
Durante meses, o prefeito Maycllyn Carreiro ajudou a construir em Morrinhos uma narrativa política ambiciosa: a cidade poderia voltar a ter um representante diretamente identificado com o município na Assembleia Legislativa de Goiás. O nome escolhido para materializar esse projeto foi o então presidente da Câmara Municipal, Leandro Ventura. A campanha ganhou corpo, apoios foram reunidos e a possibilidade de eleição passou a ser apresentada ao eleitorado como um projeto viável. Em agosto, uma publicação chegou a tratar Maycllyn como estando “a um passo” de realizar o sonho do morrinhense de voltar a ter representação própria na Alego.
As urnas deste domingo, 4 de outubro, entretanto, colocaram os números diante do discurso. Leandro Ventura recebeu 12.483 votos e não foi eleito deputado estadual. Na classificação geral de Goiás, terminou na 89ª posição e ficou como suplente. Dentro do próprio NOVO, partido pelo qual disputou a eleição com o número 30333, terminou somente na oitava colocação.
O resultado ganha dimensão política justamente porque a candidatura não surgiu como uma aventura individual de Ventura. Ela foi incorporada ao projeto do grupo de Maycllyn. Ainda em março, quando anunciou sua pré-candidatura, Leandro recebeu apoio público do prefeito, que declarou que caminharia com ele para que Morrinhos voltasse a ter um representante na Assembleia. Meses depois, o projeto continuava sendo tratado publicamente como uma tentativa de devolver ao município uma cadeira própria no Legislativo estadual.
Maycllyn, portanto, colocou seu próprio capital político nessa candidatura. E é exatamente por isso que o resultado não pode ser interpretado apenas como uma derrota pessoal de Leandro Ventura. As urnas também mediram a capacidade do grupo do prefeito de transformar influência municipal em votos numa disputa estadual.
O contraste fica ainda mais evidente quando se observa a nominata do NOVO. O partido conquistou duas cadeiras na Assembleia Legislativa, com 209.236 votos no conjunto da chapa. Foram eleitos Dr. Amarildo, com 43.130 votos, e Neto Karfan, com 18.628. Depois deles vieram Nayara Barcelos, com 16.423; Misael, 16.268; Brenda Gontijo, 15.471; Welton Lemos, 14.961; Waltinho, 13.067; e somente então Leandro Ventura, com 12.483 votos.
OS OITO MAIS VOTADOS DO NOVO:
1. Dr. Amarildo — 43.130 votos — ELEITO
2. Neto Karfan — 18.628 votos — ELEITO
3. Nayara Barcelos — 16.423 votos
4. Misael — 16.268 votos
5. Brenda Gontijo — 15.471 votos
6. Welton Lemos — 14.961 votos
7. Waltinho — 13.067 votos
8. Leandro Ventura — 12.483 votos
A classificação dos oito primeiros do NOVO deixa clara a distância entre a expectativa construída e a CONTA POLÍTICA QUE JÁ ERA CONHECIDA
O resultado também recupera uma discussão que o Blog do Cleuber Carlos havia levantado ainda durante a campanha. Em setembro, este blog publicou uma análise sobre a nominata do NOVO e chamou atenção justamente para a dificuldade que Ventura encontraria dentro do próprio partido. A reportagem apontava concorrentes com bases eleitorais consolidadas em cidades maiores ou votação distribuída pelo Estado e questionava a matemática política do projeto conduzido pelo grupo de Maycllyn.
A conta agora está encerrada pelas urnas.
Leandro precisava não apenas conseguir uma votação expressiva em Morrinhos. Precisava competir internamente com candidatos espalhados por diferentes regiões de Goiás. O NOVO efetivamente alcançou as duas cadeiras que estavam no horizonte das análises eleitorais, mas Ventura ficou distante delas. Entre ele e Neto Karfan, segundo colocado da legenda e eleito, houve uma diferença de 6.145 votos. E quatro outros candidatos ficaram entre os dois.
Isso muda substancialmente a leitura da derrota. Não faltou vaga ao partido. As vagas existiram. O problema é que Leandro não conseguiu chegar a uma delas.
DE 1.575 VOTOS PARA VEREADOR AO PROJETO ESTADUAL
Leandro Ventura não era um nome sem capital eleitoral em Morrinhos. Pelo contrário. Em 2024, havia sido o vereador mais votado da cidade, conquistando 1.575 votos. Natural de Morrinhos, chegou à presidência da Câmara e construiu proximidade política com a administração municipal. Sua candidatura estadual procurou transformar essa liderança local em uma votação regional e estadual.
O salto numérico existiu: de 1.575 votos numa eleição municipal para 12.483 numa disputa estadual. Mas eleições proporcionais não são decididas apenas pela comparação com o desempenho anterior do próprio candidato. É preciso olhar para a votação dos concorrentes da legenda. E foi justamente aí que o projeto encontrou seu limite.
Ventura terminou atrás de sete companheiros de partido.
A campanha havia arrecadado recursos privados e estruturado mobilização, veículos e publicidade. Dados parciais da prestação de contas, ainda durante o período eleitoral, mostravam gastos contratados superiores a R$ 150 mil. O resultado, porém, não foi suficiente para colocá-lo entre os dois nomes que transformaram os votos do NOVO em mandato.
MAYCLLYN VENDEU UM SONHO. AS URNAS ENTREGARAM OUTRA REALIDADE
É aqui que está o principal componente político do resultado.
Toda campanha tem direito de apresentar ao eleitor sua expectativa de vitória. O problema político surge quando uma possibilidade eleitoral é transformada em sensação de conquista praticamente ao alcance das mãos. Em Morrinhos, o discurso em torno da candidatura de Ventura foi além da apresentação de um candidato: trabalhou com um sentimento legítimo da população, o desejo de voltar a possuir um deputado diretamente ligado à cidade.
Maycllyn abraçou esse sentimento e colocou seu grupo para trabalhar pelo projeto.
Não conseguiu concretizá-lo.
O prefeito havia chegado ao comando do município com força política e passou a apostar na candidatura de um aliado para ampliar sua influência até a Assembleia Legislativa. O resultado de domingo estabelece, portanto, um primeiro parâmetro eleitoral importante para esse projeto de expansão: 12.483 votos, oitavo lugar no partido e suplência.
Isso não apaga a votação conquistada por Leandro nem encerra sua trajetória política. Ele continua sendo uma liderança local, foi o vereador mais votado de Morrinhos em 2024 e conseguiu ultrapassar 12 mil votos numa eleição estadual. Mas é necessário separar o desempenho pessoal do candidato da expectativa política construída em torno de sua eleição.
E, sob esse aspecto, o resultado é objetivo: Morrinhos não conquistou a cadeira que Maycllyn Carreiro e seu grupo apresentaram durante a campanha como um projeto possível para a cidade.
A política tem uma característica implacável: durante a campanha cabem projeções, discursos, mobilizações e expectativas. Depois da abertura das urnas, sobra a matemática.
E a matemática de 2026 mostrou que o NOVO conseguiu exatamente duas cadeiras, mas havia sete candidatos da legenda à frente de Leandro Ventura.
Maycllyn Carreiro vendeu o sonho de devolver a Morrinhos um deputado estadual. Mobilizou seu grupo, apostou seu capital político e transformou Leandro Ventura em uma das principais vitrines eleitorais de sua administração.
O sonho chegou às urnas. A cadeira, não.






