Multidão acima das previsões impulsiona comércio, serviços e turismo, enquanto segurança pública, mobilidade urbana e informalidade pagam a conta do sucesso
O pré-Carnaval de Goiânia deixou de ser apenas um aquecimento para a folia nacional e se transformou, definitivamente, em um evento de massa com impacto econômico real. No sábado, 7 de fevereiro de 2026, a Avenida 85 concentrou um público estimado entre 350 mil e mais de 400 mil pessoas, número muito acima das projeções iniciais de 100 a 150 mil foliões divulgadas pelo poder público antes do evento.
A discrepância entre expectativa e realidade não é detalhe estatístico. Ela é o principal dado político, econômico e administrativo do pré-Carnaval deste ano.
A economia que saiu às ruas
O fluxo humano observado na Avenida 85 e nos circuitos de bloquinhos gerou uma cadeia imediata de movimentação econômica, especialmente nos setores de:
- bares, restaurantes e distribuidoras de bebidas;
- ambulantes (bebidas, alimentação rápida, adereços e fantasias);
- transporte por aplicativo, táxis e estacionamentos privados;
- hotéis e hospedagens de curta duração;
- serviços de som, eventos, segurança privada e limpeza urbana.
Mesmo sem números oficiais consolidados, a dimensão da multidão permite afirmar, com segurança, que milhões de reais circularam em poucas horas, sobretudo no comércio informal e no consumo direto, aquele que não passa por contratos públicos, mas aquece a base da economia urbana.
É o tipo de evento que faz o dinheiro girar rápido, especialmente para pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos, muitos deles fora do radar estatístico tradicional.
Goiânia como polo regional de eventos
O pré-Carnaval consolidou Goiânia como destino regional de festas populares, atraindo público de cidades do interior de Goiás e até de estados vizinhos. A cidade deixou de ser apenas ponto de passagem e passou a disputar espaço com capitais tradicionalmente associadas à folia.
Esse reposicionamento tem valor simbólico e econômico. Eventos dessa magnitude:
- fortalecem o setor de serviços,
- ampliam a arrecadação indireta,
- projetam a cidade no circuito nacional de eventos de rua.
Mas essa vitrine tem custo — e ele não aparece nos discursos oficiais.
O outro lado do sucesso: segurança, furtos e pressão urbana
Quanto maior a multidão, maior a pressão sobre o espaço público. E o pré-Carnaval deixou isso evidente.
Houve registros de furtos, especialmente de celulares, com ao menos um caso emblemático de suspeito contido por foliões até a chegada da polícia. O episódio não é exceção: é padrão em eventos dessa escala, onde aglomeração, consumo excessivo de álcool e circulação de dinheiro criam ambiente propício para crimes oportunistas.
Além disso:
- o trânsito foi profundamente impactado por interdições prolongadas;
- moradores da região central absorveram o ônus da festa;
- a atuação da Guarda Civil e da Polícia Militar precisou ser intensificada.
Nada disso invalida o evento — mas desmonta a narrativa simplista de “sucesso sem ressalvas”.
Planejamento público: suficiente ou apenas tolerável?
O poder público apostou em licenciamento gratuito de blocos, rotas definidas e vistorias técnicas. Funcionou? Parcialmente.
Funcionou porque o evento não saiu do controle.
Falhou porque o público superou, com folga, qualquer cálculo oficial.
Quando se projeta 150 mil e aparecem mais de 350 mil, o planejamento não foi ousado — foi conservador demais. E isso cobra preço:
- em segurança,
- em limpeza,
- em mobilidade,
- em gestão de riscos.
Eventos dessa dimensão exigem planejamento de grandes multidões, não de festivais médios.
Avaliação final: vitória econômica, alerta institucional
O pré-Carnaval de Goiânia foi, sem dúvida, um sucesso econômico e de público. Gerou renda, aqueceu o comércio, colocou a cidade no mapa da folia e mostrou que há demanda reprimida por grandes eventos populares.
Mas também deixou um recado claro:
o crescimento da festa foi mais rápido que a maturidade da gestão pública do evento.
Se Goiânia quer transformar o pré-Carnaval em ativo permanente — e tudo indica que quer — precisará:
- profissionalizar ainda mais o planejamento,
- tratar segurança e mobilidade como eixo central, não acessório,
- mapear e mensurar o impacto econômico real,
- assumir que festa grande exige estrutura de cidade grande.
O sucesso foi real.
O alerta também.
E ignorar esse alerta é a maneira mais rápida de transformar uma vitrine econômica em um problema urbano crônico.
—
Blog do Cleuber Carlos
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No último dia, o MPGO, por meio da 2ª Promotoria de Justiça de Morrinhos, recomendou formalmente que o prefeito promova a retirada imediata de outdoors instalados no município, sob suspeita de configurarem publicidade institucional irregular com promoção pessoal de autoridades públicas.
Após a publicação da reportagem deste blog, o Ministério Público: