O Ministério Público fala que viu uma avalanche de Crimes, mas suas ações correm risco de ficarem localizaras no poder legislativo, por causa de forças políticas que trabalham para soterrar as investigações
Se os crimes são sucessivos, estruturados e financeiros, como não haver ramificações fora do Poder Legislativo?
Essa não é uma pergunta retórica.
É uma pergunta lógica. Institucional. Inescapável.
Ao afirmar publicamente que as investigações revelaram “uma avalanche sucessiva de crimes que nunca pararam no Poder Legislativo de Rio Verde”, o Ministério Público de Goiás assumiu uma responsabilidade que vai muito além da retórica de coletiva. Quem fala em avalanche não está descrevendo fatos isolados. Está afirmando sistema, continuidade, organização e encadeamento criminoso.
E é exatamente aí que surge o problema.
A expressão “avalanche sucessiva de crimes” cria uma expectativa pública muito clara:
👉 múltiplos agentes,
👉 múltiplos fatos,
👉 múltiplos núcleos de responsabilidade.
Mas, até agora, a materialização pública da responsabilização não acompanha o tamanho do discurso.
O que se vê é uma investigação que fala como se tivesse alcançado o todo — mas age como quem aceita expor apenas uma parte. E essa assimetria é perigosa. Não apenas juridicamente. Institucionalmente.
Segundo o próprio Ministério Público, houve:
– desvio de taxas de concurso público cancelado,
– apropriação indevida de recursos,
– crimes praticados para encobrir crimes anteriores,
– nova destinação irregular de valores para tentar cobrir prejuízos.
Isso não descreve improviso.
Isso descreve engenharia criminosa.
Dinheiro público desviado não se oculta sozinho. Ele precisa circular, ser reaplicado, protegido, fracionado, eventualmente lavado. Esse tipo de conduta exige mais de um polo, mais de um ambiente institucional, mais de um nível de decisão.
Ainda assim, a narrativa oficial insiste em concentrar o foco exclusivamente no Legislativo municipal.
Não se trata aqui de defender investigados.
Trata-se de recusar a lógica seletiva.
Se há uma avalanche, ela não cai em um único prédio.
Se há sucessão de crimes, ela não se sustenta sem ramificações.
Se há estrutura, ela não existe sem conexões externas.
A insistência em restringir o alcance público da investigação levanta uma suspeita que o próprio Ministério Público deveria querer afastar: a de que há um descompasso entre o que se sabe e o que se expõe.
Outro ponto que agrava essa contradição é o silêncio sobre os valores. Fala-se em prejuízo financeiro, em desvio, em reaproveitamento de recursos — mas o montante total segue indefinido. Ora, quando se utiliza a palavra “avalanche”, não se pode oferecer números tímidos ou indefinidos. Avalanche tem volume. Tem peso. Tem impacto mensurável.
O Ministério Público escolheu subir o tom. Ao fazê-lo, abriu mão do conforto da prudência discursiva. A partir desse momento, a sociedade não tem apenas o direito de cobrar. Tem o dever.
Não basta dizer que as investigações continuam.
Não basta afirmar que responsabilidades estão sendo apuradas.
Não basta mirar apenas o Legislativo enquanto o dinheiro aponta para além dele.
A pergunta central permanece, incômoda e sem resposta:
Se o próprio Ministério Público afirma que os crimes são sucessivos, estruturados e financeiros, quem está fora do enquadramento — e por quê?
A credibilidade institucional não se sustenta apenas com frases fortes. Sustenta-se com coerência entre discurso e alcance investigativo. Quando essa coerência falha, o silêncio deixa de ser cautela e passa a ser escolha política.
E escolhas institucionais, em investigações desse porte, também precisam ser explicadas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário