Como o mercado de modelos virou porta de entrada para uma engrenagem internacional de exploração
Durante muito tempo, o escândalo envolvendo Jeffrey Epstein foi tratado como uma aberração isolada: um bilionário predador, uma ilha privada, um círculo restrito de poderosos. Essa narrativa conveniente começou a desmoronar quando documentos judiciais, depoimentos de vítimas e investigações jornalísticas revelaram algo mais perturbador: Epstein não operava sozinho. Ele operava um sistema.
E esse sistema tinha método, logística e rotas internacionais de captação.
Entre elas, o Brasil.
NÃO ERA UMA ILHA. ERA UMA REDE
Os arquivos judiciais e reportagens investigativas apontam que Epstein funcionava como o vértice financeiro de uma engrenagem maior, sustentada por intermediários, facilitadores e ambientes sociais permissivos. Um desses ambientes foi o mercado internacional de modelos — um setor marcado historicamente por informalidade, promessas vagas, assimetria de poder e jovens em situação de vulnerabilidade.
Nesse contexto, a ilha era apenas o destino final.
A captação começava muito antes — e muito mais perto.
O PAPEL DO MERCADO DE MODELOS: A ISCA PERFEITA
O padrão se repete em diferentes países:
- Jovens, muitas vezes adolescentes;
- Origem periférica ou estrangeira;
- Poucos recursos financeiros;
- Sonho de projeção internacional;
- Dependência total de intermediários.
A promessa vinha disfarçada de oportunidade:
“casting”, “carreira internacional”, “contatos”, “viagem paga”, “investidores”.
Nada disso soa estranho no mundo da moda.
E exatamente por isso funciona.
O sistema não precisava sequestrar. Bastava seduzir institucionalmente.
JEAN-LUC BRUNEL: A PONTE ENTRE PASSARELA E ABUSO
Um dos nomes centrais na engrenagem foi Jean-Luc Brunel, agente francês do mercado de modelos, apontado por vítimas e documentos como elo operacional entre Epstein e a captação de jovens.
Relatos indicam que Brunel:
- Utilizava agências e castings como fachada;
- Fazia abordagens diretas a jovens modelos;
- Oferecia viagens e encontros com “financiadores”;
- Normalizava reuniões privadas e informais.
Não havia violência explícita no início.
Havia convite, glamour e promessa.
Quando o abuso ocorria, a vítima já estava isolada, dependente e psicologicamente capturada.
POR QUE O BRASIL ENTROU NO RADAR
O Brasil não aparece por acaso nos documentos e investigações.
Há razões objetivas:
- Um dos maiores exportadores de modelos do mundo;
- Forte desigualdade social;
- Jovens vulneráveis atraídas pelo sonho internacional;
- Mercado historicamente informal e pouco regulado;
- Fiscalização frouxa sobre agências, castings e “olheiros”.
Documentos e reportagens indicam interesse direto em usar o Brasil como território de captação, incluindo conversas sobre:
- Infiltração ou aquisição de agências locais;
- Uso de revistas e eventos de moda como vitrine;
- Contatos com intermediários brasileiros.
O país entrou na rota não como cúmplice institucional, mas como território explorável.
O MÉTODO: COMO A CAPTAÇÃO FUNCIONAVA
O padrão descrito por vítimas e investigadores segue uma lógica recorrente:
- Identificação de jovens com perfil “vendável”;
- Abordagem indireta, quase sempre por terceiros;
- Normalização do risco (“é assim mesmo no mercado”);
- Viagem sem contrato claro;
- Isolamento cultural, linguístico e emocional;
- Dependência financeira e simbólica;
- Abuso travestido de oportunidade profissional.
O crime não começa no abuso.
Começa na promessa.
NÃO SE TRATA DE LISTA DE NOMES. TRATA-SE DE ESTRUTURA
Reduzir o caso Epstein a uma caça a celebridades interessa aos algoritmos — e protege o sistema.
O verdadeiro escândalo é outro:
👉 Como um mercado globalizado permitiu que jovens fossem tratadas como moeda de troca sob o verniz da moda.
👉 Como países periféricos, como o Brasil, foram vistos como celeiros de “oportunidades” — para predadores sofisticados.
👉 Como a informalidade virou álibi.
A PERGUNTA INCÔMODA
Quantas jovens brasileiras passaram por castings sem contrato?
Quantas viajaram com promessas vagas?
Quantas tiveram medo de denunciar para não “queimar o nome”?
A ilha caiu.
Epstein morreu.
Mas o método sobrevive.
Enquanto o mercado de modelos continuar operando na base do silêncio, da informalidade e da assimetria de poder, o Brasil continuará sendo visto como rota — não de sonhos, mas de exploração.
E isso não é teoria da conspiração.
É estrutura.
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