segunda-feira, 9 de março de 2026

Fundo que comprou Banco Master para Vorcaro teria usado dinheiro de narcotraficante espanhol

 



Por Flávio VM Costa e Alice Maciel site ICL Notícias 

O narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin foi um dos investidores por trás da operação de compra do Banco Master pelo empresário Daniel Vorcaro, revelou em entrevista exclusiva ao ICL Notícias uma fonte que atua no mercado financeiro e acompanhou de perto as negociatas.

A reportagem teve acesso a documentos de transações financeiras, além de autos de processos judiciais e registros da Comissão de Valores Imobiliários (CVM) que corroboram as afirmações.

Morador de um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, onde foi preso em 2013, Oliver Ortiz foi condenado por lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas. No ano passado, a Polícia Federal (PF) notificou o criminoso de que ele seria expulso do país, depois que cumprisse a pena definida pela Justiça brasileira.

De acordo com a fonte, o elo entre o narcotraficante e o empresário mineiro Daniel Vorcaro é o operador do mercado financeiro Benjamim Botelho de Almeida, apontado pela PF como sócio oculto e operador financeiro de Vorcaro nos Estados Unidos.

Botelho mantém vínculos com a corretora Sefer Investimentos – antiga Foco Distribuidora de Título e Valores Mobiliários (DTVM) – , que foi alvo em janeiro da segunda fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de integrar um esquema de repasse de recursos para negócios ligados à família de Vorcaro. Uma offshore da Bahamas ligada à Sefer foi aberta nove dias depois do Banco Central ter liquidado o Banco Master.

A Sefer era administradora de fundos vinculados ao Grupo Aquilla, que tinha Botelho como principal executivo e da qual o Oliver Ortiz aparece como um dos investidores. Foi por meio de um fundo pertencente ao grupo que o narcotraficante investiu na compra do Banco Máxima em 2017, de acordo com a fonte que acompanhou a operação.

Segundo essa mesma pessoa entrevistada, Ortiz tinha centenas de milhões investidos em fundos do Grupo Aquilla. O ICL Notícias teve acesso a documentos que confirmam que o narcotraficante era cotista desses fundos. Por causa do sigilo bancário, a reportagem não pôde confirmar o valor investido citado pelo entrevistado.

“Recursos que foram utilizados na constituição dos fundos imobiliários – os principais produtos da atual Sefer – e também na aquisição do Banco Master – que era a instituição financeira que faltava ao Grupo Aquilla para estender as ramificações de suas negociações e negociatas – são oriundo de lavagem de dinheiro do traficante Oliver Ortiz”, acrescentou a fonte.

Benjamim Botelho de Almeida é ex-funcionário do Banco Garantia, instituição financeira que deu origem ao atual BTG Pactual. Detentor de nacionalidade portuguesa, além da brasileira, ele mora em Lisboa. É visto semanalmente na Faria Lima, centro financeiro de São Paulo, onde frequenta reuniões ligadas aos seus negócios, de acordo com apuração da reportagem.

O ICL Notícias procurou a assessoria de imprensa do Banco Master que não respondeu aos questionamentos. Benjamim Botelho foi procurado por email, assim como Oliver Ortiz. Nenhum dos dois enviou resposta. Caso o façam, o texto será atualizado. A reportagem não conseguiu contato com Yan Hirano, o espaço segue aberto para manifestação.
Oliver Ortiz de Zarate Martin foi preso em 2013. Foto: Severino Silva/Agência O Dia
O esquema do Banco Master

De acordo com as investigação da PF, que hoje tramita no STF (Supremo Tribunal Federal), o esquema fraudulento do Banco Master inclui, entre outras fraudes, a aquisição de empresas de baixo valor para, em seguida, inflar artificialmente os resultados financeiros dessas empresas, fazendo crer que elas valem mais do que seu real preço.

As operações foram estruturadas para desviar recursos de fundos de investimento e outras fontes para empresas controladas pelos envolvidos, em detrimento dos investidores, de acordo com a investigação. Há suspeitas de que as transações podem ter violado as leis e regulamentos do mercado de capitais, incluindo manipulação de preços, uso de informações privilegiadas e outras práticas fraudulentas, a exemplo de venda de ativos podres.

Os autos da Operação Compliance Zero citam Benjamim Botelho como participante do esquema: “Utilização de interpostas pessoas/empresas de prateleira – as transações frequentemente envolveram empresas com ligações diretas ou indiretas com Daniel Vorcaro, Benjamim Botelho e outros indivíduos-chave, levantando sérias preocupações sobre conflitos de interesses e possíveis benefícios indevidos”.

Em decisão assinada em 6 de janeiro, quando ainda era relator do caso, o ministro Dias Toffoli decretou que Benjamim Botelho e a Sefer fossem alvos da segunda fase da operação: “Segundo consta, em relação à Sefer, Benjamim Botelho é proprietário e controlador da Foco DTVM (atualmente SEFER Investimentos), devendo as medidas recaírem sobre seu patrimônio e em todas as participações que envolvem a Sefer.”
Daniel Vorcaro 
Vorcaro e Botelho são investigados antes do escândalo do Master

Daniel Vorcaro e Benjamim Botelho estão conectados às falcatruas investigadas pelas autoridades antes da eclosão do atual escândalo do Banco Master.

A Compliance Zero investiga fraudes relacionadas a investimentos de fundos de previdência de servidores de estados e municípios. De acordo com a Polícia Federal, R$ 2 bilhões foram aplicados no Banco Master. Em 2020, Vorcaro, assim como Botelho, foram alvos de outra operação da PF, a Fundo Fake, que já investigava justamente o mesmo tipo de operação fraudulenta quando o banco ainda se chamava Máxima.

No celular apreendido de Daniel Vorcaro, na Operação Compliance Zero, há trechos dos autos da Operação Fundo Fake, em que as ações criminosas são descritas e os nomes Vorcaro, Botelho, e do narcotraficante Oliver Ortiz são citados.

Benjamim Botelho de Almeida chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF) pelos crimes de gestão fraudulenta do Banco Máxima, no período de 2014 a 2016. De acordo com as investigações, o banco teria usado o fundo de investimento Aquilla Veyron FIM – que integrava o Grupo Aquilla – para simular a valorização de investimento da instituição. Uma manobra, segundo a denúncia, para maquiar a “grave insuficiência de capital”.

“Ocorre que o Bacen [Banco Central] descobriu que o capital disponibilizado pelo Aquila Veyron FIM para a compra de tais ações era, na verdade, do próprio Banco Máxima”. “Ou seja, triangularam com recursos do próprio Banco Maxima, culminando na apresentação de informações e na publicação de demonstrações financeiras que não refletiam com fidedignidade a real econômico-financeira da Instituição Financeira e mascarou seus demonstrativos”, diz a denúncia do MPF.

De acordo com os autos, Benjamim, à época dos fatos, era o sócio majoritário da Foco DTVM (atual Sefer), assim como responsável pela Aquilla Asset.

“A Holding Aquilla era um conglomerado de empresas formado por uma distribuidora de títulos e valores mobiliários autorizada a funcionar pelo Banco Central do Brasil e pela Comissão de Valores Mobiliários. Também faziam parte da holding uma securitizadora de títulos e uma gestora de recursos, autorizadas apenas pela CVM”, destacou a fonte.

Em pelo menos um processo interno da CVM, Vorcaro, Botelho e o próprio Banco Master são investigados por irregularidades na emissão e distribuição de cotas de fundo de investimentos.
Decisão de Toffoli cita Sefer e Benjamin Botelho na operação de fraudes do Banco Master
Fonte afirma que Benjamim Botelho intermediou negociação do Master

No ano de 2016, o Banco Máxima, do paulistano Saul Sabbá, foi inabilitado pelo Banco Central por gestão fraudulenta e rombo de caixa. Conforme dito acima, Benjamim Botelho já aparece como vinculado às fraudes cometidas pela instituição financeira.

Em entrevista à revista Piauí, Vorcaro afirmou que Sabbá ofereceu o banco a ele.

A fonte do mercado financeiro afirmou ao ICL Notícias, no entanto, que a intermediação do negócio foi feita por Benjamim Botelho de Almeida e começou no ano anterior. Ele levou Vorcaro para negociar com Sabbá.

“Daniel Vorcaro não pertencia ao mercado financeiro e de capitais, portanto, não demonstrava conhecer todas as exigências e atributos que se fazem necessários para que alguém se qualifique diante do Banco Central para aquisição de uma instituição financeira”, destacou a fonte em entrevista ao ICL Notícias.

Em 2017, Vorcaro adquiriu o Banco Máxima, que apesar de ter mudado de nome em 2021 para Banco Master, segue roteiro semelhante. O Master foi liquidado em novembro do ano passado pelo Banco Central, e alvo da Operação Compliance Zero, que apura esquema bilionário de fraudes financeiras. Nesta terça-feira (4), Vorcaro foi preso pela segunda vez em quatro meses, sob suspeita de ameaças a jornalistas e lavagem de dinheiro.

Documentos ligam narcotraficante ao Master

Ortiz aparece na lista de cotistas de fundos administrados pela antiga Foco VTDM (atual Sefer Investimentos), em documento datado de 30 de outubro de 2015. Dois anos antes ele já havia sido condenado por tráfico de drogas pela Justiça brasileira.

A relação de cotistas das empresas do Grupo Aquilla de 2015 mostram que Ortiz – por meio de pessoa física e de empresas – era um dos cotistas do Aquilla Fundo de Investimento Imobiliário, o qual investiu em cotas do fundo São Domingos, utilizado na operação de aquisição do Banco Máxima, hoje Master.

A operação revela uma triangulação por meio da qual o narcotraficante despontava, na prática, como investidor do banco de Vorcaro.

Segundo a fonte ouvida pelo ICL Notícias, Ortiz também estava por trás do fundo Aquilla Veyrom FIM e do Brazilian Multimarketing Investiments LLC, uma offshore sediada nas Bahamas.

“Oliver Ortiz era um investidor que adquiria terrenos por valores bastante reduzidos na região da Baixada Fluminense e, posteriormente, os integralizava em troca de cotas de fundos de investimento geridos pela Aquilla e administrados pela Foco”, explicou a fonte do mercado financeiro.

Segundo contou ao ICL Notícias, após a integralização, esses terrenos passavam por avaliações a valor de mercado para compor o patrimônio dos fundos. Com isso, o valor atribuído aos imóveis acabava sendo multiplicado diversas vezes em relação ao preço originalmente pago por Oliver Ortiz na aquisição dos terrenos, elevando significativamente o patrimônio do investidor como cotista dos fundos. Essa é justamente um tipo de fraude apontada pela PF na investigação sobre o Banco Master.

A Aquilla aparece vinculada a Oliver Ortiz em um processo que tramita no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, envolvendo dois terrenos em Queimados, na Baixada Fluminense (RJ).

Nesse caso, as empresas Agera Negócios Imobiliários Ltda. e Aquilla Fundo de Investimento Imobiliário (FII) pedem à Justiça a retirada do bloqueio que recai sobre os imóveis conhecidos como “Área A-2” e “Área B”.

As empresas afirmam que adquiriram os imóveis em abril de 2012, por meio de um contrato de promessa de compra e venda, assinado com Oliver Ortiz e Yan Hirano (empresário que, segundo a fonte do ICL Notícias, teria apresentado o narcotraficante a Benjamim Botelho). A reportagem não conseguiu contato com Yan Hirano, o espaço segue aberto para sua manifestação.

Por isso, sustentam que são as legítimas proprietárias e que o bloqueio judicial no processo contra Oliver de narcotráfico não deveria atingi-las.

O MPF, porém, aponta que 20% de cada terreno pertencia a Oliver e já havia sido bloqueado judicialmente em 2013. Parte desses imóveis foi usada em operações financeiras envolvendo fundos imobiliários. Além disso, o MPF destaca que Oliver recebeu transferências de recursos, adquiriu cotas de fundo imobiliário no valor de R$ 1,49 milhão e participou de transações que envolveram a transferência de direitos sobre imóveis e a entrada de bens ou dinheiro como capital em fundos, incluindo o Aquilla.
Quem é o narcotraficante espanhol Oliver Ortiz?

O espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin foi preso em junho de 2013 no Rio de Janeiro, aos 35 anos de idade. Ele foi condenado, em dezembro do mesmo ano, à pena de 16 anos de prisão pelos crimes de lavagem de dinheiro e tráfico internacional de drogas.

As investigações apontaram que ele atuava no crime ao menos desde 2009, “liderando estrutura hierarquizada de envio de cocaína para a Europa, eminentemente por via marítima, elaborando rotas e empreendendo mergulhos, uma vez que é mergulhador”, segundo os autos do processo.

A investigação contra o espanhol contou com a cooperação de autoridades de Portugal, da Austrália e dos Estados Unidos.

De acordo com a denúncia do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, para lavar o dinheiro que ganhou do tráfico, Oliver Ortiz passou a adquirir imóveis no Brasil, declarados abaixo do valor real, usou empresas de fachada e registrou bens em nome de laranjas.

A investigação comprovou que o narcotraficante era dono de coberturas tríplex na Barra da Tijuca, casas noturnas e restaurantes no Rio de Janeiro.

Em 20 de março do ano passado, a PF notificou Ortiz da decisão de sua expulsão do Brasil, de acordo com a sentença proferida pela Justiça.

MASTER: O BANCO QUE CRESCEU RÁPIDO DEMAIS E AS SOMBRAS SOBRE A ORIGEM DO DINHEIRO

A trajetória meteórica de Daniel Vorcaro e as perguntas sobre a origem do dinheiro

A história do Banco Master começa muito antes de o nome “Master” aparecer no mercado financeiro brasileiro. Ela começa com um banco pequeno, o Banco Máxima, e termina — ao menos por enquanto — com uma das maiores crises bancárias recentes do país.


No meio desse percurso existe uma pergunta que hoje atravessa investigações, reportagens e bastidores do sistema financeiro: de onde veio o dinheiro que permitiu a aquisição e a rápida expansão do banco?

2017 — A COMPRA DE UM BANCO PEQUENO

Em 2017, o empresário mineiro Daniel Vorcaro assumiu o controle do então Banco Máxima, uma instituição financeira de pequeno porte.

O banco já enfrentava dificuldades e era pouco relevante no sistema financeiro nacional. A operação de compra envolveu aportes estimados em algumas dezenas de milhões de reais e foi posteriormente submetida à aprovação do Banco Central.

Em 2019, o órgão regulador autorizou formalmente a transferência de controle.

O que parecia, naquele momento, apenas a aquisição de um banco modesto por um empresário do setor imobiliário rapidamente ganharia outra dimensão.

2021 — O NASCIMENTO DO BANCO MASTER

Após a consolidação do controle, o Banco Máxima passou por uma reformulação de marca e estratégia. Surge então o Banco Master.

A instituição passa a adotar uma política agressiva de captação de recursos, oferecendo CDBs com taxas significativamente acima do mercado.

O modelo atraiu rapidamente investidores.

Em poucos anos, os números do banco cresceram de forma exponencial.

Ativos que eram da ordem de poucos bilhões passaram a alcançar dezenas de bilhões de reais.

Para parte do mercado financeiro, o crescimento parecia rápido demais.

2022–2024 — O CRESCIMENTO ACELERADO

Durante esse período, o Banco Master se tornou um dos bancos que mais captavam recursos no país.

Plataformas digitais passaram a distribuir produtos do banco com rendimentos elevados, o que ampliou a base de investidores.

Nos bastidores do mercado financeiro, começaram a surgir questionamentos sobre:

  • a qualidade da carteira de crédito
  • a estrutura de funding
  • o lastro de determinados ativos.

Essas dúvidas, no entanto, ainda circulavam mais nos bastidores do que em investigações formais.

2025 — A CRISE

Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.

A decisão foi tomada após o agravamento da situação financeira da instituição, com problemas de liquidez e questionamentos sobre a qualidade de ativos.

A medida desencadeou uma série de investigações.

Autoridades passaram a analisar possíveis irregularidades envolvendo gestão, estrutura financeira e origem de determinados investimentos.

A PERGUNTA QUE PASSOU A CIRCULAR

Com o avanço das investigações e reportagens sobre o caso, surgiu uma nova camada de questionamentos.

Algumas matérias jornalísticas e relatos atribuídos a fontes do mercado financeiro passaram a mencionar a possibilidade de que investidores ocultos ou estruturas financeiras paralelas teriam participado da capitalização do banco em diferentes momentos.

Entre essas alegações apareceu, em reportagens recentes, o nome de Oliver Ortiz de Zarate Martin, apontado em registros públicos como estrangeiro condenado no Brasil por tráfico internacional de drogas e posteriormente alvo de processo de expulsão do país.

Segundo essas reportagens, fontes teriam afirmado que Ortiz poderia ter figurado entre investidores indiretos ou financiadores ocultos ligados à estrutura de capitalização que permitiu a expansão do banco.

Até o momento, porém, essas alegações não foram confirmadas oficialmente por autoridades brasileiras em documentos públicos acessíveis.

O QUE ESTÁ SOB INVESTIGAÇÃO

Hoje, as apurações sobre o caso buscam responder perguntas centrais:


  • quem financiou a compra do Banco Máxima
  • quem participou da capitalização do banco ao longo dos anos
  • qual era o lastro real dos ativos que sustentavam a expansão da instituição
  • e se houve participação de investidores ocultos

Essas respostas ainda dependem das investigações em andamento

UM CASO QUE AINDA NÃO TERMINOU

A história do Banco Master ainda está longe de ser encerrada.


O que começou com a compra de um banco pequeno por um empresário do setor imobiliário acabou se transformando em uma crise financeira de grande impacto e em uma investigação que busca esclarecer a verdadeira estrutura por trás de um crescimento que, para muitos observadores do mercado, sempre pareceu rápido demais.


E enquanto as investigações avançam, a pergunta que permanece aberta é a mesma que hoje ecoa em todo o sistema financeiro brasileiro:


de onde veio, afinal, o dinheiro que financiou essa ascensão meteóricas?


ASFALTO EM COLAPSO MINISTÉRIO PÚBLICO ACIONA PREFEITURA DE SÃO MIGUEL DO ARAGUAIA NA JUSTIÇA

Uma Ação Civil Pública protocolada pelo Ministério Público de Goiás colocou oficialmente no centro do debate público uma realidade que há anos faz parte do cotidiano dos moradores de São Miguel do Araguaia: ruas esburacadas, pavimento deteriorado, erosões e uma infraestrutura viária que, segundo o próprio Ministério Público, atingiu um “estado crítico de deterioração generalizada”.


O documento judicial não trata de um buraco isolado ou de uma reclamação pontual de moradores. O que o Ministério Público descreve é algo muito mais grave: um problema estrutural na política pública de manutenção da malha viária urbana do município.


Segundo a promotoria, diligências realizadas com registro fotográfico e georreferenciamento constataram buracos, desníveis, erosões e ausência de pavimentação em diversos pontos da cidade, comprometendo a segurança de motoristas, ciclistas e pedestres.


A consequência direta é uma rotina de risco diário para quem simplesmente precisa circular pela cidade.


Mas a história revelada no processo judicial mostra que o problema não começou agora.


De acordo com o Ministério Público, a precariedade do asfalto em São Miguel do Araguaia já vinha sendo acompanhada institucionalmente desde 2018, quando foi instaurado um procedimento administrativo para fiscalizar obras de pavimentação e recapeamento vinculadas a convênios públicos.


Essas obras envolviam diversos bairros da cidade, entre eles Morada do Sol, Residencial Cristal, Residencial Maria Rita e Bela Vista.


O objetivo era acompanhar a execução de projetos financiados por programas estaduais e federais destinados justamente à melhoria da infraestrutura urbana.


O que se acumulou ao longo dos anos, porém, foi uma sequência de problemas.


Segundo a própria ação judicial, foram identificados entraves como suspensão de programas estaduais, liberação parcial de recursos, execução incompleta de serviços, rescisão de contratos com empresas responsáveis pelas obras e dificuldades administrativas que impediram a continuidade de determinados repasses.


Mesmo com o acompanhamento do Ministério Público e sucessivas requisições de informações à prefeitura, a situação da malha viária não foi solucionada.


Ao contrário.


O cenário encontrado nas diligências recentes revelou que a deterioração do pavimento urbano se espalhou por diversos setores da cidade, incluindo áreas residenciais e vias de grande circulação.


Para o Ministério Público, a situação ultrapassa a esfera de um simples problema administrativo.


O que está em jogo, segundo a ação, é a violação de direitos coletivos da população, especialmente o direito à segurança viária, à mobilidade urbana e a um ambiente urbano adequado.


Na avaliação da promotoria, a degradação das ruas não pode ser tratada apenas como um inconveniente urbano.


Buracos em vias públicas aumentam o risco de acidentes, provocam prejuízos materiais recorrentes aos cidadãos, dificultam o acesso a serviços essenciais e comprometem diretamente a qualidade de vida da população.


Por isso, o Ministério Público sustenta que a situação configura uma omissão grave do poder público municipal no cumprimento de seu dever constitucional de manter e conservar os logradouros públicos.


Diante desse cenário, a promotoria decidiu levar o caso ao Judiciário.


Na ação protocolada na Vara de Fazendas Públicas da Comarca de São Miguel do Araguaia, o Ministério Público pede que a Justiça obrigue o município a adotar medidas concretas para enfrentar o problema.


Entre os pedidos apresentados está a determinação para que a prefeitura apresente um plano emergencial de intervenção nas vias mais críticas, com sinalização imediata dos buracos que representem risco à segurança e realização de reparos urgentes.


Mas o pedido central vai além.


A promotoria requer que o município elabore e apresente à Justiça um Plano Estrutural de Recuperação e Manutenção da Malha Viária Urbana, contendo mapeamento completo das ruas danificadas, definição de prioridades técnicas, cronograma de execução das obras, previsão orçamentária e implementação de uma política permanente de manutenção preventiva.


A lógica do Ministério Público é clara: tapar buracos de forma esporádica não resolve um problema estrutural.


É preciso criar uma política pública planejada e contínua de manutenção das vias urbanas.


A ação também pede que a Justiça estabeleça multas diárias caso o município descumpra as determinações judiciais.


Além disso, a promotoria solicita a condenação do município ao pagamento de indenização por dano moral coletivo, sob o argumento de que o estado de abandono das ruas impõe à população um sentimento cotidiano de insegurança, prejuízo e descaso por parte do poder público.


Se acolhida pela Justiça, a ação pode obrigar a prefeitura não apenas a reparar os buracos existentes, mas também a estruturar uma política permanente de manutenção da infraestrutura viária da cidade.


Em termos institucionais, o processo coloca em discussão uma questão essencial: até que ponto o poder público pode permanecer inerte diante da deterioração de serviços básicos que impactam diretamente a vida da população.


Agora, caberá ao Judiciário analisar o caso e decidir se a situação descrita pelo Ministério Público exige uma intervenção judicial para obrigar o município a reorganizar sua política de manutenção das ruas.

Enquanto isso, nas ruas de São Miguel do Araguaia, os buracos continuam sendo uma realidade diária para quem precisa simplesmente atravessar a cidade.

E a pergunta que permanece no ar é simples, mas incômoda:


quanto tempo uma cidade pode conviver com o colapso de sua própria infraestrutura antes que alguém seja finalmente obrigado a agir?