PERGUNTAS AO POLICIAL QUE LÊ
Delegado Edemundo Dias faz duro ataque ao abandono de veteranos da segurança pública
"Nós, os mal-intencionados, liderados pelos ignorantes, estamos fazendo o impossível pelos ingratos. Temos feito tanto, por tanto tempo, com tão pouco,
que agora estamos qualificados para fazer qualquer coisa com nada."
-- (Konstantin Jireček)
O governador, generoso como um rei medieval, anuncia com trombetas e selfies o “pacote de benefícios para a segurança pública”. Que belo pacote!
Tão cheio de carinho… para quem não enxerga o amanhã e só ainda respira sob uniforme novo. Mas, dize-me, veterano que lê, com Bertolt Brecht: “Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?
Nos livros estão nomes de reis; Os reis carregaram as pedras? E Babilônia, tantas vezes destruída, Quem a reconstruía sempre?Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a construíram? No dia em que a Muralha da China ficou pronta, Para onde foram os pedreiros? A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
Quem os erigiu? Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares?
Bizâncio, tão famosa, tinha somente palácios para seus moradores? Na legendária Atlântida, quando o mar a engoliu, os afogados continuaram a dar ordens a seus escravos?
O jovem Alexandre conquistou a Índia. Sozinho?
César ocupou a Gália. Não estava com ele nem mesmo um cozinheiro?
Felipe da Espanha chorou quando sua armada naufragou. Foi o único a chorar?
Frederico 2º venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem partilhou da vitória?
A cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias,
Tantas questões.”
Por isso sigo a perguntar:
quem foi que verteu sangue nas ruas para que o governador de plantão se insira a posar de salvador da pátria goiana?
Ou, foram apenas os jovens de hoje, com hora-extra e vale-alimento, ou os velhos combatentes inconvenientes que insistem em estar vivos e cobrar paridade e integralidade como se tivessem direito?
Que gesto magnânimo!
Deixar aposentados e pensionistas relegados como refugos.
Afinal, para que dar integralidade a quem já deu a vida?
Velho tolo, não vês que és um custo e tanto?
Um erro contábil com medalhas enferrujadas.
Um vexame público que teima em receber pensão
como se tivesse salvado Goiás em vez de apenas ter sangrado por ele. Mas, o governante sorri para as câmeras ao lado das tropas. “Olhem como cuido da segurança!”
E tu, que perdeste o joelho na perseguição de tempos idos, que enterraste colegas em noite revividas como assombro, que dormiste no frio e na chuva em “campanas” por anos a fio, tu não apareces na foto. É feio demais para a propaganda eleitoral. Que sabedoria!
Tratar quem já deu tudo como se fosse um estorvo. “Eles já foram úteis”, pensam os assessores engravatados. Agora são apenas despesa previdenciária. Melhor investir em viaturas novas e novas metralhadoras do que em remédios para quem tem bala e césio alojados no corpo. Que romântico seria se morressem como heróis todos no serviço…pelo menos não pesariam no orçamento.
O Império Romano, dizem, foi construído por Césares. Mentira cínica! Foi construído por soldados que apodreciam nas fronteiras e depois eram esquecidos. Exatamente como aqui e agora: “Goiás seguro” graças, também, aos veteranos? que hoje são tratados como cão velho que ainda late e atrapalha a campanha?
Então me responde, policial que lê com o ansiolítico na mão trêmula: Quem defende o defensor quando ele já não serve para a imagem? Quem honra o sangue quando o sangue já secou e virou despesa? Quem fala em gratidão enquanto divide os “úteis” dos “descartáveis”?
Dividir para governar, eis a máxima fascista. O pacote de “bondades” é risível, dizes entreouvidos.
Não, meu caro. É hilário. De uma ironia tão perversa e perfeita que o subserviente aplaudiria de pé: o governo que se elege com a imagem dos ventrículos inocentes,
cuspe na cara dos que tornaram real a opinião irreal. Bravo, senhor governador! Que generosidade seletiva!
Que coragem de abandonar quem já não pode marchar com a mesma força. Mas, a história, essa velha intrigante, há de registrar teu nome ao lado dos que sempre souberam transformar gratidão em mera propaganda?
Tu velho soldado, armado ou não, amado ou não! Tu sabes!
Tu sabes, onde a gratidão morre e onde a ingratidão nasce.
Tu sabes, onde o descaso abrolha. Onde a carne seca ao sol.
Mas, será que Tu sabes, porque viveste e porque ainda vives e estás de pé?
Edemundo Dias de Oliveira Filho - Delegado de Polícia de Classe Especial Veterano.
Diretor da ADPEGO e do SINDEPOL. Membro associado da UGOPOCI







