segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Pré-Carnaval de Goiânia vira megavitrine econômica — mas expõe o custo invisível da festa de rua

Multidão acima das previsões impulsiona comércio, serviços e turismo, enquanto segurança pública, mobilidade urbana e informalidade pagam a conta do sucesso

O pré-Carnaval de Goiânia deixou de ser apenas um aquecimento para a folia nacional e se transformou, definitivamente, em um evento de massa com impacto econômico real. No sábado, 7 de fevereiro de 2026, a Avenida 85 concentrou um público estimado entre 350 mil e mais de 400 mil pessoas, número muito acima das projeções iniciais de 100 a 150 mil foliões divulgadas pelo poder público antes do evento.

A discrepância entre expectativa e realidade não é detalhe estatístico. Ela é o principal dado político, econômico e administrativo do pré-Carnaval deste ano.

A economia que saiu às ruas

O fluxo humano observado na Avenida 85 e nos circuitos de bloquinhos gerou uma cadeia imediata de movimentação econômica, especialmente nos setores de:

  • bares, restaurantes e distribuidoras de bebidas;
  • ambulantes (bebidas, alimentação rápida, adereços e fantasias);
  • transporte por aplicativo, táxis e estacionamentos privados;
  • hotéis e hospedagens de curta duração;
  • serviços de som, eventos, segurança privada e limpeza urbana.

Mesmo sem números oficiais consolidados, a dimensão da multidão permite afirmar, com segurança, que milhões de reais circularam em poucas horas, sobretudo no comércio informal e no consumo direto, aquele que não passa por contratos públicos, mas aquece a base da economia urbana.

É o tipo de evento que faz o dinheiro girar rápido, especialmente para pequenos comerciantes e trabalhadores autônomos, muitos deles fora do radar estatístico tradicional.

Goiânia como polo regional de eventos

O pré-Carnaval consolidou Goiânia como destino regional de festas populares, atraindo público de cidades do interior de Goiás e até de estados vizinhos. A cidade deixou de ser apenas ponto de passagem e passou a disputar espaço com capitais tradicionalmente associadas à folia.

Esse reposicionamento tem valor simbólico e econômico. Eventos dessa magnitude:

  • fortalecem o setor de serviços,
  • ampliam a arrecadação indireta,
  • projetam a cidade no circuito nacional de eventos de rua.



Mas essa vitrine tem custo — e ele não aparece nos discursos oficiais.



O outro lado do sucesso: segurança, furtos e pressão urbana



Quanto maior a multidão, maior a pressão sobre o espaço público. E o pré-Carnaval deixou isso evidente.


Houve registros de furtos, especialmente de celulares, com ao menos um caso emblemático de suspeito contido por foliões até a chegada da polícia. O episódio não é exceção: é padrão em eventos dessa escala, onde aglomeração, consumo excessivo de álcool e circulação de dinheiro criam ambiente propício para crimes oportunistas.


Além disso:


  • o trânsito foi profundamente impactado por interdições prolongadas;
  • moradores da região central absorveram o ônus da festa;
  • a atuação da Guarda Civil e da Polícia Militar precisou ser intensificada.



Nada disso invalida o evento — mas desmonta a narrativa simplista de “sucesso sem ressalvas”.



Planejamento público: suficiente ou apenas tolerável?



O poder público apostou em licenciamento gratuito de blocos, rotas definidas e vistorias técnicas. Funcionou? Parcialmente.


Funcionou porque o evento não saiu do controle.

Falhou porque o público superou, com folga, qualquer cálculo oficial.


Quando se projeta 150 mil e aparecem mais de 350 mil, o planejamento não foi ousado — foi conservador demais. E isso cobra preço:


  • em segurança,
  • em limpeza,
  • em mobilidade,
  • em gestão de riscos.



Eventos dessa dimensão exigem planejamento de grandes multidões, não de festivais médios.



Avaliação final: vitória econômica, alerta institucional



O pré-Carnaval de Goiânia foi, sem dúvida, um sucesso econômico e de público. Gerou renda, aqueceu o comércio, colocou a cidade no mapa da folia e mostrou que há demanda reprimida por grandes eventos populares.


Mas também deixou um recado claro:

o crescimento da festa foi mais rápido que a maturidade da gestão pública do evento.


Se Goiânia quer transformar o pré-Carnaval em ativo permanente — e tudo indica que quer — precisará:


  • profissionalizar ainda mais o planejamento,
  • tratar segurança e mobilidade como eixo central, não acessório,
  • mapear e mensurar o impacto econômico real,
  • assumir que festa grande exige estrutura de cidade grande.



O sucesso foi real.

O alerta também.


E ignorar esse alerta é a maneira mais rápida de transformar uma vitrine econômica em um problema urbano crônico.


Blog do Cleuber Carlos

Jornalismo crítico, onde o poder é observado — não celebrado.


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