segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O BRASIL NA ROTA DO SISTEMA EPSTEIN


Como o mercado de modelos virou porta de entrada para uma engrenagem internacional de exploração

Durante muito tempo, o escândalo envolvendo Jeffrey Epstein foi tratado como uma aberração isolada: um bilionário predador, uma ilha privada, um círculo restrito de poderosos. Essa narrativa conveniente começou a desmoronar quando documentos judiciais, depoimentos de vítimas e investigações jornalísticas revelaram algo mais perturbador: Epstein não operava sozinho. Ele operava um sistema.


E esse sistema tinha método, logística e rotas internacionais de captação.

Entre elas, o Brasil.

NÃO ERA UMA ILHA. ERA UMA REDE 

Os arquivos judiciais e reportagens investigativas apontam que Epstein funcionava como o vértice financeiro de uma engrenagem maior, sustentada por intermediários, facilitadores e ambientes sociais permissivos. Um desses ambientes foi o mercado internacional de modelos — um setor marcado historicamente por informalidade, promessas vagas, assimetria de poder e jovens em situação de vulnerabilidade.


Nesse contexto, a ilha era apenas o destino final.

A captação começava muito antes — e muito mais perto.

O PAPEL DO MERCADO DE MODELOS: A ISCA PERFEITA

O padrão se repete em diferentes países:

  • Jovens, muitas vezes adolescentes;
  • Origem periférica ou estrangeira;
  • Poucos recursos financeiros;
  • Sonho de projeção internacional;
  • Dependência total de intermediários.

A promessa vinha disfarçada de oportunidade:

“casting”, “carreira internacional”, “contatos”, “viagem paga”, “investidores”.

Nada disso soa estranho no mundo da moda.

E exatamente por isso funciona.

O sistema não precisava sequestrar. Bastava seduzir institucionalmente.

JEAN-LUC BRUNEL: A PONTE ENTRE PASSARELA E ABUSO

Um dos nomes centrais na engrenagem foi Jean-Luc Brunel, agente francês do mercado de modelos, apontado por vítimas e documentos como elo operacional entre Epstein e a captação de jovens.

Relatos indicam que Brunel:

  • Utilizava agências e castings como fachada;
  • Fazia abordagens diretas a jovens modelos;
  • Oferecia viagens e encontros com “financiadores”;
  • Normalizava reuniões privadas e informais.

Não havia violência explícita no início.

Havia convite, glamour e promessa.

Quando o abuso ocorria, a vítima já estava isolada, dependente e psicologicamente capturada.

POR QUE O BRASIL ENTROU NO RADAR

O Brasil não aparece por acaso nos documentos e investigações.

Há razões objetivas:

  • Um dos maiores exportadores de modelos do mundo;
  • Forte desigualdade social;
  • Jovens vulneráveis atraídas pelo sonho internacional;
  • Mercado historicamente informal e pouco regulado;
  • Fiscalização frouxa sobre agências, castings e “olheiros”.

Documentos e reportagens indicam interesse direto em usar o Brasil como território de captação, incluindo conversas sobre:

  • Infiltração ou aquisição de agências locais;
  • Uso de revistas e eventos de moda como vitrine;
  • Contatos com intermediários brasileiros.

O país entrou na rota não como cúmplice institucional, mas como território explorável.

O MÉTODO: COMO A CAPTAÇÃO FUNCIONAVA

O padrão descrito por vítimas e investigadores segue uma lógica recorrente:

  1. Identificação de jovens com perfil “vendável”;
  2. Abordagem indireta, quase sempre por terceiros;
  3. Normalização do risco (“é assim mesmo no mercado”);
  4. Viagem sem contrato claro;
  5. Isolamento cultural, linguístico e emocional;
  6. Dependência financeira e simbólica;
  7. Abuso travestido de oportunidade profissional.

O crime não começa no abuso.

Começa na promessa.


NÃO SE TRATA DE LISTA DE NOMES. TRATA-SE DE ESTRUTURA

Reduzir o caso Epstein a uma caça a celebridades interessa aos algoritmos — e protege o sistema.

O verdadeiro escândalo é outro:

👉 Como um mercado globalizado permitiu que jovens fossem tratadas como moeda de troca sob o verniz da moda.

👉 Como países periféricos, como o Brasil, foram vistos como celeiros de “oportunidades” — para predadores sofisticados.

👉 Como a informalidade virou álibi.

A PERGUNTA INCÔMODA

Quantas jovens brasileiras passaram por castings sem contrato?

Quantas viajaram com promessas vagas?

Quantas tiveram medo de denunciar para não “queimar o nome”?

A ilha caiu.

Epstein morreu.

Mas o método sobrevive.

Enquanto o mercado de modelos continuar operando na base do silêncio, da informalidade e da assimetria de poder, o Brasil continuará sendo visto como rota — não de sonhos, mas de exploração.

E isso não é teoria da conspiração.

É estrutura.





Pré-Carnaval de Goiânia vira megavitrine econômica — mas expõe o custo invisível da festa de rua

Multidão acima das previsões impulsiona comércio, serviços e turismo, enquanto segurança pública, mobilidade urbana e informalidade pagam a conta do sucesso

O pré-Carnaval de Goiânia deixou de ser apenas um aquecimento para a folia nacional e se transformou, definitivamente, em um evento de massa com impacto econômico real. No sábado, 7 de fevereiro de 2026, a Avenida 85 concentrou um público estimado entre 350 mil e mais de 400 mil pessoas, número muito acima das projeções iniciais de 100 a 150 mil foliões divulgadas pelo poder público antes do evento.

A discrepância entre expectativa e realidade não é detalhe estatístico. Ela é o principal dado político, econômico e administrativo do pré-Carnaval deste ano.

A economia que saiu às ruas

O fluxo humano observado na Avenida 85 e nos circuitos de bloquinhos gerou uma cadeia imediata de movimentação econômica, especialmente nos setores de:

  • bares, restaurantes e distribuidoras de bebidas;
  • ambulantes (bebidas, alimentação rápida, adereços e fantasias);
  • transporte por aplicativo, táxis e estacionamentos privados;
  • hotéis e hospedagens de curta duração;
  • serviços de som, eventos, segurança privada e limpeza urbana.

Mesmo sem números oficiais consolidados, a dimensão da multidão permite afirmar, com segurança, que milhões de reais circularam em poucas horas, sobretudo no comércio informal e no consumo direto, aquele que não passa por contratos públicos, mas aquece a base da economia urbana.

É o tipo de evento que faz o dinheiro girar rápido, especialmente para pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos, muitos deles fora do radar estatístico tradicional.

Goiânia como polo regional de eventos

O pré-Carnaval consolidou Goiânia como destino regional de festas populares, atraindo público de cidades do interior de Goiás e até de estados vizinhos. A cidade deixou de ser apenas ponto de passagem e passou a disputar espaço com capitais tradicionalmente associadas à folia.

Esse reposicionamento tem valor simbólico e econômico. Eventos dessa magnitude:

  • fortalecem o setor de serviços,
  • ampliam a arrecadação indireta,
  • projetam a cidade no circuito nacional de eventos de rua.



Mas essa vitrine tem custo — e ele não aparece nos discursos oficiais.



O outro lado do sucesso: segurança, furtos e pressão urbana



Quanto maior a multidão, maior a pressão sobre o espaço público. E o pré-Carnaval deixou isso evidente.


Houve registros de furtos, especialmente de celulares, com ao menos um caso emblemático de suspeito contido por foliões até a chegada da polícia. O episódio não é exceção: é padrão em eventos dessa escala, onde aglomeração, consumo excessivo de álcool e circulação de dinheiro criam ambiente propício para crimes oportunistas.


Além disso:


  • o trânsito foi profundamente impactado por interdições prolongadas;
  • moradores da região central absorveram o ônus da festa;
  • a atuação da Guarda Civil e da Polícia Militar precisou ser intensificada.



Nada disso invalida o evento — mas desmonta a narrativa simplista de “sucesso sem ressalvas”.



Planejamento público: suficiente ou apenas tolerável?



O poder público apostou em licenciamento gratuito de blocos, rotas definidas e vistorias técnicas. Funcionou? Parcialmente.


Funcionou porque o evento não saiu do controle.

Falhou porque o público superou, com folga, qualquer cálculo oficial.


Quando se projeta 150 mil e aparecem mais de 350 mil, o planejamento não foi ousado — foi conservador demais. E isso cobra preço:


  • em segurança,
  • em limpeza,
  • em mobilidade,
  • em gestão de riscos.



Eventos dessa dimensão exigem planejamento de grandes multidões, não de festivais médios.



Avaliação final: vitória econômica, alerta institucional



O pré-Carnaval de Goiânia foi, sem dúvida, um sucesso econômico e de público. Gerou renda, aqueceu o comércio, colocou a cidade no mapa da folia e mostrou que há demanda reprimida por grandes eventos populares.


Mas também deixou um recado claro:

o crescimento da festa foi mais rápido que a maturidade da gestão pública do evento.


Se Goiânia quer transformar o pré-Carnaval em ativo permanente — e tudo indica que quer — precisará:


  • profissionalizar ainda mais o planejamento,
  • tratar segurança e mobilidade como eixo central, não acessório,
  • mapear e mensurar o impacto econômico real,
  • assumir que festa grande exige estrutura de cidade grande.



O sucesso foi real.

O alerta também.


E ignorar esse alerta é a maneira mais rápida de transformar uma vitrine econômica em um problema urbano crônico.


Blog do Cleuber Carlos

Jornalismo crítico, onde o poder é observado — não celebrado.