terça-feira, 10 de março de 2026

ATA DE R$ 130 MILHÕES, FINTECH E PODER POLÍTICO: O DOCUMENTO QUE LIGA BOLETOS MILIONÁRIOS A MORRINHOS

Algumas histórias envolvendo dinheiro público começam discretamente, escondidas em documentos técnicos que passam despercebidos nos portais de transparência. Mas basta uma leitura mais atenta para que a dimensão real do negócio comece a aparecer.

É exatamente o caso da Ata de Registro de Preços nº 006/2025, resultado do Pregão Eletrônico nº 008/2025 realizado pelo Consórcio Interfederativo Minas Gerais (CIMINAS).


No documento, a empresa Ciabra Pagamentos S/A, sediada em Goiânia, aparece como vencedora de uma licitação para intermediação de pagamentos e emissão de boletos para municípios.


Os números chamam atenção.


A ata registra 54.380.782 operações financeiras previstas, ao preço unitário de R$ 2,40 por serviço, projetando um teto potencial de R$ 130.513.876,80 em contratações públicas.


Em outras palavras: uma ata que pode movimentar mais de 130 milhões de reais em contratos envolvendo prefeituras.





QUEM ASSINA PELA EMPRESA



O próprio documento identifica quem representa a empresa.


A ata registra como representante da Ciabra Pagamentos S/A o empresário Conrado Raphael Bohrer Diedam, que assina o instrumento como diretor da companhia.


Esse dado empresarial ganha relevância política quando se observa o cenário da cidade de Morrinhos, em Goiás.


Conrado Raphael Bohrer Diedam é esposo da vereadora Náryma Angélica Rabello e Silva, que também ocupou o cargo de secretária municipal de Saúde na gestão do prefeito Maycllyn Carreiro.


A permanência de Náryma na secretaria terminou após recomendação do Ministério Público, que solicitou seu afastamento da função diante de questionamentos relacionados à gestão da saúde municipal.


Ela deixou o cargo de secretária, mas permaneceu exercendo seu mandato de vereadora na Câmara Municipal de Morrinhos.





O CONTEXTO POLÍTICO



Nos bastidores políticos de Morrinhos, Conrado Raphael Bohrer Diedam é apontado como figura próxima ao grupo político do prefeito Maycllyn Carreiro, tendo participado do ambiente político que orbitou a campanha eleitoral que levou o atual prefeito ao cargo.


Esse contexto não significa, por si só, irregularidade.


Mas cria uma coincidência política relevante:


o representante da empresa que controla uma ata potencialmente milionária para prestação de serviços a prefeituras é marido de uma vereadora em exercício no município.





O PREÇO DOS BOLETOS



Outro ponto que chama atenção na ata é o valor registrado por operação.


Enquanto convênios tradicionais de arrecadação pública com bancos como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil costumam operar em faixas médias entre R$ 1,00 e R$ 1,70 por boleto liquidado, a ata registra R$ 2,40 por operação.


Em contratos públicos de grande escala, essa diferença pode representar centenas de milhares ou até milhões de reais a mais pagos pelos cofres municipais.





UMA ATA QUE PODE SE MULTIPLICAR



O modelo de ata de registro de preços permite que outros órgãos públicos utilizem o resultado da licitação.


Funciona assim:


  1. um órgão realiza o pregão
  2. registra os preços
  3. outros órgãos podem aderir à ata



Isso significa que a empresa vencedora pode firmar contratos com diversas prefeituras sem necessidade de novo processo licitatório.


No caso desta ata, o quantitativo ultrapassa 54 milhões de operações financeiras previstas.





A PERGUNTA QUE FICA



Não existe, neste momento, prova automática de irregularidade.


Mas existe um fato objetivo.


O marido de uma vereadora em exercício em Morrinhos, que também ocupou secretaria estratégica na prefeitura, aparece como representante da empresa que detém uma ata de mais de R$ 130 milhões voltada a serviços financeiros para prefeituras.


Quando contratos públicos dessa dimensão se cruzam com relações familiares no ambiente político local, a pergunta que surge não é acusatória.


É simplesmente necessária:


quantas prefeituras irão aderir a essa ata e quanto dinheiro público poderá circular através dela?


Porque no Brasil, muitas histórias que começam com boletos terminam revelando algo muito maior.


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