domingo, 8 de março de 2026

O QUE HÁ DENTRO DO CELULAR DO DONO DO BANCO MASTER

Mensagens extraídas pela perícia digital revelam negociações bilionárias, conexões com gestores investigados e possíveis relações com o poder


O celular apreendido do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, pode se tornar uma das peças mais explosivas de uma investigação financeira em curso no país.


De acordo com informações que circulam a partir de análises periciais e relatos divulgados nas redes, o conteúdo do aparelho — um iPhone de última geração — começou a revelar conversas, grupos e articulações que ajudam a reconstruir os bastidores de operações envolvendo bilhões de reais.


A análise foi realizada com tecnologia da empresa israelense Cellebrite, considerada uma das principais desenvolvedoras de ferramentas de perícia digital do mundo.


O equipamento, utilizado por forças policiais e agências de investigação em mais de 150 países, permite extrair dados completos de smartphones, reconstruindo mensagens, arquivos e registros mesmo após tentativas de exclusão.


E o que começou a surgir dentro do celular chama atenção.

O grupo “MasterFictor”

Entre os dados recuperados, investigadores teriam identificado um grupo de WhatsApp chamado “MasterFictor”, criado em 12 de novembro de 2025.

As conversas nesse grupo, segundo os relatos divulgados, tratariam de uma negociação para venda do Banco Master ao grupo Fictor.

O valor discutido seria de aproximadamente R$ 3 bilhões.


O detalhe que chamou a atenção dos investigadores é que, poucos dias depois dessas conversas, a Fictor entrou em processo de recuperação judicial, levantando questionamentos sobre a viabilidade financeira da operação que estava sendo discutida.


A cronologia das mensagens passou a ser analisada com atenção porque pode revelar quem participou das negociações e quais atores tinham conhecimento da operação.

Conversas sobre outra gestora investigada


O conteúdo extraído do celular também teria identificado cinco grupos de WhatsApp nos quais aparecem referências à gestora Reag Investimentos.

Nos diálogos aparecem menções ao fundador da empresa, João Carlos Mansur, que também figura em investigações financeiras.

Segundo os relatos que circulam a partir da análise preliminar dos dados, as conversas nesses grupos podem ajudar a esclarecer:

  • quem discutia operações financeiras envolvendo as instituições
  • quais decisões eram tomadas fora dos canais formais
  • quais investidores participavam das articulações


A Reag teve liquidação decretada pelo Banco Central, assim como ocorreu com o Banco Master, o que ampliou o interesse das autoridades sobre possíveis conexões entre as operações das duas instituições.

A promessa de “amigos em todos os poderes”

Outro ponto que chamou atenção nos relatos é uma frase atribuída a Vorcaro durante o momento da apreensão do aparelho.

Segundo essas versões, o banqueiro teria afirmado ter “amigos em todos os poderes” ao se recusar inicialmente a fornecer a senha do telefone.

Agora, investigadores tentam verificar se as mensagens recuperadas no aparelho podem indicar conversas com autoridades ou pessoas com influência institucional.

Esse ponto pode ser determinante para definir o rumo jurídico do caso.

Caso surjam diálogos com autoridades com foro privilegiado, o processo poderia migrar para o Supremo Tribunal Federal.

Caso contrário, a investigação permanece nas instâncias ordinárias da Justiça.

Como funciona a extração dos dados

O procedimento realizado pela perícia segue protocolos internacionais de investigação digital.

Antes de qualquer análise, o celular é colocado em uma caixa de Faraday, recipiente metálico que bloqueia sinais de internet e impede que dados sejam apagados remotamente.

Depois disso, o aparelho é conectado ao sistema de análise da Cellebrite.

O software então realiza um processo complexo que pode incluir:

  • extração completa do banco de dados do aparelho
  • identificação de backups e fragmentos de memória
  • reconstrução de mensagens e arquivos apagados
  • mapeamento das redes de comunicação do usuário

Em alguns casos, o sistema consegue inclusive recuperar conteúdos que o usuário acreditava ter apagado definitivamente.

A indústria bilionária da investigação digital


Ferramentas como as utilizadas na análise do celular de Vorcaro fazem parte de um mercado que cresce rapidamente.

Pacotes completos de sistemas da Cellebrite podem ultrapassar US$ 250 mil por ano.

A empresa, que abriu capital na Nasdaq em 2021, possui receita anual superior a US$ 400 milhões e fornece tecnologia para investigações conduzidas por órgãos como FBI, Interpol e diversas polícias nacionais.

Um celular que pode redesenhar a investigação

Hoje, investigadores sabem que um smartphone pode revelar mais do que qualquer documento formal.

Mensagens trocadas em aplicativos, registros de chamadas, fotos e áudios costumam reconstruir com precisão os bastidores de decisões financeiras e negociações empresariais.

Por isso, a análise do celular de Daniel Vorcaro passou a ser considerada uma das peças centrais da investigação.

E enquanto peritos continuam a reconstruir dados e conexões, uma pergunta começa a ganhar peso nos bastidores de Brasília e do sistema financeiro:

quem exatamente aparece nas conversas que estavam dentro daquele telefone.


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