JHC CONFIRMA RONALDO LESSA PARA O FECOEP, ENQUANTO ONDA DE EXONERAÇÕES MARCA RETA FINAL DO GOVERNO PAULO DANTAS
EXCLUSIVO | ANÁLISE POLÍTICA — BLOG DO CLEUBER CARLOS | 13 DE OUTUBRO DE 2026
Governador eleito começa a definir a estrutura de sua administração com o anúncio de Ronaldo Lessa para o Fundo de Combate à Pobreza. Ao mesmo tempo, decretos assinados por Paulo Dantas provocam uma onda de desligamentos na máquina estadual, atingindo cargos de chefia, assessoria e supervisão. Levantamentos da imprensa divergem sobre o total de exonerações, que chega a 180 em uma das contagens.
A transição do poder em Alagoas começou a produzir movimentos concretos antes mesmo da instalação formal da equipe que conduzirá a passagem administrativa entre o governador Paulo Dantas, do MDB, e seu sucessor, João Henrique Caldas, o JHC, do PSDB. De um lado, o governador eleito começa a apresentar os nomes que participarão de sua administração. Do outro, o governo que se encerra em dezembro promove uma série de exonerações que alcançam diferentes órgãos da estrutura estadual, abrindo questionamentos sobre o funcionamento da máquina pública durante os últimos meses do mandato.
O primeiro nome anunciado por JHC para uma função estratégica é o do ex-governador Ronaldo Lessa, do PDT, escolhido para coordenar o Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza, o Fecoep. A indicação, inicialmente anunciada durante a campanha eleitoral, ganhou novo significado político depois da vitória de JHC nas urnas de 4 de outubro e da renúncia de Lessa ao cargo de vice-governador, formalizada na sexta-feira, 9 de outubro.
Na mesma data, o Diário Oficial do Estado trouxe uma extensa relação de exonerações determinadas por Paulo Dantas. Os decretos haviam sido assinados no dia anterior, 8 de outubro, apenas quatro dias depois da eleição que encerrou a sequência de governos estaduais comandados pelo MDB.
A coincidência temporal entre a definição do novo comando político e os desligamentos administrativos merece acompanhamento. Entretanto, os atos publicados não apresentam justificativas individuais que permitam afirmar que as exonerações foram motivadas pelo resultado eleitoral ou determinadas como parte de um acordo de transição.
RONALDO LESSA DEIXA A VICE-GOVERNADORIA E SE APROXIMA DO CENTRO DAS DECISÕES
A renúncia de Ronaldo Lessa representa mais do que o encerramento antecipado de sua participação na administração de Paulo Dantas. Ex-governador por dois mandatos, ex-prefeito de Maceió e ex-deputado federal, Lessa reúne experiência administrativa e trânsito político em diferentes campos partidários.
Eleito vice-governador em 2022 na chapa de Paulo Dantas, Lessa rompeu com o grupo governista em abril de 2026 e decidiu apoiar a candidatura de JHC. A decisão colocou o pedetista em posição distinta daquela ocupada pelo MDB, partido que buscava manter o controle do Palácio República dos Palmares por meio da candidatura de Renan Filho.
Em sua carta de renúncia, entregue em 9 de outubro, Lessa informou que colaboraria com a estruturação do novo governo. A Assembleia Legislativa foi oficialmente comunicada do desligamento, conforme manifestação divulgada pela administração estadual.
A escolha para o Fecoep havia sido anunciada por JHC em 19 de setembro, ainda durante a campanha. Portanto, não se trata de uma indicação surgida depois das eleições, mas da confirmação política de um compromisso anterior.
O cargo, entretanto, ainda depende dos procedimentos administrativos e da formalização cabível na nova gestão, que começará em janeiro de 2027.
FECOEP: UM FUNDO QUE MOVIMENTA RECURSOS PARA POLÍTICAS SOCIAIS
A escolha de Ronaldo Lessa ganha relevância pelo alcance das políticas públicas financiadas pelo Fundo Estadual de Combate e Erradicação da Pobreza.
O Fecoep foi instituído para financiar ações destinadas à melhoria das condições de vida da população alagoana, especialmente em áreas como alimentação, habitação, educação, saúde, saneamento básico e complementação de renda familiar.
A legislação estabelece que os recursos devem ser aplicados em programas de interesse social voltados ao enfrentamento da pobreza. Isso significa que a administração do fundo envolve decisões sobre prioridades, programas beneficiados, execução orçamentária e acompanhamento dos resultados alcançados.
O volume exato de recursos disponível para 2026 e a previsão para 2027 precisam ser apurados nas peças orçamentárias e nos demonstrativos oficiais. O Portal da Transparência de Alagoas disponibiliza a Lei Orçamentária Anual e o Quadro de Detalhamento de Despesas, documentos essenciais para identificar dotações e acompanhar sua execução.
Uma das questões que deverão ser esclarecidas é qual será o desenho administrativo escolhido por JHC para a coordenação do fundo, quais poderes de decisão serão atribuídos a Ronaldo Lessa e como ocorrerá a fiscalização dos recursos.
A presença do ex-governador também poderá ter importância na interlocução política com setores ligados ao governo federal, uma vez que Lessa mantém apoio ao presidente Lula, apesar de ter integrado a aliança estadual que elegeu JHC.
Essa possível função de interlocução, porém, ainda deve ser tratada como uma perspectiva política, e não como uma atribuição institucional oficialmente definida.
PAULO DANTAS ASSINA DECRETOS DE EXONERAÇÃO QUATRO DIAS DEPOIS DA ELEIÇÃO
Enquanto JHC inicia a organização de seu futuro governo, a administração de Paulo Dantas passa por uma movimentação significativa em sua estrutura de pessoal. Os atos publicados no Diário Oficial de 9 de outubro atingiram servidores que ocupavam funções de direção, assessoramento, supervisão e gerenciamento em diferentes órgãos estaduais.
Há uma divergência importante nos números divulgados pela imprensa. O portal Francês News contabilizou 177 exonerações. O CadaMinuto informou 180 desligamentos, enquanto o 7Segundos destacou 103 exonerações em seu levantamento. As três publicações fazem referência aos atos assinados em 8 de outubro e publicados no dia seguinte.
A divergência exige conferência individual dos decretos para estabelecer o número definitivo, distinguir servidores efetivos de ocupantes de cargos comissionados e identificar eventuais atos repetidos ou contabilizados por critérios diferentes.
O que já está documentado é que a movimentação alcançou diferentes áreas da administração e ocorreu imediatamente depois da derrota eleitoral do grupo governista.
Segundo o levantamento publicado pelo CadaMinuto, as exonerações se concentraram especialmente em três órgãos:
Secretaria da Primeira Infância: 18 desligamentos.
Secretaria da Infraestrutura: 17 desligamentos.
Secretaria de Relações Federativas e Internacionais: 16 desligamentos.
Também foram atingidas a Secretaria da Indústria, Comércio e Serviços, a Secretaria da Cidadania e da Pessoa com Deficiência e a Controladoria-Geral do Estado, entre outras estruturas administrativas.
O conjunto dos atos alcança funções intermediárias de gestão, incluindo superintendentes, gerentes, supervisores e assessores especiais. São cargos que, dependendo de suas atribuições, podem participar diretamente da execução de programas, da fiscalização de contratos e da organização administrativa das secretarias.
EXONERAÇÕES NÃO COMEÇARAM NO DIA 9
Outro elemento relevante é que os desligamentos publicados na sexta-feira não constituíram uma movimentação isolada.
Na edição anterior do Diário Oficial, divulgada em 8 de outubro, já haviam sido registradas 35 exonerações, das quais 25 ocorreram na Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária.
O movimento foi acompanhado por nomeações pontuais. Na edição de 9 de outubro, três pessoas foram nomeadas para cargos na Agricultura, conforme levantamento publicado pela imprensa local.
O CadaMinuto identificou as nomeadas e o nomeado: Emilly Pereira Mota Vieira, para assessoria especial; José Lindberg Rodrigues dos Santos, para assessoria técnica; e Karine Victoria Tavares Maciel, para uma função de assessoria de transparência.
A existência dessas nomeações demonstra que as alterações não se limitaram ao encerramento de vínculos funcionais. Houve também recomposição de parte da estrutura administrativa, ainda que em escala menor do que a dos desligamentos divulgados.
Essa circunstância abre uma frente objetiva de investigação: identificar quais funções foram extintas, quais permaneceram vagas e quais receberam novos ocupantes.
EXONERAR COMISSIONADOS É LEGAL, MAS OS MOTIVOS PRECISAM SER ESCLARECIDOS
A legislação brasileira permite a livre nomeação e exoneração de ocupantes de cargos em comissão, observados os requisitos constitucionais e legais. A Lei das Eleições, em seu artigo 73, inciso V, estabelece restrições à movimentação de servidores durante determinados períodos eleitorais, mas ressalva expressamente a nomeação e a exoneração de cargos em comissão e a designação ou dispensa de funções de confiança.
Portanto, o fato de os decretos terem sido assinados quatro dias depois da eleição não representa, isoladamente, evidência de ilegalidade.
A questão jornalística é outra: por que houve uma concentração tão expressiva de desligamentos justamente nesse momento?
A redução foi motivada por reorganização administrativa? Contenção de despesas? Encerramento de compromissos políticos? Substituição de equipes? Ou decorreu de decisões individuais de gestão?
Até o momento, os decretos divulgados não permitem estabelecer uma resposta definitiva.
Também não há elementos suficientes para afirmar que as exonerações foram coordenadas com JHC ou que representem uma antecipação formal da transição administrativa.
A distinção é essencial. O governador Paulo Dantas permanece responsável pela administração estadual até o encerramento de seu mandato, enquanto JHC somente assumirá as atribuições de governador com a posse prevista para janeiro de 2027.
SECRETARIAS ATINGIDAS ADMINISTRAM POLÍTICAS E CONTRATOS RELEVANTES
A presença da Secretaria da Infraestrutura entre os órgãos com maior número de exonerações merece atenção particular.
A pasta participa da condução de obras e programas estruturantes do governo estadual. A saída simultânea de ocupantes de funções administrativas pode exigir redistribuição de responsabilidades, dependendo das atividades exercidas pelos servidores desligados.
Isso não significa, necessariamente, paralisação de obras ou interrupção de contratos. Para verificar eventuais consequências, será preciso identificar as atribuições dos cargos atingidos, os substitutos designados e a situação dos processos administrativos em andamento.
O mesmo raciocínio vale para a Secretaria da Primeira Infância, responsável por políticas voltadas às crianças, e para a Secretaria de Relações Federativas e Internacionais, que atua na interlocução institucional do estado.
No caso da Controladoria-Geral, a atenção deve recair sobre a continuidade dos procedimentos de controle interno, fiscalização e acompanhamento administrativo.
A pergunta que se impõe não é apenas quantos servidores foram exonerados, mas quais responsabilidades estavam sob seu comando e quem passou a exercê-las.
O DESAFIO DA TRANSIÇÃO ENTRE DOIS GRUPOS POLÍTICOS
A passagem do governo Paulo Dantas para a administração de JHC ocorre depois de uma disputa eleitoral que encerrou uma sequência de 12 anos de governos estaduais vinculados ao MDB.
JHC derrotou Renan Filho, enquanto a eleição para o Senado também modificou a representação política de Alagoas, com as vitórias de Marina JHC e Arthur Lira e a derrota de Renan Calheiros.
Esse novo cenário altera a relação entre os grupos que controlam o governo estadual e aqueles que passarão a ocupar os principais espaços de decisão a partir de janeiro.
A montagem do secretariado deverá revelar como JHC pretende distribuir responsabilidades entre antigos auxiliares da Prefeitura de Maceió, lideranças partidárias e integrantes da aliança que sustentou sua candidatura.
Nesse contexto, a escolha de Ronaldo Lessa representa uma das primeiras definições públicas do futuro governo. As demais secretarias, especialmente Fazenda, Saúde, Educação, Segurança Pública e Infraestrutura, continuam exigindo acompanhamento até que sejam anunciadas oficialmente.
A transição também deverá esclarecer a situação financeira encontrada pelo novo governador, os compromissos orçamentários já assumidos, as obras em andamento e os contratos que ultrapassarão o encerramento do mandato de Paulo Dantas.



