Deputada estadual eleita reconhece que seu nome não estava regularmente registrado na Justiça Eleitoral e atribui a situação a uma falha do próprio partido. Entretanto, o Ministério Público questiona a existência de provas confiáveis de que a filiação tenha ocorrido dentro do prazo legal e pede investigação da Polícia Federal.
Uma declaração de Carol do Hamilton Filho, deputada estadual eleita pelo MDB, coloca novamente sob questionamento a regularidade de sua candidatura à Assembleia Legislativa de Goiás.
Ao atribuir a uma falha administrativa do próprio partido a ausência de seu nome no sistema oficial de filiações da Justiça Eleitoral, Carol reconhece um fato central da controvérsia: sua filiação não estava regularmente registrada no sistema FILIA dentro do prazo exigido para disputar as eleições de 2026.
A explicação, apresentada pela própria candidata no processo judicial e reproduzida pelo Anápolis Diário, levanta uma pergunta decisiva: se Carol realmente estava filiada ao MDB desde 17 de novembro de 2025, onde estão as provas independentes capazes de confirmar essa condição?
A resposta tornou-se ainda mais importante depois que o Ministério Público Eleitoral identificou indícios de falsidade material e ideológica em documentos utilizados para sustentar a alegada filiação.
NÃO BASTA CULPAR O PARTIDO
A legislação eleitoral estabelece que a filiação partidária deve ocorrer pelo menos seis meses antes da eleição. Em 2026, o prazo terminou em 4 de abril.
Carol afirma que assinou sua ficha em novembro de 2025, mas que o MDB de Anápolis não realizou o lançamento no sistema da Justiça Eleitoral.
O diretório municipal confirmou sua versão.
Entretanto, o reconhecimento do partido não encerra a discussão.
A Súmula nº 20 do Tribunal Superior Eleitoral admite a comprovação da filiação por outros elementos, mas impede que documentos produzidos unilateralmente e sem fé pública sejam considerados suficientes por si mesmos.
É exatamente nesse ponto que a justificativa apresentada por Carol encontra seu maior obstáculo.
MINISTÉRIO PÚBLICO NÃO ENCONTROU A ATA DA SUPOSTA FILIAÇÃO
Em parecer assinado em 22 de outubro, o promotor eleitoral Lucas Danilo Vaz Costa Júnior informou que não encontrou, no livro original de atas do MDB de Anápolis, o registro da reunião de novembro de 2025 na qual Carol afirma ter formalizado sua filiação.
Também não foram apresentados, segundo o Ministério Público, elementos independentes suficientes para confirmar a realização daquela reunião.
A situação se agravou com a análise de outra ata, datada de setembro de 2026.
O promotor identificou uma página colada no livro original, diferenças de formatação, sinais de possível substituição de folhas e ausência da assinatura do presidente municipal do MDB.
O documento estava assinado pelo tesoureiro Vanderley Cezario de Lima, que também aparece em outros documentos utilizados para sustentar a filiação.
Para o Ministério Público, essas circunstâncias constituem indícios de possível fraude documental.
REPORTAGENS ALTERADAS ENTRARAM COMO PROVAS
Outro ponto especialmente grave envolve publicações jornalísticas apresentadas para demonstrar que Carol já participava das atividades do MDB antes da eleição.
Segundo o parecer, uma reportagem relacionada a uma solenidade realizada em março de 2025 foi apresentada com referência a março de 2026.
A Promotoria também identificou que a página havia sido modificada em 29 de setembro de 2026, três dias após a morte do deputado Amilton Filho.
Outra publicação, originalmente datada de maio, teria recebido alterações em 6 de outubro, dois dias depois da eleição e na véspera do julgamento do registro de candidatura.
O Ministério Público questiona se essas modificações foram utilizadas para produzir uma aparência de comprovação anterior do vínculo partidário.
A autoria e a finalidade das alterações, entretanto, ainda dependem de apuração.
UMA LIMINAR NÃO É COMPROVAÇÃO DEFINITIVA
Em 22 de outubro, o Tribunal Regional Eleitoral de Goiás manteve o registro da candidatura de Carol, considerando a existência de uma decisão liminar que reconhecia provisoriamente sua filiação ao MDB.
Mas existe uma diferença fundamental entre manter uma candidatura com base em uma decisão provisória e reconhecer definitivamente que todos os requisitos legais foram cumpridos.
A liminar não encerrou o processo de filiação, no qual o Ministério Público pede justamente sua revogação.
O promotor também solicitou a exclusão do registro provisório no FILIA e a remessa dos autos à Polícia Federal para investigação de possíveis crimes eleitorais.
A PERGUNTA QUE A JUSTIÇA PRECISA RESPONDER
A controvérsia não se resume mais a uma simples falha de cadastro.
A própria versão de Carol confirma que seu nome não estava regularmente lançado no sistema oficial no prazo legal. Isso, isoladamente, não constitui confissão de ausência de filiação, mas torna indispensável demonstrar que o vínculo partidário realmente existia antes de 4 de abril.
O problema é que justamente os documentos apresentados para comprovar essa condição passaram a ser questionados pelo Ministério Público.
Se a filiação não for definitivamente reconhecida, a situação poderá repercutir sobre a candidatura e a validade dos votos recebidos, conforme as decisões judiciais e os recursos cabíveis.
A pergunta central é inevitável: Carol do Hamilton Filho efetivamente se filiou ao MDB dentro do prazo legal ou sua candidatura foi sustentada por documentos incapazes de comprovar essa condição?
O Ministério Público já apresentou sua conclusão: considera insuficientes as provas e aponta fortes indícios de falsidade documental.
Cabe agora à Justiça Eleitoral decidir.
Até uma decisão definitiva, Carol permanece amparada pelas decisões judiciais vigentes, e as suspeitas não constituem prova conclusiva de fraude ou responsabilidade criminal.
O Blog do Cleuber Carlos continuará acompanhando o processo, porque a autenticidade dos documentos apresentados à Justiça Eleitoral e o cumprimento das condições de elegibilidade são questões de interesse público que exigem esclarecimento.





