Algumas histórias envolvendo dinheiro público começam discretamente, escondidas em documentos técnicos que passam despercebidos nos portais de transparência. Mas basta uma leitura mais atenta para que a dimensão real do negócio comece a aparecer.
É exatamente o caso da Ata de Registro de Preços nº 006/2025, resultado do Pregão Eletrônico nº 008/2025 realizado pelo Consórcio Interfederativo Minas Gerais (CIMINAS).
No documento, a empresa Ciabra Pagamentos S/A, sediada em Goiânia, aparece como vencedora de uma licitação para intermediação de pagamentos e emissão de boletos para municípios.
Os números chamam atenção.
A ata registra 54.380.782 operações financeiras previstas, ao preço unitário de R$ 2,40 por serviço, projetando um teto potencial de R$ 130.513.876,80 em contratações públicas.
Em outras palavras: uma ata que pode movimentar mais de 130 milhões de reais em contratos envolvendo prefeituras.
QUEM ASSINA PELA EMPRESA
O próprio documento identifica quem representa a empresa.
A ata registra como representante da Ciabra Pagamentos S/A o empresário Conrado Raphael Bohrer Diedam, que assina o instrumento como diretor da companhia.
Esse dado empresarial ganha relevância política quando se observa o cenário da cidade de Morrinhos, em Goiás.
Conrado Raphael Bohrer Diedam é esposo da vereadora Náryma Angélica Rabello e Silva, que também ocupou o cargo de secretária municipal de Saúde na gestão do prefeito Maycllyn Carreiro.
A permanência de Náryma na secretaria terminou após recomendação do Ministério Público, que solicitou seu afastamento da função diante de questionamentos relacionados à gestão da saúde municipal.
Ela deixou o cargo de secretária, mas permaneceu exercendo seu mandato de vereadora na Câmara Municipal de Morrinhos.
O CONTEXTO POLÍTICO
Nos bastidores políticos de Morrinhos, Conrado Raphael Bohrer Diedam é apontado como figura próxima ao grupo político do prefeito Maycllyn Carreiro, tendo participado do ambiente político que orbitou a campanha eleitoral que levou o atual prefeito ao cargo.
Esse contexto não significa, por si só, irregularidade.
Mas cria uma coincidência política relevante:
o representante da empresa que controla uma ata potencialmente milionária para prestação de serviços a prefeituras é marido de uma vereadora em exercício no município.
O PREÇO DOS BOLETOS
Outro ponto que chama atenção na ata é o valor registrado por operação.
Enquanto convênios tradicionais de arrecadação pública com bancos como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil costumam operar em faixas médias entre R$ 1,00 e R$ 1,70 por boleto liquidado, a ata registra R$ 2,40 por operação.
Em contratos públicos de grande escala, essa diferença pode representar centenas de milhares ou até milhões de reais a mais pagos pelos cofres municipais.
UMA ATA QUE PODE SE MULTIPLICAR
O modelo de ata de registro de preços permite que outros órgãos públicos utilizem o resultado da licitação.
Funciona assim:
- um órgão realiza o pregão
- registra os preços
- outros órgãos podem aderir à ata
Isso significa que a empresa vencedora pode firmar contratos com diversas prefeituras sem necessidade de novo processo licitatório.
No caso desta ata, o quantitativo ultrapassa 54 milhões de operações financeiras previstas.
A PERGUNTA QUE FICA
Não existe, neste momento, prova automática de irregularidade.
Mas existe um fato objetivo.
O marido de uma vereadora em exercício em Morrinhos, que também ocupou secretaria estratégica na prefeitura, aparece como representante da empresa que detém uma ata de mais de R$ 130 milhões voltada a serviços financeiros para prefeituras.
Quando contratos públicos dessa dimensão se cruzam com relações familiares no ambiente político local, a pergunta que surge não é acusatória.
É simplesmente necessária:
quantas prefeituras irão aderir a essa ata e quanto dinheiro público poderá circular através dela?
Porque no Brasil, muitas histórias que começam com boletos terminam revelando algo muito maior.
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