Demóstenes Torres
O grande evento do planeta nesta semana, além do Carnaval brasileiro, é a Olimpíada de Inverno, na Itália. Nos dois eventos, houve interpretação do que pode ou não ser chamado de propaganda política.
Lá, Vladyslav Heraskevych treinou com um capacete em que há fotos de 24 atletas seus compatriotas assassinados pela Rússia, que invadiu seu país em 2022. Como o regulamento da competição impede esse tipo de publicidade, por mais justa e bela que seja, Vladyslav sequer pôde competir, muito menos com o lindo adereço cobrindo e protegendo suas boas ideias.
Aqui, a festa pagã foi usada com o fim de endeusamento pela Acadêmicos de Niterói. Seu samba-enredo, “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o Operário do Brasil”, resume o governo do PT, mas sem as partes ruins. O desfile inteiro, inclusive o nome das alas, as fantasias, os bonecos, tudo foi um grande comercial favorável ao presidente e contra seus adversários. E isso pôde. Mesmo podre, pôde. O público, inclusive o que não compareceu ao Sambódromo, ajudou a pagar as despesas.
Escrevo antes da análise do Tribunal Superior Eleitoral nas ações protocoladas. Então, vou me concentrar no que o samba-enredo tem de pior, a letra e a música. Se em termos de produto cultural é o mais abjeto visto desde que a festa se chamava tríduo momesco, há um alívio: logo passará. Quando o assunto é musiquinha de Carnaval, quanto mais divertida, mais duradoura. Certamente, a menos que seja um esquerdista fanático, ninguém está nas ruas perguntando “Quanto custa a fome? Quanto importa a vida?” e a apregoar que “Nosso sobrenome é Brasil da Silva”. A mídia oficial investiu, mas tudo se acabou nesta quarta-feira. Ou antes. O folião é um pândego, não memoriza verso a favor.
O inesquecível apresentador de TV Silvio Santos, que um dia quis virar presidente da República e foi vetado pela Justiça Eleitoral, será sempre lembrado também por suas marchinhas, as mais famosas compostas pelo casal Manoel Ferreira e Ruth Amaral. Há quase 40 anos é tocada nos bailes “A pipa do vovô”, que agora seria combatida como etarismo ou qualquer termo da modinha. São 40 anos de audiência e o “Mulungu” niteroiense do presidente não resistiu a 40 horas.
Um hit de Carmen Miranda antecipou o Brasil em 90 anos:
“Mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar”.
É um trecho que deveria ter sido vampirizado no “Mulungu”, em vez de Chico Buarque, pois retrata o país com tanta perfeição que foi escolhido para encerrar os Jogos Olímpicos do Rio em 2016. Ainda bem que a Copa do Mundo deste ano será em três países das Américas (Estados Unidos, Canadá e México) e nenhum deles é este aqui. Vai que o ministro da Propaganda resolve tocar o “Mulungu” na despedida do mundial...
As listas de musiquinhas clássicas de Carnaval costumam ser mais extensas que as de jingle de Horário Gratuito do TSE. No “Mulungu”, que não alcançará tal glória, os autores se demonstraram caprichosos de pilares para a avenida presenciar uma simbiose dos dois estilos, o samba-enredo e o “Lula lá”, um jingle de 80 minutos na Sapucaí.
“Cabeleira do Zezé” (de 1964), com Jorge Goulart, e “Maria Sapatão”, que estourou na voz de Chacrinha, foram tocadas anos a fio até o cancelamento pelo politicamente correto. Mas não adianta perseguir: na tarde desta terça, 17/2, em apenas uma versão de uma plataforma, o Spotify, “Cabeleira do Zezé” havia sido tocada 5.336.451 vezes. É machista homofóbico demais se requebrando ao som das marchinhas. O compositor de ambas, João Roberto Kelly, chegou a se retratar com a comunidade LGBTQIA+, porém não adiantou: continuou no índex. Para piorar seu cartaz, também criou “Mulata bossa nova”, a que está “cheia de fiu-fiu/ esnobando as louras/ e as morenas do Brasil (viu)”.
Entre os animadores de auditório, Chacrinha morreu em 1988, mas Silvio Santos ficou aqui até 2024, aos 93 anos, e estava longe de nascer quando Chiquinha Gonzaga lançou a pioneira “Ó abre alas”. Não foi neste século. Nem no anterior. Em 1899. Ninguém nem se lembra quem era o presidente da então recém-proclamada República.
Aliás, outra curiosidade são as escolas de samba preferirem a monarquia para batismo. Reparando as fluminenses que desfilaram nos vários grupos neste ano, Império Serrano, Imperatriz Leopoldinense, Concentra Imperial, Império de Brás de Pina, Imperadores Rubro-Negros, Novo Império, Império da Resistência, Império Ricardense, Estácio de Sá, Acadêmicos da Abolição, Lins Imperial, Coroado de Jacarepaguá. Em homenagem à atual forma de governo, apenas Casa de Malandro (da 5ª divisão) e Arrastão de Cascadura (3ª).
Nas de São Paulo, como as demais espalhadas pelo Brasil, a monarquia continua goleando. Talvez se deva à participação dos imperadores Pedro I e II quando a festividade ainda se chamava entrudo. Vamos ver o que sobra dos políticos agora que se chama entrão.
Demóstenes Torres
Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.







