segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Violência em queda nos números, em alta nas ruas? O que os dados oficiais de Goiás não mostram

Casos brutais se acumulam em janeiro enquanto o governo mantém discurso de redução histórica da criminalidade. Especialistas alertam: a metodologia pode não captar a mudança no tipo de violência que atinge a população.

Goiás vive um paradoxo que não cabe em gráfico.
Enquanto o governo divulga quedas históricas nos índices de criminalidade, a percepção nas ruas é de que a violência voltou a ocupar o cotidiano com intensidade assustadora.

Em menos de um mês, o estado registrou episódios que chocam pela brutalidade e pela proximidade com a vida comum: adolescente assassinada e enterrada no quintal de uma casa, mulher morta pela própria filha, homicídio dentro de local de trabalho, brigas em bares e festas que terminam em espancamentos ou tiros. Não são cenas de crime organizado em guerra por território — são explosões de violência entre pessoas comuns.

É aí que nasce a pergunta que os números frios não respondem: o que está acontecendo com o padrão da violência em Goiás?


O que o governo diz — e está correto dentro da estatística

A narrativa oficial é baseada nos CVLI (Crimes Violentos Letais Intencionais), que incluem homicídio doloso, latrocínio e lesão seguida de morte. Dentro dessa metodologia, os dados apontam redução consistente desde 2019. Tecnicamente, o discurso de queda é verdadeiro dentro do que é medido.

Mas estatística não é sinônimo de realidade completa.


O que os indicadores não captam

O problema começa quando se observa o tipo de violência que cresce fora do radar da propaganda oficial.

Os CVLI medem mortes consumadas. Eles não medem:

  • Tentativas de homicídio

  • Lesões graves por arma branca

  • Agressões violentas que não resultam em óbito

  • Surtos familiares com vítimas hospitalizadas

  • Conflitos domésticos que escalam para violência extrema

E é exatamente essa violência interpessoal, imprevisível e doméstica que vem se multiplicando.

Não é mais o crime de facção. É o vizinho. O parente. O conhecido.
Isso gera sensação de insegurança maior, porque acontece perto, sem aviso e fora do “mundo do crime”.


A violência mudou de perfil

AntesAgora
Disputa de territórioConflitos pessoais
Execuções direcionadasBrigas que escalam para morte
Crime organizadoSurtos emocionais e violência doméstica
Locais de risco conhecidosAmbientes comuns: casa, bar, festa

Esse tipo de crime é mais imprevisível e produz impacto social maior, mesmo que o total de homicídios não suba na mesma proporção.


Existe manipulação de dados?

Não há prova de manipulação.
Mas há um ponto técnico importante: a forma como os crimes são classificados e consolidados pode gerar distorção na percepção pública.

Especialistas em segurança apontam que a estatística oficial:

  • trabalha com prazos de consolidação

  • depende da tipificação correta

  • não integra automaticamente dados de hospitais, Samu e saúde pública

Se o número de atendimentos por agressão grave cresce, mas isso não vira morte, não aparece como “violência letal”, embora o impacto social seja enorme.


Onde está a parte da história que não aparece nos gráficos

Para entender a realidade completa, seria necessário cruzar:

  • Registros do IML

  • Óbitos por agressão no sistema de saúde

  • Entradas hospitalares por perfuração e espancamento

  • BOs por lesão corporal grave

  • Medidas protetivas por violência doméstica

Se esses indicadores sobem enquanto o CVLI cai, o que temos não é uma mentira estatística — é uma mudança de padrão de violência que a propaganda não explica.


O medo que a população sente não nasce do PowerPoint

A estatística mede mortes.
A população sente o medo.

Entre uma planilha e a rua, pode existir uma violência que não está no destaque das coletivas, mas está explodindo dentro das casas, nas relações pessoais e nos conflitos cotidianos.

Não é questão de negar os números oficiais.
É reconhecer que eles contam só uma parte da história.

E a outra parte está sangrando fora da planilha.

Nenhum comentário: