segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

PÊNALTI, VAR E HIPOCRISIA: A DISPUTA QUE COMEÇA ANTES DA BOLA ROLAR

O futebol goiano vive mais um capítulo previsível da sua própria hipocrisia institucional. Quando a decisão da arbitragem favorece, o silêncio impera. Quando prejudica, nasce a tese da conspiração.

No duelo envolvendo a Anapolina, a reclamação é clara: pênalti não marcado, Goiás beneficiado. Se fosse o contrário, alguém acredita que o Goiás estaria em silêncio? Evidentemente não. O discurso seria outro. A narrativa seria de “erro grave”, “pressão externa”, “falta de respeito com a camisa”.

No clássico entre Atlético e Vila Nova, a história se repetiu. Penalidade reclamada, decisão mantida, VAR silencioso. O Vila reage, aponta dedo, questiona federação, fala em prejuízo.

Mas aqui está o ponto que ninguém quer encarar: isso não é sobre justiça esportiva. É sobre correlação de forças.

Ao longo dos anos, os grandes clubes goianos aprenderam que campeonato não se disputa apenas nas quatro linhas. Existe o jogo político. Existe a pressão institucional. Existe o bastidor. E todos — absolutamente todos — já souberam jogar esse jogo quando lhes foi conveniente.

Durante muito tempo, o Goiás soube transitar nesse ambiente com habilidade. Depois, o Atlético consolidou força administrativa e institucional. O Vila Nova, historicamente com menos influência nos bastidores, quase sempre reclamou de desvantagem estrutural.

Agora o Vila grita. E o grito é compreensível. Mas não é um grito inocente. É o grito de quem está aprendendo a disputar o mesmo território de poder.

A verdade incômoda é simples: não há mocinhos nessa narrativa.

Quando a balança pende a favor, é “interpretação”.

Quando pende contra, é “escândalo”.

Quando se perde a queda de braço política, vira “arbitragem tendenciosa”.

O problema do Campeonato Goiano não é apenas técnico. É cultural. É institucional. É estrutural.

Enquanto os clubes continuarem investindo energia em medir força fora de campo, o roteiro será sempre o mesmo: polêmica no domingo, nota oficial na segunda, indignação estratégica na terça e memória curta na quarta.

No fundo, ninguém quer um campeonato neutro. Querem um campeonato onde sua influência pese mais.

E o torcedor, que acredita que o jogo começa no apito inicial, raramente percebe que ele começa muito antes — nas salas fechadas, nos corredores, nas conversas reservadas.


No  Campeonato Goiano, a indignação não nasce do erro.

Nasce de quem perdeu o controle do bastidor.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

ROMÁRIO POLICARPO — “VOCÊ NÃO APITA MAIS”: DO PLENÁRIO AO VESTIÁRIO

Entre o calor da derrota e o limite da institucionalidade existe uma linha. No Estádio Antônio Accioly, após o Vila Nova ser derrotado por 2 a 0 pelo Atlético, essa linha pode ter sido ultrapassada.

O vídeo gravado após o jogo, na saída dos vestiários, mostra que o árbitro Eduardo Tomaz foi duramente cobrado por dirigentes do Vila. Até aí, nada incomum no futebol brasileiro. O problema começa quando a cobrança vira intimidação. E a frase atribuída ao presidente da Câmara Municipal, Romário Policarpo, não é simples desabafo de torcedor:

“Você é o culpado. Você não apita mais jogo do Vila.”

Aqui o futebol encontra a política — e o choque não é pequeno.

Afirmar que um árbitro “não apita mais” determinado clube não é mera crítica técnica. É uma declaração que sugere poder de interferência na escala de arbitragem. E isso toca diretamente na autonomia da Federação e na credibilidade da competição. Se um dirigente ameaça excluir um árbitro do calendário do clube, está insinuando que pode influenciar quem apita ou deixa de apitar. Isso não é indignação. Isso é pressão.


E quando essa frase parte de alguém que ocupa a presidência de um Poder Legislativo, o peso muda. Não é um torcedor exaltado na arquibancada. É uma autoridade pública. E autoridade pública não fala apenas por si — fala sob o peso do cargo.



O futebol admite erro de arbitragem. O que não pode admitir é ambiente de intimidação. Se a abordagem ocorreu em área restrita, na saída dos vestiários, o episódio se agrava. Árbitro não é inimigo de clube. É agente da partida. Se errou, a análise é técnica. Se houve irregularidade, existem canais formais de reclamação. O que não existe no ordenamento esportivo é o direito de ameaçar.


O Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê punições para constrangimento, ameaça e ofensa a membro da arbitragem. A Federação Goiana de Futebol, se os fatos se confirmarem, não pode tratar o caso como “clima de jogo”. Silêncio institucional, nesse cenário, vira normalização de pressão.


O ponto mais grave não é a derrota do Vila. Nem o suposto erro do árbitro. É o recado que fica: pode autoridade política constranger arbitragem sem consequência?

Se a resposta for sim, o problema não está na marcação do pênalti. Está na estrutura do futebol.

Perder faz parte do esporte. Ameaçar não.


DANIEL VILELA: O HERDEIRO SEM LIDERANÇA POLÍTICA

Entre o sobrenome que já não basta e a sombra que não vira liderança

Existe uma diferença brutal entre ocupar um espaço e ser dono dele. Daniel Vilela ocupa. Mas ainda não provou que lidera. E essa distinção, em política majoritária, é fatal.

Filho de Maguito Vilela, Daniel herdou estrutura, sobrenome, rede de contatos e memória eleitoral. O que não foi a densidade simbólica do pai. Maguito construiu base popular real, deixou marca administrativa concreta e criou identidade própria antes de virar herança. Daniel fez o caminho inverso: recebeu o capital antes de consolidar trajetória autoral. Isso gera uma pergunta incômoda — onde termina o legado e começa o vazio?

O MDB que já foi máquina de poder em Goiás virou apêndice. E sob o comando de Daniel, deixou de ser protagonista para operar como satélite. A legenda que já teve voz própria agora ecoa o discurso do Palácio. E quando um partido histórico passa a depender de um governo para sobreviver, ele deixa de ter identidade e passa a ter conveniência.

O problema não é apenas estrutural. É simbólico. Daniel não é Iris Rezende — não tem a mística, o magnetismo, a memória afetiva que arrastava multidões. Iris representava uma era. Daniel representa um momento administrativo. E eleição majoritária não se vence com planilha; vence-se com narrativa.

Também não é Ronaldo Caiado. Caiado tem identidade ideológica clara, discurso definido, enfrentamento explícito. Pode-se concordar ou não com ele, mas ninguém tem dúvida sobre quem ele é politicamente. Daniel, ao contrário, navega numa zona cinzenta: técnico demais para ser carismático, institucional demais para ser combativo, discreto demais para ser líder de ruptura.

E política não perdoa ausência de marca.

Hoje, a principal imagem que cola é a de sucessor automático. De continuidade burocrática. De vice que aguarda o tempo passar. Isso é confortável para o grupo no curto prazo, mas perigoso no médio. Porque quando surge qualquer ator com narrativa mais agressiva, mais definida ou mais identitária, o contraste aparece — e a fragilidade também.

Daniel não construiu uma bandeira própria. Não deixou um grande marco legislativo, não imprimiu uma agenda reconhecível, não criou uma pauta que o eleitor associe imediatamente ao seu nome. Sem isso, sobra dependência. Dependência da máquina, da articulação de terceiros, da sombra do governador

E sombra não vira liderança — vira extensão.

O MDB sob seu comando deixou de ser partido de raiz para virar legenda de sustentação. O herdeiro não virou fundador de um novo ciclo. Virou administrador do que restou.

No fim, a questão não é se Daniel é competente. A questão é se ele é indispensável. E, na política, quem não se torna indispensável rapidamente descobre que o poder não pertence a quem espera — pertence a quem constrói identidade.

Se a eleição fosse hoje, o eleitor saberia exatamente quem é Daniel Vilela? Ou apenas saberia de quem ele é filho e de quem ele é aliado?

Essa é a diferença entre carregar um sobrenome e ter um legado.


DANIEL ENTRE A SOMBRA E O ABISMO



O quadro que se desenha é simples e brutal.


Daniel Vilela perdeu o PL.

Perdeu o ativo eleitoral que poderia representar musculatura ideológica.

Perdeu Gustavo Gayer como possibilidade de composição ao Senado.

Perdeu Ana Paula Rezende — e com ela, parte simbólica do legado de Iris Rezende.


O que restou?


Restou a máquina.

Restou a vice-governadoria.

Restou a sombra de Ronaldo Caiado.


E aqui está o ponto mais sensível.


Hoje, Daniel depende estruturalmente de Caiado.

Sem Caiado, não há narrativa de continuidade.

Sem Caiado, não há discurso consolidado.

Sem Caiado, não há identidade majoritária.


Mas essa dependência é uma aposta de risco.


Se Caiado avançar em um projeto presidencial e mergulhar num jogo nacional, Goiás deixa de ser o centro da estratégia. Campanha nacional exige articulação fora do estado, negociações amplas, tempo, presença. E governador candidato à Presidência não faz campanha estadual para sucessor — faz campanha para si.


Se o projeto presidencial prosperar, Daniel vira figurante regional enquanto o líder vira protagonista nacional.


Se o projeto presidencial fracassar e Caiado tiver que apoiar outro nome, o foco será sobrevivência política no cenário federal — não blindagem de sucessão estadual.


Em ambos os cenários, Daniel corre o risco de ficar órfão operacional.


E política não tolera órfãos.


Sem PL, sem Rezende, sem puxador ideológico forte e dependente de um governador que pode sair do tabuleiro estadual, Daniel pode entrar numa eleição com estrutura — mas sem empolgação.


E eleição majoritária sem empolgação vira disputa de sobrevivência.


Se surgir uma candidatura competitiva, com narrativa forte e identidade própria, Daniel pode se ver numa situação delicada: não ser o candidato do entusiasmo, mas o candidato da obrigação.


E aí surge o risco real: polarização fora do seu controle e possibilidade concreta de ficar fora do segundo turno.


Não porque seja fraco tecnicamente.

Mas porque pode ser percebido como insuficiente simbolicamente.


No fim, a questão não é se Daniel tem cargo.


A questão é se ele tem projeto.


Se continuar apostando apenas na continuidade automática e na força de Caiado, pode acordar tarde demais — isolado, dependente e, no momento decisivo, um boi fora da manada.


Agora a pergunta estratégica:


Daniel ainda tem tempo para construir identidade própria

ou já entrou na fase de sobrevivência política?



PAULO DO VALE PEDE EXPLICAÇÕES NA JUSTIÇA MAS QUEM DEVE EXPLICAÇÕES É ELE

QUEM GOVERNOU OITO ANOS NÃO PODE SE ESCONDER ATRÁS DE UMA INTERPELAÇÃO JUDICIAL

Paulo do Vale ingressou na Justiça pedindo explicações a Lissauer Vieira. A medida busca delimitar se declarações feitas em vídeo configuraram acusação formal ou simples crítica política. No papel, trata-se de um instrumento jurídico legítimo. No plano político, porém, o gesto soa como uma tentativa de inverter o eixo do debate público.

Porque a pergunta central não é o que foi dito nas redes sociais.

A pergunta central é o que foi feito durante oito anos de governo.

Durante dois mandatos consecutivos à frente da Prefeitura de Rio Verde, a contratação da coleta de lixo seguiu um padrão reiterado de contratações emergenciais. Emergência após emergência. Ano após ano. A exceção virou rotina administrativa. O que deveria ser solução temporária tornou-se modelo permanente.

E aqui não se trata de narrativa. Trata-se de atos administrativos documentados.

O Tribunal de Contas dos Municípios analisou a prática. Houve apontamentos formais. Houve decisões. Houve determinações para que o município realizasse procedimento licitatório regular. A orientação técnica foi clara: contratação emergencial não pode substituir licitação definitiva como regra estrutural.

Ainda assim, o modelo permaneceu.

A Constituição Federal, em seu artigo 37, estabelece que a administração pública deve obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. A licitação é regra. A dispensa por emergência é exceção, condicionada a circunstâncias imprevisíveis e temporárias. Quando a exceção se repete por anos consecutivos, o debate deixa de ser técnico e passa a ser político.

E é exatamente nesse ponto que a inversão se revela.

Ao buscar judicialmente que outro ator político “explique” suas palavras, Paulo do Vale tenta deslocar o foco daquilo que a cidade ainda discute: por que, ao longo de oito anos, não foi consolidado um processo licitatório definitivo para a coleta de lixo? Por que a emergência virou método administrativo? Por que, mesmo diante de alertas e orientações do Tribunal de Contas, o modelo não foi alterado?

Essas são perguntas públicas.

E perguntas públicas não se resolvem com interpelação judicial.

Some-se a isso o contexto atual. O Ministério Público deflagrou operações no município. Um ex-presidente da Câmara Municipal, aliado político durante o período da gestão, foi alvo de medidas cautelares e prisão. As investigações seguem. O ambiente institucional mudou radicalmente. O que antes era hegemonia política hoje é escrutínio permanente.

E nesse novo ambiente, a tentativa de judicializar o debate político pode até produzir efeito simbólico momentâneo, mas não altera o histórico administrativo.

Não se trata de afirmar crime. Não se trata de antecipar conclusões de investigações. Trata-se de responsabilidade política por atos de gestão.

Quem governou por oito anos responde politicamente pelas escolhas feitas. Responde pelo modelo adotado. Responde pelas contratações reiteradas. Responde pelas decisões administrativas que ignoraram recomendações técnicas.

É legítimo buscar o Judiciário quando se entende que houve excesso retórico. Mas é insuficiente usar a via judicial como escudo político.

Rio Verde não está discutindo palavras.

Está discutindo atos.

Está discutindo modelo de gestão.

Está discutindo a repetição de emergenciais como política administrativa.

Está discutindo a relação entre Executivo e Legislativo em um período marcado por forte alinhamento político.

E a pergunta que ecoa é simples, direta e incontornável: quem deve explicação?

Quem fez um vídeo crítico?

Ou quem conduziu a administração municipal por quase uma década mantendo um padrão reiterado de contratação emergencial?

A cidade amadureceu. O ambiente institucional não é mais o mesmo. A era da autoridade incontestável acabou. O tempo em que a Câmara funcionava como extensão automática do Executivo passou. O Ministério Público atua. Os órgãos de controle acompanham. A sociedade observa.

Não é tempo de inverter papéis.

É tempo de prestar contas.


Se há questionamentos políticos, a resposta adequada não é a intimidação retórica nem a tentativa de deslocar o foco. A resposta adequada é transparência, documentação, explicação técnica detalhada sobre cada contrato emergencial firmado ao longo dos anos.

Porque governar é decidir.

E decidir gera responsabilidade.

Paulo do Vale tem direito de buscar esclarecimentos judiciais. Mas Rio Verde tem direito de cobrar explicações administrativas.


E essas explicações não dizem respeito ao que foi falado agora.

Dizem respeito ao que foi feito durante oito anos.

O debate não é sobre quem acusa.

O debate é sobre quem administrou.

E isso não se resolve em petição inicial.

Se resolve com prestação de contas.