domingo, 8 de fevereiro de 2026

TARANTINO NA PRAÇA DOS TRÊS PODERES

 



O caso Master ameaça transformar a Praça dos Três Poderes em um faroeste institucional e nas palavras da jornalista Malu Gaspar, todos trabalham para abafar o escândalo – e, no final, "todo mundo mata todo mundo".

Com efeito, uma fraude bilionária que ameaça consumidores, instituições financeiras e, notadamente, o que resta de credibilidade das mais altas cortes do país, transformou-se em um teste decisivo para as instituições democráticas brasileiras. Com mais de R$ 12 bilhões em transações fraudulentas e 1,6 milhão de investidores afetados, o caso expõe um labirinto de conflitos de interesse e manobras de bastidores que atingem o coração e o fígado da República.

O Banco Master, um banco de médio porte até então pouco conhecido, cresceu de forma meteórica sob o comando de Daniel Vorcaro, um empresário de 42 anos que iniciou sua carreira, pasmemos todos, em uma igreja evangélica em Belo Horizonte. A estratégia era aparentemente simples, mas arriscadíssima: oferecer depósitos a prazo com juros muito superiores aos do mercado, vinculados a operações de alto risco, sem verificar se haveria liquidez para honrar os compromissos.

Para sustentar a fachada de solidez, a instituição realizou transações com ativos inexistentes, vendendo créditos fictícios ao Banco Regional de Brasília (BRB), um banco público controlado pelo governo do Distrito Federal, que desembolsou mais de R$ 12 bilhões sem a documentação adequada, em uma manobra que coincidiu com sua tentativa de comprar o Banco Master – uma forma de convencer os reguladores de que a aquisição era segura.

O Banco Central bloqueou a compra em setembro, mas o Master continuou buscando salvadores até que, em novembro, a operação Compliance Zero da Polícia Federal prendeu Vorcaro no aeroporto de São Paulo, a bordo de seu jato particular, prestes a fugir para Dubai. Foi aí então que o BC decretou a liquidação do banco, e todos os esqueletos começaram a aparecer.

Nesse diapasão, a descrição de Malu Gaspar, comparando o caso a um filme de Tarantino, ganha contornos concretos ao se analisar como o escândalo se infiltrou nas estruturas de poder; a vida real imita a ficção, ou não?

– O Poder Judiciário sob Suspeita: 

O Ministro Dias Toffoli avocou e assumiu o caso no Supremo Tribunal Federal (STF), impondo sigilo máximo ao processo, impedindo até servidores do Tribunal de acessar informações básicas. Toffoli aguarda relatórios da PF e da PGR antes de tomar decisões, mas sua conduta tem gerado questionamentos, especialmente após revelações sobre suas conexões com Vorcaro e sua amizade de décadas com um dos advogados do banco, com quem viajou de jato particular para uma final da Copa Libertadores no Peru.

Quanto ao ministro Alexandre de Moraes, sabe-se que sua esposa, Viviane Barci de Moraes, assinou contrato milionário (quase R$ 130 milhões) para representar o banco até 2027. O contrato foi apreendido na operação Compliance Zero. Moraes também teria contatado o presidente do Banco Central em quatro ocasiões para tratar da aquisição do Master pelo BRB – porém, alega que não discutiu o assunto nessas reuniões.

Contudo, para o jornalista José Roberto de Toledo, a centralização das apurações no gabinete de Toffoli "acendeu luzes amarelas, piscantes, tremulantes e estroboscópicas, entre os investigadores". Há risco de o STF se tornar uma "espécie de Lava Jato do STF", sobrecarregando a Corte com casos de crime organizado.

– O Poder Legislativo em Movimento Lento:

A CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) criada o caso patina no Congresso, enquanto investigações sob relatoria de André Mendonça miram aliados do presidente do Senado. A oposição articula pedidos após as reportagens de Malu Gaspar indicarem pressão sobre o Banco Central, mas o processo legislativo de investigação avança a passos de tartaruga.

– O Poder Executivo:

O Banco Central foi acusado de negligência e omissão por não agir mais cedo. O Tribunal de Contas da União autorizou inspeção no BC para apurar procedimentos envolvendo a liquidação do Master. Governadores e líderes políticos exercem pressão sobre a forma como foi construído o projeto Antifacção, com consenso sobre detalhes que precisam ser modificados. Entrementes, a PF mira o "fio político" do caso após prender o fundador e executivos do banco. A chave – “Siga o dinheiro!”

– Os Mecanismos do "Abafa" e a Resistência Jornalística:

Os esforços para conter o escândalo são múltiplos e sofisticados. O Jornal Folha de S. Paulo aponta que "a convergência de forças tão poderosas no sentido de abafar o caso teria prevalecido não fosse a atuação da imprensa profissional". O trabalho metódico de competentes repórteres e editores tem sido fundamental para garantir o direito à informação sobre essa fraude "gigantesca e tentacular".

– Quais foram as estratégias de contenção do escândalo?

​Sigilo extremo: Toffoli impôs sigilo máximo ao processo, dificultando o acompanhamento público - Centralização decisória: O caso foi concentrado no gabinete de um único ministro, com Toffoli determinando que todo material e diligências fiquem sob custódia direta de seu gabinete - Campanhas de influenciadores: Agências contrataram influenciadores digitais para gravar vídeos apoiando o TCU sobre a possibilidade de cancelamento da liquidação e lançando suspeitas sobre a atuação do BC - Pressão política: Há "forte pressão política para barrar investigações", conforme relatado por Malu Gaspar, que tem tido um comportamento corajoso na cobertura do escândalo.

​Entretanto, o caso Master não é apenas um escândalo financeiro - é uma crise de legitimidade institucional, um teste moral para toda nação e os seus valores. Toledo alerta: "Se a imagem do Toffoli está atrapalhando a instituição Supremo, [...] o Supremo vai ter que tomar uma decisão sob o risco de ele se desmoralizar, de desmoralizar o sistema, a justiça e, em último grau, a democracia".

​A fraude consumirá recursos públicos? Sim, pois o Fundo Garantidor de Créditos, que cobre parte das perdas dos investidores, tem um terço de seus recursos provenientes de bancos estatais - ou seja, dinheiro público será usado para cobrir parte do rombo. O resgate nesta escala nunca foi feito antes.

​As conexões criminosas ampliam significativamente o perigo, pois o Banco Master trabalhou com fundos de investimento como a Reag, investigada por lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC), a facção do tráfico mais poderosa do Brasil. Isso conecta a fraude financeira ao crime organizado, criando um híbrido especial e muito, muito perigoso.

​O STF tenta, com grande dificuldade, defender sua postura. O presidente do STF, Edson Fachin, divulgou nota defendendo a atuação de Toffoli, afirmando que "eventuais irregularidades serão examinadas" e que a atuação do ministro no recesso do Judiciário foiu legítima. Fachin garante que a Presidência do STF "não antecipa juízos, mas tampouco se furta a conduzi-los".

​Diante de todo esse contexto, cumpre destacar uma última e altissonante trincheira: O jornalismo como antídoto ao silêncio. Em um cenário onde, nas palavras de Malu Gaspar, "todo mundo está trabalhando para abafar o escândalo", a imprensa profissional surge como o contraponto indispensável. A Folha argumenta que os veículos de comunicação "prestam um notável serviço público nesse caso", suprindo "pela investigação independente e crítica, parte da lacuna deixada por instituições de Estado quando seus integrantes abandonam a equidistância prudencial". 

A opinião pública, indignada, mas ainda perplexa com os acontecimentos em Brasília, e com as informações trazidas à lume pela imprensa livre, exige apuração profunda, e as revelações jornalísticas atendem a essa demanda democrática fundamental. São essas incursões e investigações jornalísticas que impedem que o caso seja ocultado sob o manto da cumplicidade e do pacto de silêncio. 

​A advertência de Lord Acton, citada a propósito pela Folha - "o poder absoluto corrompe absolutamente" - ressoa com força no caso Master. À medida que ministros do STF acumularam "poderes atípicos" ao longo dos anos, tornaram-se alvos naturais da "cobiça de agentes públicos e privados interessados em fazer valer as suas demandas".

​O destino do caso Master dirá muito sobre a resiliência das instituições brasileiras. E mais: será que o escândalo é, como sugere Toledo, "grande demais para ser abafado"? 

Afinal, a resposta depende não apenas dos investigados, mas de quantos ainda acreditam que, em uma democracia, até os mais poderosos devem responder por seus atos –especialmente quando todo mundo parece estar envolvido, mesmo sabendo-se que, no final, todo mundo poderá morrer, como nos filmes do Tarantino.

EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO
Advogado. Especialista em Segurança e Políticas Públicas.
Professor de Criminologia. Mestre em Direito Público.
Autor de O Vácuo do Poder e o Crime Organizado

Após prisão na Câmara por desvio de R$ 423 mil, MP mira contratos de R$ 300 milhões na Prefeitura de Rio Verde

Investigação que levou à prisão do presidente do Legislativo municipal expõe contraste de escala e leva Ministério Público a avançar sobre contratos milionários da limpeza urbana e da saúde


A prisão do presidente da Câmara Municipal de Rio Verde por desvio de R$ 423 mil, no âmbito de um contrato que ultrapassa R$ 1 bilhão, marcou um ponto de inflexão na atuação do Ministério Público de Goiás no município. A investigação avançou, houve prisão preventiva, e o próprio MP já reconheceu que outros crimes teriam sido praticados para encobrir o desfalque identificado no Legislativo.


Com esse precedente, a apuração agora muda de escala.


Após o avanço decisivo no caso da Câmara, o Ministério Público passou a mirar contratos de valores muito superiores, firmados no âmbito da Prefeitura de Rio Verde, especialmente nas áreas de limpeza urbana e saúde, que somam cifras próximas de R$ 300 milhões — valores centenas de vezes maiores que o montante desviado no Legislativo.

Emergência que virou regra

No centro da nova apuração estão os contratos da limpeza urbana, firmados ao longo de anos sob a justificativa recorrente de “emergência”. Desde 2020, a Prefeitura manteve dispensas de licitação sucessivas, com aditivos e renovações que transformaram uma exceção legal em modelo permanente de contratação.

Relatórios e apontamentos do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás já haviam identificado irregularidades nesse padrão, caracterizado pela doutrina e pelos órgãos de controle como “emergência fabricada” — quando a ausência deliberada de planejamento é usada para justificar contratações diretas reiteradas.

Os valores cresceram ano após ano, alcançando dezenas de milhões em contratos individuais e culminando em um volume global que ultrapassa centenas de milhões de reais.

Contratos sobrepostos e risco ao erário

Outro ponto sensível que entra na mira da apuração é a sobreposição contratual. Enquanto contratos emergenciais continuavam em vigor, o município também celebrou contratos regulares por meio de pregão para serviços substancialmente idênticos, levantando, em tese, o risco de duplicidade de pagamentos, violação da economicidade e possível dano expressivo ao erário.

Esse cenário amplia o grau de complexidade da investigação e exige apuração técnica aprofundada, envolvendo análise de contratos, execução dos serviços, fluxos financeiros e responsabilidades administrativas.

Saúde: contratos milionários sob escrutínio

Além do lixo, a área da saúde também passa a integrar o radar do Ministério Público. Empresas responsáveis pela prestação de serviços médicos a diversos municípios, por meio de contratos que ultrapassam R$ 300 milhões, entram no campo de apuração, especialmente diante de vínculos políticos e da concentração de contratos em larga escala.

Aqui, a comparação com o caso da Câmara é inevitável: se um desvio de R$ 423 mil foi suficiente para justificar prisão e operação policial, contratos de centenas de milhões impõem ao Estado o dever de avançar com o mesmo rigor — ainda que a apuração seja mais complexa e politicamente sensível.

Quando a escala muda, a resposta precisa mudar

O Ministério Público já demonstrou, no caso da Câmara, que não hesita em agir quando identifica materialidade e indícios suficientes. Ao ampliar o foco para os contratos da Prefeitura, a instituição reconhece que o risco ao dinheiro público não se mede apenas pela existência do crime, mas também pela dimensão do impacto financeiro.

A sociedade de Rio Verde agora acompanha um novo capítulo: se a investigação que resultou em prisão no Legislativo foi apenas o começo, os contratos milionários da Prefeitura não podem ficar à margem da apuração.

Quando o valor sobe de R$ 423 mil para R$ 300 milhões, não muda apenas o número.

Muda a responsabilidade institucional.


Governo de Goiás destina R$ 2,9 milhões ao Jornal Opção em publicidade oficial

Gastos elevados com veículo alvo de ações judiciais reacendem debate sobre uso político da verba pública e a fronteira entre publicidade institucional e alinhamento editorial

O Governo de Goiás destinou R$ 2.925.336,01 em recursos públicos ao Jornal Opção, segundo levantamento a partir de notas fiscais e demonstrativos de pagamentos oficiais. O montante, que se aproxima de R$ 3 milhões, chama atenção não apenas pelo valor absoluto, mas pelo contexto em que se insere: trata-se de um jornal semanal, de circulação regional, que mantém linha editorial reiteradamente alinhada ao Palácio das Esmeraldas.

Os dados analisados indicam que os pagamentos não ocorreram de forma pontual ou esporádica. Ao contrário, revelam fluxo recorrente de recursos, distribuídos em diversas notas fiscais, com valores individuais que, somados, alcançam cifra milionária. O volume coloca o veículo em posição de destaque entre os beneficiários da publicidade institucional estadual.

Judicialização e conflitos editorial


O mesmo veículo beneficiado pelos repasses públicos aparece como parte em múltiplas ações judiciais no Tribunal de Justiça de Goiás, por meio de sua razão social, Opção Notícias Ltda. Entre os processos, há ações em que o jornal figura como réu, inclusive movidas por figuras públicas diretamente atingidas por reportagens.


Um dos casos envolve o ex-governador Marconi Perillo, que acionou judicialmente a empresa. Há ainda outros processos em trâmite, alguns sob segredo de justiça, circunstância comum em ações que discutem honra, imagem e conteúdo jornalístico.

Outro caso envolve o senador Wilder Morais

Os alvos das noticiais falsas e plantadas são sempre adversários política do governo que já pagou quase três milhões ao jornal. 

A existência desse histórico processual, por si só, não configura condenação nem prova automática de irregularidade editorial. Mas derruba a narrativa de ausência de questionamentos jurídicos e reforça que o conteúdo publicado pelo jornal tem sido objeto recorrente de controvérsia judicial.

Publicidade institucional ou blindagem política?

A Constituição estabelece que a publicidade oficial deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social. O debate que se impõe, diante dos números, é se esse princípio está sendo respeitado quando grandes volumes de recursos públicos são direcionados a um veículo cuja atuação editorial coincide, de forma sistemática, com os interesses do governo estadual.

Não se trata de afirmar ilegalidade automática. Trata-se de questionar finalidade.

A combinação entre:

  • alto volume de verbas públicas,
  • alinhamento editorial constante,
  • ataques recorrentes a adversários políticos do governo,
  • e judicialização frequente por conteúdo publicado.

levanta dúvidas legítimas sobre se a publicidade institucional estaria sendo utilizada como instrumento indireto de sustentação narrativa e política, em vez de mera divulgação de atos administrativos.

Um debate que ultrapassa preferências ideológicas.

A discussão não é sobre gostar ou não do Jornal Opção, nem sobre afinidade política. O ponto central é transparência, proporcionalidade e finalidade do gasto público.

Quando quase R$ 3 milhões são direcionados a um único veículo de imprensa regional, o interesse público exige respostas claras:

  • quais critérios de distribuição foram adotados?
  • houve proporcionalidade em relação a outros veículos?
  • qual o retorno institucional efetivo dessas despesas?

São perguntas que não atacam a imprensa — protegem o dinheiro público.

Opinião

Não é papel do jornalismo silenciar diante de números incômodos. Tampouco é função da publicidade oficial se converter em escudo político informal. O gasto existe, é real, é documentado e é elevado. Ignorá-lo seria abdicar do dever básico de fiscalização.


Em tempos de discurso fácil sobre fake news, o dado concreto continua sendo o mesmo: R$ 2.925.336,01 saíram dos cofres públicos para um único jornal.

E isso, por si só, merece escrutínio — não aplauso automático, nem silêncio convenientemente.


sábado, 7 de fevereiro de 2026

Golpe de ingressos vira risco real no pré-Carnaval de Goiânia e acende alerta para foliões

Com expectativa de 100 mil pessoas nos bloquinhos, venda irregular de ingressos e abadás pela internet se repete, expõe falhas de fiscalização e amplia risco de estelionato às vésperas da folia

O pré-Carnaval de Goiânia começa neste fim de semana sob clima de festa, mas também de alerta. A expectativa de reunir cerca de 100 mil foliões, distribuídos em dezenas de blocos espalhados pela capital, cria o ambiente perfeito não apenas para a celebração — mas também para a atuação de golpistas especializados na venda irregular de ingressos e abadás pela internet.

Casos recentes investigados pela Polícia Civil revelam um padrão que se repete todos os anos: anúncios atrativos em redes sociais, preços abaixo do valor oficial, suposta intermediação por “plataformas conhecidas” e a promessa de transferência antecipada do ingresso. O golpe, quase sempre, só é percebido no momento da retirada do abadá ou do acesso ao evento — quando o nome do comprador simplesmente não consta na lista.

O crime não é novo — o método é conhecido

Apesar de descrições que tentam dar aparência de sofisticação, o esquema segue um modus operandi clássico:

  • anúncios patrocinados em redes sociais ou grupos de WhatsApp;
  • oferta de ingressos “limitados” ou “últimos lotes”;
  • valores significativamente abaixo do preço oficial;
  • contato direto via mensagens privadas;
  • exigência de pagamento antecipado;
  • envio de comprovantes falsos ou transferências simuladas.

Na prática, trata-se de estelionato digital, crime recorrente em grandes eventos e potencializado pelo volume de pessoas, pela urgência típica do Carnaval e pela falsa sensação de segurança ao negociar pela internet.

Quanto maior a festa, maior o risco

O pré-Carnaval de Goiânia deixou de ser um evento pontual para se tornar um circuito descentralizado, com blocos espalhados por várias regiões da cidade, festas privadas, eventos pagos e apresentações em locais públicos. Esse crescimento amplia o público — e, junto com ele, o mercado informal e criminoso de ingressos.

Especialistas em segurança pública alertam que o período que antecede grandes eventos é o mais crítico, justamente porque o consumidor age sob pressão: medo de perder o evento, confiança excessiva em anúncios bem produzidos e pouca checagem de fontes oficiais.

Onde estão as falhas

A recorrência desses golpes expõe problemas estruturais:


  • falta de campanhas preventivas antes de grandes eventos;
  • ausência de fiscalização ativa sobre anúncios pagos de ingressos falsos;
  • dificuldade de rastreamento rápido dos golpistas após o evento;
  • baixa cultura de registro imediato de ocorrência pelas vítimas.

O resultado é um ciclo conhecido: o golpe acontece, a vítima descobre tarde demais e o criminoso já migrou para outro evento, outro bloco, outra cidade.

Como o folião pode se proteger

A orientação das autoridades é clara:

  • compre ingressos apenas nos canais oficiais dos blocos ou produtores;
  • desconfie de preços muito abaixo do mercado;
  • evite negociações por mensagens privadas;
  • não faça pagamentos sem confirmação direta com a organização do evento;
  • em caso de golpe, registre ocorrência imediatamente.

No Carnaval, a fantasia pode ser livre — mas a compra de ingressos precisa ser criteriosa.

O foco precisa estar no crime, não na vítima

Transformar vítimas em personagens centrais desvia a atenção do essencial: o estelionato é um problema coletivo, previsível e evitável com informação, fiscalização e resposta rápida.

Às vésperas de um dos maiores eventos populares do calendário goianiense, o alerta está dado: o golpe não escolhe cargo, renda ou perfil — escolhe oportunidade.

E no Carnaval, oportunidade é o que não falta.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

CADE abre investigação contra Vibra Energia por possível prática anticompetitiva no setor de aviação

Inquérito apura concentração de mercado, controle de infraestrutura estratégica e rescisão unilateral de contrato; empresa detém cerca de 60% do mercado nacional

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) instaurou procedimento preparatório para investigar possíveis **condutas anticompetitivas da Vibra Energia no mercado de combustíveis de aviação no Brasil. O despacho foi assinado em 31 de janeiro de 2026 pelo superintendente-geral Alexandre Barreto e tem acesso público, o que reforça a relevância institucional do caso.


A investigação foi provocada por representação da Rede Sol Fuel Distribuidora S/A, após a Vibra rescindir unilateralmente, em setembro de 2025, um contrato de fornecimento sem apresentar justificativa técnica ou legal, segundo a denunciante. O ponto central da apuração é se a empresa teria utilizado posição dominante e controle de infraestrutura essencial para restringir a concorrência.


De acordo com a representação, a Vibra é a única distribuidora com tancagem de gasolina de aviação (GAV) em Cubatão/SP, estrutura considerada estratégica para o abastecimento aeronáutico nacional. A Rede Sol sustenta que essa infraestrutura foi herdada da Administração Pública, o que impõe deveres adicionais de compartilhamento e isonomia concorrencial, conforme a Lei nº 12.529/2011.


A apuração do CADE se insere justamente nesse ponto sensível do direito concorrencial: o controle de “infraestrutura essencial”. Quando uma empresa domina um ativo indispensável ao funcionamento do mercado — e impede ou dificulta o acesso de concorrentes —, o risco de abuso de poder econômico deixa de ser teórico e passa a ser jurídico.


A Vibra atende o mercado de aviação por meio da BR Aviation, marca licenciada pela Petrobras, e detém cerca de 60% do mercado nacional de combustíveis de aviação. Em um setor altamente concentrado, esse percentual acende o alerta automático dos órgãos de defesa da concorrência, sobretudo quando há relatos de rescisões unilaterais, barreiras de acesso e exclusividade de infraestrutura.


O despacho do CADE não condena — investiga. Mas o simples fato de o órgão ter instaurado procedimento com base nos arts. 13, III, e 66, §2º, da Lei 12.529/2011, indica que há indícios suficientes para aprofundar a análise. Se confirmadas as práticas, as consequências podem ir de obrigações de compartilhamento até sanções administrativas e restrições estruturais.


Mais do que um conflito contratual, o caso toca em um tema estrutural: até que ponto uma empresa que herdou ativos estratégicos do Estado pode operá-los como se fossem exclusivos? A resposta do CADE será decisiva não apenas para a Vibra, mas para todo o desenho concorrencial do setor de aviação no Brasil.


A investigação está em curso. E, desta vez, o mercado inteiro está sob observação.