Em menos de um mês, o estado registrou episódios que chocam pela brutalidade e pela proximidade com a vida comum: adolescente assassinada e enterrada no quintal de uma casa, mulher morta pela própria filha, homicídio dentro de local de trabalho, brigas em bares e festas que terminam em espancamentos ou tiros. Não são cenas de crime organizado em guerra por território — são explosões de violência entre pessoas comuns.
É aí que nasce a pergunta que os números frios não respondem: o que está acontecendo com o padrão da violência em Goiás?
O que o governo diz — e está correto dentro da estatística
A narrativa oficial é baseada nos CVLI (Crimes Violentos Letais Intencionais), que incluem homicídio doloso, latrocínio e lesão seguida de morte. Dentro dessa metodologia, os dados apontam redução consistente desde 2019. Tecnicamente, o discurso de queda é verdadeiro dentro do que é medido.
Mas estatística não é sinônimo de realidade completa.
O que os indicadores não captam
O problema começa quando se observa o tipo de violência que cresce fora do radar da propaganda oficial.
Os CVLI medem mortes consumadas. Eles não medem:
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Tentativas de homicídio
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Lesões graves por arma branca
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Agressões violentas que não resultam em óbito
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Surtos familiares com vítimas hospitalizadas
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Conflitos domésticos que escalam para violência extrema
E é exatamente essa violência interpessoal, imprevisível e doméstica que vem se multiplicando.
A violência mudou de perfil
| Antes | Agora |
|---|---|
| Disputa de território | Conflitos pessoais |
| Execuções direcionadas | Brigas que escalam para morte |
| Crime organizado | Surtos emocionais e violência doméstica |
| Locais de risco conhecidos | Ambientes comuns: casa, bar, festa |
Esse tipo de crime é mais imprevisível e produz impacto social maior, mesmo que o total de homicídios não suba na mesma proporção.
Existe manipulação de dados?
Especialistas em segurança apontam que a estatística oficial:
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trabalha com prazos de consolidação
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depende da tipificação correta
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não integra automaticamente dados de hospitais, Samu e saúde pública
Se o número de atendimentos por agressão grave cresce, mas isso não vira morte, não aparece como “violência letal”, embora o impacto social seja enorme.
Onde está a parte da história que não aparece nos gráficos
Para entender a realidade completa, seria necessário cruzar:
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Registros do IML
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Óbitos por agressão no sistema de saúde
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Entradas hospitalares por perfuração e espancamento
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BOs por lesão corporal grave
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Medidas protetivas por violência doméstica
Se esses indicadores sobem enquanto o CVLI cai, o que temos não é uma mentira estatística — é uma mudança de padrão de violência que a propaganda não explica.
O medo que a população sente não nasce do PowerPoint
Entre uma planilha e a rua, pode existir uma violência que não está no destaque das coletivas, mas está explodindo dentro das casas, nas relações pessoais e nos conflitos cotidianos.
E a outra parte está sangrando fora da planilha.

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