Casamento rompido, cálculo político e uma decisão que terminou em duas mortes inocentes
Itumbiara não vive apenas uma tragédia. Vive uma narrativa apressada. E quando a narrativa é simplificada demais, quase sempre esconde camadas que precisam ser expostas com responsabilidade.
Segundo informações apuradas por fontes próximas ao núcleo familiar, o que culminou na morte de duas crianças não começou na viagem a São Paulo. Começou meses antes — dentro de um casamento que já estava encerrado emocionalmente, mas mantido socialmente.
Thales e Sara eram casados há aproximadamente 15 anos. Tinham dois filhos, de 12 e 8 anos. O relacionamento, segundo relatos, já vinha desgastado. Há informação de que ele teria traído o casamento duas vezes. Após a segunda traição, Sara teria decidido que não continuaria a relação.
Mas não houve separação formal imediata.
E aqui entra o fator político.
Thales havia sido escolhido para disputar uma vaga de deputado estadual, com apoio do grupo político liderado pelo prefeito. A pré-candidatura teria sido lançada a partir de novembro. A separação naquele momento poderia significar desgaste eleitoral.
O casamento, então, teria sido mantido no papel. A convivência na mesma casa permaneceu. Mas, segundo relatos, a relação conjugal já não existia.
Ou seja: mantinha-se a estrutura formal para preservar imagem pública, enquanto a relação privada já estava rompida.
Em dezembro, segundo fontes, não havia mais vida de casal. Havia convivência sob o mesmo teto.
Nesse período, surge a suspeita de que Sara estaria se relacionando com Jonathan Ribeiro, empresário do ramo de reboque e morador do mesmo condomínio. A suspeita teria sido reforçada pela esposa de Jonathan, que comentou desconfianças ao próprio Thales, inclusive após coincidências de viagens para São Paulo.
A partir daí, segundo o que foi relatado à reportagem, Thales teria contratado um detetive particular para confirmar a suspeita. O material teria sido obtido.
Ao tomar conhecimento das imagens, ele liga para Sara e afirma que já sabia de tudo. Nessa conversa, segundo fontes, ela teria dito que não havia mais motivo para esperar a eleição — que a separação aconteceria imediatamente.
É nesse ponto que a história deixa de ser conjugal e passa a ser criminal.
Ainda segundo relatos, ele teria afirmado que mataria os filhos e depois tiraria a própria vida.
Desesperada, Sara liga para o pai e pede que vá imediatamente à residência. O prefeito se desloca.
Mas, segundo essa reconstrução, quando chega, a cena já estava consumada.
Thales teria espalhado gasolina pela casa, atirado contra os dois filhos — ambos atingidos na cabeça — e, em seguida, disparado contra si próprio. Uma vela teria sido acesa com indício de intenção de incêndio. O fogo não se consumou porque o pai de Sara teria conseguido apagar a chama ao chegar.
Se essa sequência for confirmada pela perícia, a tese de “surto momentâneo” perde força.
Espalhar combustível não é impulso.
Ameaçar antes não é impulso.
Executar com disparos direcionados na cabeça não é impulso.
Acender vela após espalhar gasolina não é impulso.
Isso sugere planejamento.
E planejamento muda completamente o enquadramento moral da história.
Traição não é crime. Desde 2005, adultério deixou de ser tipo penal. Pode ser erro moral. Pode ser dor afetiva. Mas não autoriza ninguém a tirar vidas.
Homicídio é crime.
Homicídio de menores é qualificadora.
Homicídio com impossibilidade de defesa é agravante.
Tentativa de incêndio também é crime.
O ordenamento jurídico brasileiro é claro.
A tragédia não pode ser instrumentalizada nem para proteger imagem política, nem para transformar erro conjugal em justificativa emocional para assassinato.
Se havia cálculo eleitoral para manter casamento de fachada, isso é decisão política.
Se havia ruptura afetiva, isso é decisão pessoal.
Mas a execução de duas crianças é decisão criminosa.
O debate agora precisa sair do sensacionalismo e entrar na responsabilidade.
Há perguntas que só a perícia pode confirmar.
Há registros telefônicos?
Há vestígios claros de combustível?
Há confirmação técnica da sequência dos disparos?
Há comprovação formal do material produzido pelo detetive?
Enquanto essas respostas não vierem oficialmente, a reconstrução permanece baseada em fontes.
Mas uma coisa é objetiva e independe de versão: duas crianças morreram.
E quando crianças são mortas para atingir simbolicamente o outro cônjuge, não estamos falando de “crime passional”. Estamos falando de controle, punição e destruição deliberada.
A política pode ter sido pano de fundo.
A ruptura conjugal pode ter sido o estopim.
Mas o ato final foi escolha.
Ele teve tempo.
Teve consciência.
Teve decisão.
Espalhar gasolina é escolha.
Apontar arma para a cabeça de uma criança é escolha.
Apertar o gatilho é escolha.
Não foi um segundo de loucura.
Foi uma sequência de decisões.
Ele poderia ter ido embora.
Poderia ter se separado.
Poderia ter enfrentado a exposição.
Poderia ter perdido a eleição.
Poderia ter perdido o orgulho
Quando um pai olha para os filhos e decide que eles morrerão para castigar a mãe deles, passa a ser a forma mais brutal de crueldade possível.
Duas crianças não morreram por traição. duas crianças pagaram com a vida porque o próprio pai não suportou perder o controle da própria narrativa. Ele decidiu que se não pudesse ter uma mulher, ninguém teria direito a ter mais nada.