As prisões ocorreram após flagrante envolvendo servidores, prestadores de serviço e agentes privados, em um posto credenciado. Caminhões vinculados à Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) eram abastecidos com cartões corporativos, com volumes elevados de diesel que, segundo as investigações, eram desviados e revendidos no mercado paralelo. O que agora aparece como escândalo policial já havia sido apontado como risco administrativo.
Denúncias anteriores levantaram questionamentos sobre contratos de abastecimento firmados no âmbito da Seinfra, incluindo suspeitas de irregularidades e direcionamento em processos licitatórios envolvendo a empresa Nel Facilidades. À época, os alertas indicavam exatamente o ponto que agora se confirma como vulnerável: o modelo baseado em cartões de abastecimento, com alto grau de autonomia operacional e baixo controle efetivo em campo. Não houve resposta concreta.
Posteriormente, a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) adotou movimento semelhante. Um contrato vigente foi cancelado, dando lugar a um novo processo licitatório que também foi alvo de questionamentos. Antes mesmo da conclusão, já havia previsão sobre o resultado — e, ao final, a mesma empresa foi declarada vencedora. As denúncias foram levadas aos órgãos competentes, incluindo o Tribunal de Contas dos Municípios. Também não houve intervenção.
Agora, com a deflagração do esquema, o que se vê é a materialização de um risco que já estava posto. Segundo a investigação, motoristas realizavam abastecimentos de até mil litros de diesel, utilizando cartões públicos, com apoio interno e participação de terceiros. O combustível era desviado e comercializado por valores abaixo do mercado, em operações repetidas ao longo da semana. O prejuízo estimado ultrapassa R$ 500 mil em curto período. Mas o dado financeiro, por si só, não é o mais relevante.
O ponto central está no modelo que permitiu a operação. Um sistema que depende de controles posteriores, com baixa rastreabilidade imediata e margem operacional suficiente para desvio, torna-se, na prática, um ambiente de risco elevado quando não há fiscalização rigorosa.
E é exatamente esse modelo que já havia sido alvo de questionamento. Importante destacar que, até o momento, não há indicação formal de envolvimento da empresa Nel Facilidades no esquema investigado. O que se coloca, à luz dos fatos, é a coincidência entre o modelo operacional adotado e as fragilidades anteriormente apontadas.
A Prefeitura de Goiânia informou a abertura de processo administrativo e a responsabilização dos envolvidos. As medidas são necessárias — mas chegam após a ocorrência do dano. O caso agora ultrapassa a esfera policial e entra no campo institucional.
Porque a sequência dos fatos levanta uma questão inevitável: o problema estava sendo ignorado — ou foi subestimado? Quando denúncias são feitas, padrões são antecipados e resultados previsíveis se confirmam, o debate deixa de ser episódico.
A Prefeitura abriu processo administrativo. O protocolo está correto. Mas o problema não nasceu agora — ele só apareceu. Porque quando um sistema permite que combustível público vire moeda no mercado paralelo, o erro não está só em quem executa.
Está em quem desenhou, em quem ignorou os alertas — e, principalmente, em quem decidiu não agir quando ainda dava tempo. O escândalo não começa na bomba de combustível. Ele começa na decisão de não interromper o que já estava errado.


