terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

NOTA DA POLÍCIA CIENTÍFICA ENCERRA ESPECULAÇÕES E DESMONTA NARRATIVA DE “REVIRAVOLTA” NO CASO ITUMBIARA

A tragédia de Itumbiara virou terreno fértil para especulação. Nas últimas horas, vídeos passaram a circular na internet afirmando que uma suposta “análise da perícia” indicaria reviravolta no caso — insinuando que Thales Machado não teria matado os próprios filhos, que teria morrido antes das crianças ou até que poderia ter sido assassinado.

A narrativa é forte. Mas não encontra respaldo técnico.

A Polícia Científica de Goiás publicou nota oficial de esclarecimento afirmando que todas as perícias criminais e médico-legais foram concluídas na mesma semana do fato, restando apenas a formalização final do laudo de local de crime. E foi categórica: não há fato novo nem elemento técnico que indique qualquer reviravolta, especialmente quanto à autoria do crime.

Isso é o ponto central.

Quando a instituição responsável pela análise técnica dos vestígios afirma que não há mudança na conclusão pericial, ela está, na prática, desmentindo boatos que vêm sendo impulsionados por vídeos sensacionalistas e cortes fora de contexto.

A perícia é técnica. Não trabalha com narrativa. Trabalha com vestígio, cronologia, balística, exame cadavérico, dinâmica de cena. Se houvesse qualquer indício material que alterasse a conclusão inicial, isso constaria nos laudos. E a própria Polícia Científica não teria emitido uma nota tão objetiva.

É preciso deixar claro: a nota não é uma opinião. É um posicionamento institucional baseado em trabalho pericial já concluído. Ao afirmar que não há “reviravoltas”, a Polícia Científica delimita o campo técnico e afasta interpretações que não encontram amparo nos autos.

A internet, porém, opera em outra lógica. O algoritmo recompensa o impacto, não a precisão. Vídeos que prometem “verdades ocultas” ou “versões escondidas” ganham tração. Mas impacto não é prova.

A nota da Polícia Científica cumpre exatamente esse papel: restabelecer o eixo técnico diante do ruído informacional. Não se trata de blindagem política, mas de contenção de desinformação.

O caso é trágico demais para virar palco de teorias sem base pericial. A dor das famílias não pode ser combustível para especulação.

Quando um órgão técnico fala de forma direta e institucional, o mínimo que se espera é responsabilidade na interpretação.


Entre boato viral e laudo pericial, a diferença não é ideológica. É técnica.


DEFENSORIA PROCESSA GLOBO, CNN, RECORD E SBT POR DIVULGAR VÍDEO DE SARAH

A tragédia de Itumbiara não terminou com os disparos. Ela atravessou o noticiário, invadiu as redes sociais e, agora, desembarca no Judiciário. A Defensoria Pública do Estado de Goiás ajuizou ação contra Globo, CNN Brasil, Record e SBT pela divulgação de vídeos que mostrariam Sarah em São Paulo, beijando um homem e andando de mãos dadas com ele — imagens que teriam sido produzidas por detetive particular contratado por Thales Machado antes do crime que tirou a vida dos próprios filhos e, em seguida, a sua.


O crime é fato. A autoria é incontestável. O que está em debate não é a dinâmica da tragédia, mas a narrativa construída depois dela. A Defensoria sustenta que a exibição dessas imagens — de natureza privada — teria contribuído para uma onda de ataques virtuais contra a mãe das crianças, deslocando o foco da responsabilidade penal do autor para a conduta íntima de quem não praticou o delito.


É aqui que o debate deixa de ser emocional e passa a ser jurídico.


A Constituição assegura liberdade de imprensa. Mas assegura também a inviolabilidade da honra, da imagem e da vida privada. O mesmo texto constitucional que protege o direito de informar impõe limites quando direitos da personalidade entram em colisão. A linha que separa interesse público de exploração emocional não é subjetiva; ela é jurídica. E quando ultrapassada, pode gerar responsabilidade civil.


A ação não fala em censura. Não fala em crime. Fala em possível abuso do direito de informar. Porque a pergunta central permanece sem resposta objetiva: qual era o interesse público direto e indispensável na divulgação de um vídeo íntimo, dias antes da tragédia, quando o fato central era um duplo homicídio seguido de suicídio?


Quando a narrativa sai do campo criminal e entra na esfera moral, cria-se um ambiente perigoso. A televisão amplia. O algoritmo potencializa. E a opinião pública, muitas vezes, sentencia antes que qualquer juiz o faça. Se o Judiciário entender que houve extrapolação, as consequências podem incluir indenização por danos morais, retirada definitiva do conteúdo e retratação pública.


O caso de Itumbiara pode se transformar em um precedente relevante sobre os limites editoriais em tragédias de grande repercussão. A imprensa é indispensável à democracia. Mas não é imune a controle quando há alegação de violação de direitos fundamentais.


No fim, o que está em jogo não é apenas um processo. É o limite entre informar e explorar. Entre noticiar e induzir percepção. Entre liberdade e responsabilidade.


Porque tragédias já produzem dor suficiente por si mesmas. O que se discute agora é se a narrativa pública ampliou essa dor — e, se ampliou, quem deve responder por isso.


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

PÊNALTI, VAR E HIPOCRISIA: A DISPUTA QUE COMEÇA ANTES DA BOLA ROLAR

O futebol goiano vive mais um capítulo previsível da sua própria hipocrisia institucional. Quando a decisão da arbitragem favorece, o silêncio impera. Quando prejudica, nasce a tese da conspiração.

No duelo envolvendo a Anapolina, a reclamação é clara: pênalti não marcado, Goiás beneficiado. Se fosse o contrário, alguém acredita que o Goiás estaria em silêncio? Evidentemente não. O discurso seria outro. A narrativa seria de “erro grave”, “pressão externa”, “falta de respeito com a camisa”.

No clássico entre Atlético e Vila Nova, a história se repetiu. Penalidade reclamada, decisão mantida, VAR silencioso. O Vila reage, aponta dedo, questiona federação, fala em prejuízo.

Mas aqui está o ponto que ninguém quer encarar: isso não é sobre justiça esportiva. É sobre correlação de forças.

Ao longo dos anos, os grandes clubes goianos aprenderam que campeonato não se disputa apenas nas quatro linhas. Existe o jogo político. Existe a pressão institucional. Existe o bastidor. E todos — absolutamente todos — já souberam jogar esse jogo quando lhes foi conveniente.

Durante muito tempo, o Goiás soube transitar nesse ambiente com habilidade. Depois, o Atlético consolidou força administrativa e institucional. O Vila Nova, historicamente com menos influência nos bastidores, quase sempre reclamou de desvantagem estrutural.

Agora o Vila grita. E o grito é compreensível. Mas não é um grito inocente. É o grito de quem está aprendendo a disputar o mesmo território de poder.

A verdade incômoda é simples: não há mocinhos nessa narrativa.

Quando a balança pende a favor, é “interpretação”.

Quando pende contra, é “escândalo”.

Quando se perde a queda de braço política, vira “arbitragem tendenciosa”.

O problema do Campeonato Goiano não é apenas técnico. É cultural. É institucional. É estrutural.

Enquanto os clubes continuarem investindo energia em medir força fora de campo, o roteiro será sempre o mesmo: polêmica no domingo, nota oficial na segunda, indignação estratégica na terça e memória curta na quarta.

No fundo, ninguém quer um campeonato neutro. Querem um campeonato onde sua influência pese mais.

E o torcedor, que acredita que o jogo começa no apito inicial, raramente percebe que ele começa muito antes — nas salas fechadas, nos corredores, nas conversas reservadas.


No  Campeonato Goiano, a indignação não nasce do erro.

Nasce de quem perdeu o controle do bastidor.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

ROMÁRIO POLICARPO — “VOCÊ NÃO APITA MAIS”: DO PLENÁRIO AO VESTIÁRIO

Entre o calor da derrota e o limite da institucionalidade existe uma linha. No Estádio Antônio Accioly, após o Vila Nova ser derrotado por 2 a 0 pelo Atlético, essa linha pode ter sido ultrapassada.

O vídeo gravado após o jogo, na saída dos vestiários, mostra que o árbitro Eduardo Tomaz foi duramente cobrado por dirigentes do Vila. Até aí, nada incomum no futebol brasileiro. O problema começa quando a cobrança vira intimidação. E a frase atribuída ao presidente da Câmara Municipal, Romário Policarpo, não é simples desabafo de torcedor:

“Você é o culpado. Você não apita mais jogo do Vila.”

Aqui o futebol encontra a política — e o choque não é pequeno.

Afirmar que um árbitro “não apita mais” determinado clube não é mera crítica técnica. É uma declaração que sugere poder de interferência na escala de arbitragem. E isso toca diretamente na autonomia da Federação e na credibilidade da competição. Se um dirigente ameaça excluir um árbitro do calendário do clube, está insinuando que pode influenciar quem apita ou deixa de apitar. Isso não é indignação. Isso é pressão.


E quando essa frase parte de alguém que ocupa a presidência de um Poder Legislativo, o peso muda. Não é um torcedor exaltado na arquibancada. É uma autoridade pública. E autoridade pública não fala apenas por si — fala sob o peso do cargo.



O futebol admite erro de arbitragem. O que não pode admitir é ambiente de intimidação. Se a abordagem ocorreu em área restrita, na saída dos vestiários, o episódio se agrava. Árbitro não é inimigo de clube. É agente da partida. Se errou, a análise é técnica. Se houve irregularidade, existem canais formais de reclamação. O que não existe no ordenamento esportivo é o direito de ameaçar.


O Código Brasileiro de Justiça Desportiva prevê punições para constrangimento, ameaça e ofensa a membro da arbitragem. A Federação Goiana de Futebol, se os fatos se confirmarem, não pode tratar o caso como “clima de jogo”. Silêncio institucional, nesse cenário, vira normalização de pressão.


O ponto mais grave não é a derrota do Vila. Nem o suposto erro do árbitro. É o recado que fica: pode autoridade política constranger arbitragem sem consequência?

Se a resposta for sim, o problema não está na marcação do pênalti. Está na estrutura do futebol.

Perder faz parte do esporte. Ameaçar não.


DANIEL VILELA: O HERDEIRO SEM LIDERANÇA POLÍTICA

Entre o sobrenome que já não basta e a sombra que não vira liderança

Existe uma diferença brutal entre ocupar um espaço e ser dono dele. Daniel Vilela ocupa. Mas ainda não provou que lidera. E essa distinção, em política majoritária, é fatal.

Filho de Maguito Vilela, Daniel herdou estrutura, sobrenome, rede de contatos e memória eleitoral. O que não foi a densidade simbólica do pai. Maguito construiu base popular real, deixou marca administrativa concreta e criou identidade própria antes de virar herança. Daniel fez o caminho inverso: recebeu o capital antes de consolidar trajetória autoral. Isso gera uma pergunta incômoda — onde termina o legado e começa o vazio?

O MDB que já foi máquina de poder em Goiás virou apêndice. E sob o comando de Daniel, deixou de ser protagonista para operar como satélite. A legenda que já teve voz própria agora ecoa o discurso do Palácio. E quando um partido histórico passa a depender de um governo para sobreviver, ele deixa de ter identidade e passa a ter conveniência.

O problema não é apenas estrutural. É simbólico. Daniel não é Iris Rezende — não tem a mística, o magnetismo, a memória afetiva que arrastava multidões. Iris representava uma era. Daniel representa um momento administrativo. E eleição majoritária não se vence com planilha; vence-se com narrativa.

Também não é Ronaldo Caiado. Caiado tem identidade ideológica clara, discurso definido, enfrentamento explícito. Pode-se concordar ou não com ele, mas ninguém tem dúvida sobre quem ele é politicamente. Daniel, ao contrário, navega numa zona cinzenta: técnico demais para ser carismático, institucional demais para ser combativo, discreto demais para ser líder de ruptura.

E política não perdoa ausência de marca.

Hoje, a principal imagem que cola é a de sucessor automático. De continuidade burocrática. De vice que aguarda o tempo passar. Isso é confortável para o grupo no curto prazo, mas perigoso no médio. Porque quando surge qualquer ator com narrativa mais agressiva, mais definida ou mais identitária, o contraste aparece — e a fragilidade também.

Daniel não construiu uma bandeira própria. Não deixou um grande marco legislativo, não imprimiu uma agenda reconhecível, não criou uma pauta que o eleitor associe imediatamente ao seu nome. Sem isso, sobra dependência. Dependência da máquina, da articulação de terceiros, da sombra do governador

E sombra não vira liderança — vira extensão.

O MDB sob seu comando deixou de ser partido de raiz para virar legenda de sustentação. O herdeiro não virou fundador de um novo ciclo. Virou administrador do que restou.

No fim, a questão não é se Daniel é competente. A questão é se ele é indispensável. E, na política, quem não se torna indispensável rapidamente descobre que o poder não pertence a quem espera — pertence a quem constrói identidade.

Se a eleição fosse hoje, o eleitor saberia exatamente quem é Daniel Vilela? Ou apenas saberia de quem ele é filho e de quem ele é aliado?

Essa é a diferença entre carregar um sobrenome e ter um legado.


DANIEL ENTRE A SOMBRA E O ABISMO



O quadro que se desenha é simples e brutal.


Daniel Vilela perdeu o PL.

Perdeu o ativo eleitoral que poderia representar musculatura ideológica.

Perdeu Gustavo Gayer como possibilidade de composição ao Senado.

Perdeu Ana Paula Rezende — e com ela, parte simbólica do legado de Iris Rezende.


O que restou?


Restou a máquina.

Restou a vice-governadoria.

Restou a sombra de Ronaldo Caiado.


E aqui está o ponto mais sensível.


Hoje, Daniel depende estruturalmente de Caiado.

Sem Caiado, não há narrativa de continuidade.

Sem Caiado, não há discurso consolidado.

Sem Caiado, não há identidade majoritária.


Mas essa dependência é uma aposta de risco.


Se Caiado avançar em um projeto presidencial e mergulhar num jogo nacional, Goiás deixa de ser o centro da estratégia. Campanha nacional exige articulação fora do estado, negociações amplas, tempo, presença. E governador candidato à Presidência não faz campanha estadual para sucessor — faz campanha para si.


Se o projeto presidencial prosperar, Daniel vira figurante regional enquanto o líder vira protagonista nacional.


Se o projeto presidencial fracassar e Caiado tiver que apoiar outro nome, o foco será sobrevivência política no cenário federal — não blindagem de sucessão estadual.


Em ambos os cenários, Daniel corre o risco de ficar órfão operacional.


E política não tolera órfãos.


Sem PL, sem Rezende, sem puxador ideológico forte e dependente de um governador que pode sair do tabuleiro estadual, Daniel pode entrar numa eleição com estrutura — mas sem empolgação.


E eleição majoritária sem empolgação vira disputa de sobrevivência.


Se surgir uma candidatura competitiva, com narrativa forte e identidade própria, Daniel pode se ver numa situação delicada: não ser o candidato do entusiasmo, mas o candidato da obrigação.


E aí surge o risco real: polarização fora do seu controle e possibilidade concreta de ficar fora do segundo turno.


Não porque seja fraco tecnicamente.

Mas porque pode ser percebido como insuficiente simbolicamente.


No fim, a questão não é se Daniel tem cargo.


A questão é se ele tem projeto.


Se continuar apostando apenas na continuidade automática e na força de Caiado, pode acordar tarde demais — isolado, dependente e, no momento decisivo, um boi fora da manada.


Agora a pergunta estratégica:


Daniel ainda tem tempo para construir identidade própria

ou já entrou na fase de sobrevivência política?