quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Prisão do presidente da Câmara de Rio Verde é cortina de fumaça para encobrir outros crimes?

Quando a polícia entra na sede do Legislativo, não é um vereador que cai. É a fachada institucional que racha. A prisão preventiva do presidente da Câmara Municipal de Rio Verde, Idelson Mendes, em operação do Gaeco Sul, escancara algo que já não podia mais ser tratado como “irregularidade administrativa” ou “falha técnica”: havia um sistema operando dentro do poder público.

A prisão é o desfecho provisório — e tardio — de uma sequência de atos que começou fora da Câmara, passou pela contratação de um concurso público irregular, avançou sobre contratos na área da educação e teve como ponto de ignição a prisão de um delegado da Polícia Civil e de sua esposa. Nada aqui é isolado. Tudo se conecta. 

O concurso da Câmara: quando arrecadar veio antes de legalizar 

A Câmara Municipal de Rio Verde contratou sem licitação, por meio de inexigibilidade, o Instituto Delta Proto Ltda. para realizar o Concurso Público nº 001/2023. A empresa pertence ao delegado Dannilo Ribeiro Proto e à sua esposa, Karen de Souza Santos Proto. O edital foi lançado, as inscrições foram abertas, e o dinheiro dos candidatos foi recolhido. 

Só depois veio a legalidade — ou melhor, a constatação de que ela não existia. 

Provocado pelo Ministério Público, o Judiciário suspendeu o certame, o TCM-GO confirmou as irregularidades, e a própria Câmara foi obrigada a anular o concurso. A Justiça determinou ainda a devolução das taxas de inscrição, reconhecendo que o processo estava viciado desde a origem. 
O que era tratado como “concurso” passou a ser visto como porta de entrada para algo maior. 

A prisão do delegado e da esposa: o coração do esquema 

A investigação conduzida pelo Gaeco Sul, no âmbito da Operação Regra Três, aponta o delegado Dannilo Ribeiro Proto como líder de uma organização criminosa voltada à fraude de contratações públicas e ao desvio de recursos, sobretudo na área da educação em Rio Verde. Segundo o Ministério Público, o esquema operava por meio do Instituto Delta Proto, beneficiado por contratações direcionadas e procedimentos ilegais. 

O prejuízo estimado ultrapassa R$ 2,2 milhões. 
A prisão preventiva do delegado foi decretada não apenas pelos indícios de crime, mas pelo uso da função pública para proteger interesses privados, além do risco concreto de interferência nas investigações. Os crimes apurados incluem organização criminosa, falsidade ideológica, prevaricação e desvio de recursos públicos. 
Sua esposa, Karen de Souza Santos Proto, foi presa por integrar o mesmo núcleo investigado. Além de atuar na empresa familiar, ela exercia cargo público de confiança na área da educação em Rio Verde, exatamente no período em que o esquema operava. O Ministério Público aponta ainda que ela manteve comunicação com o delegado mesmo após sua prisão, reforçando o caráter organizado e contínuo das condutas investigadas.

Quando o esquema chega à Câmara 


É a partir desse núcleo — delegado, esposa, empresa e contratos — que a investigação avança e alcança diretamente a Câmara Municipal. A contratação da empresa do delegado para realizar um concurso público não foi um detalhe administrativo: foi um elo concreto entre o esquema investigado e o Legislativo. 



Aqui, a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser política: quem autorizou, sustentou e blindou essa contratação dentro da Câmara? Quais pareceres foram usados para dar aparência de legalidade a um processo que acabou anulado pelo Judiciário? 

A investigação aponta para um modus operandi: decisões administrativas que, na prática, funcionavam como engrenagens de um mesmo sistema. 

A prisão do presidente da Câmara: o sistema exposto 


A prisão de Idelson Mendes, presidente da Câmara, é o momento em que a crise deixa de ser periférica e se instala no centro do poder legislativo municipal. O MP investiga sua atuação como parte do núcleo de agentes públicos que teriam viabilizado ou sustentado contratações irregulares, incluindo o concurso posteriormente anulado. 

Não se trata mais de discutir se houve erro. A questão agora é quem sabia, quem assinou e quem fingiu não ver. 
A Operação Regra Três ainda não terminou. Mas uma coisa já ficou clara: o problema em Rio Verde não era um concurso cancelado. Era um sistema que funcionava — até a polícia bater à porta da Câmara. 

Em termos objetivos, o presidente da Câmara foi preso porque presidiu o ato. Foi ele quem, no exercício do cargo máximo do Legislativo municipal, sustentou a contratação ilegal da empresa investigada, permitindo a arrecadação de dinheiro de candidatos em um concurso que nasceu viciado e terminou anulado. Não se trata de erro administrativo. Trata-se de ato concreto, com consequências penais, que colocou a Câmara Municipal dentro da engrenagem do esquema apurado pelo Gaeco.

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