade pública e cria uma narrativa política com dinheiro do contribuinte.


Indícios de irregularidade jurídica

Especialistas em controle externo apontam que esse tipo de material pode caracterizar:


  • violação ao princípio da impessoalidade;
  • ato de improbidade administrativa (Lei nº 8.429/1992, art. 11);
  • uso indevido de recursos públicos para autopromoção;
  • e, conforme o contexto temporal, até propaganda institucional irregular com viés eleitoral.

A jurisprudência do STF, do STJ e dos Tribunais de Contas é pacífica ao entender que não é necessário pedido explícito de voto para que se configure promoção pessoal indevida.

A pergunta que fica

Se o objetivo fosse apenas informar a população, por que não divulgar os dados sem fotos, sem slogans e sem encenação política?

Por que transformar um ato administrativo em outdoor de exaltação pessoal?

Publicidade institucional não é palco.

Não é campanha.

E, sobretudo, não pode servir de vitrine política antecipada.

Opinião

Quando o poder público confunde prestação de contas com marketing político, o prejuízo não é apenas financeiro — é institucional.


A normalização desse tipo de prática enfraquece a confiança nas instituições