terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Sementes, Aviões e Poder: o que há por trás da joint venture chinesa em Rio Verde (GO)

Sementes, Aviões e Poder: o império empresarial que orbita o agro, o capital chinês e a política em Goiás

Quando nomes, empresas e interesses estratégicos se cruzam longe dos holofotes

Uma joint venture anunciada de forma discreta pela Revista Cultivar, em fevereiro de 2024, revela muito mais do que um simples negócio no setor de sementes. Ela expõe uma teia empresarial sofisticada, com ramificações no agronegócio, no mercado imobiliário, na aviação executiva e no campo político goiano.

O acordo envolve a LongPing High-Tech, empresa chinesa controlada pela estatal CITIC Group, e a Cereal Ouro Agropecuária, pertencente à família Schwening, em Rio Verde (GO). Pelo contrato divulgado, a nova empresa terá 90% do capital sob controle chinês e 10% brasileiro, com atuação direta sobre sementes de soja — um setor considerado estratégico para a soberania alimentar.

Até aqui, tudo dentro da legalidade. O problema começa quando se observa quem está ao redor desse negócio.


Sarah Martins do Vale: um nome que aparece em múltiplos setores

Entre os nomes ligados à Cereal Ouro está Sarah Martins do Vale, empresária que figura como sócia — atual ou passada — em ao menos dez empresas, quase todas ativas, segundo dados públicos de CNPJ e quadro societário.

As empresas se concentram majoritariamente em:

  • holdings patrimoniais,
  • SPEs imobiliárias,
  • administração de bens,
  • e, de forma sensível, locação de aeronaves sem tripulação.

Entre elas, destaca-se a Haco Parceria Aeronáutica Ltda, sediada em Rio Verde, cujo objeto social é exatamente a locação de aeronaves executivas, modelo amplamente utilizado para gestão patrimonial aérea no Brasil.

Não há ilegalidade nisso. Mas o contexto nacional exige cautela.


O pano de fundo: aviação executiva sob lupa nacional

Nos últimos anos, o setor de aviação executiva passou a ser alvo de investigações da Polícia Federal, especialmente em operações que apuram:

  • uso de empresas de fachada,
  • ocultação de patrimônio,
  • interposição de pessoas,
  • e lavagem de dinheiro por meio de aeronaves registradas em nome de terceiros

Dentro desse cenário, surgiram menções públicas envolvendo o nome do presidente nacional do União Brasil, Antônio Rueda, após depoimento de piloto à PF.

⚠️ Ressalte-se: Rueda nega as acusações, não é réu, não responde formalmente por propriedade de aeronaves e afirma nunca ter comprado jatos.


O ponto central não é acusar indivíduos, mas registrar que o setor é sensível e exige transparência máxima.

O fator político: filha de ex-prefeito e bastidores eleitorais

Sarah Martins do Vale é filha do ex-prefeito de Rio Verde, Paulo do Vale, figura central da política goiana nos últimos anos. Paulo do Vale:

  • comandou uma das cidades mais ricas do agro brasileiro,
  • construiu forte influência regional,
  • e é cotado nos bastidores políticos como possível nome para composições majoritárias em Goiás.

Não há anúncio oficial de candidatura. Mas o peso político é inegável.

O que chama atenção — e precisa ser explicado

Nenhuma das informações acima, isoladamente, configura irregularidade.

O que chama atenção é a sobreposição de fatores estratégicos:


✔ capital estatal chinês no controle de sementes;

✔ núcleo empresarial familiar com múltiplas holdings;

✔ empresa de aviação executiva no mesmo grupo;

✔ ligação direta com ex-prefeito influente;

✔ e um ambiente nacional de investigações sensíveis envolvendo aeronaves.


Tudo isso no mesmo raio de influência.

Perguntas legítimas que ficam no ar

O jornalismo sério não acusa — pergunta:

  • Qual o papel real da Haco Parceria Aeronáutica dentro do grupo?
  • Quantas aeronaves estão vinculadas à empresa?
  • Quem são os usuários finais dessas aeronaves?
  • Há cruzamento entre interesses empresariais e políticos?
  • A joint venture com a LongPing possui mecanismos de compliance compatíveis com a sensibilidade do setor?

Até o momento, essas respostas não estão disponíveis ao público.

Opinião

Quando sementes, aviões, capital estrangeiro e poder político passam a orbitar o mesmo núcleo empresarial, o debate deixa de ser privado e se torna de interesse público.

Transparência não é acusação.

Silêncio, sim, é risco.

Em um estado onde o agro move bilhões e define rumos políticos, olhar para essas conexões não é perseguição — é dever jornalístico.

O futuro do campo, da economia e da política não pode voar em céu fechado.

Prefeito Muda a Lei para Nomear Procurador — e a Carne Vai para a Família


Mudança legal sob medida, conflito familiar com fornecedores milionários e licitações posteriores colocam a Prefeitura de Morrinhos no centro de um caso que desafia a legalidade e a moral administrativa

A Prefeitura de Morrinhos atravessa um daqueles momentos em que a legalidade formal parece ter sido esticada até o limite para atender a uma conveniência política específica. No centro do episódio está a nomeação de Vinícius Nunes da Silva para o cargo de Procurador-Geral do Município, formalizada pelo Decreto nº 243, de 16 de janeiro de 2025, assinado pelo prefeito Maycllyn Max Carreiro Ribeiro.

À primeira vista, tudo parece “dentro da lei”. Mas basta organizar a linha do tempo — e ler com atenção as leis municipais — para perceber que o problema não está apenas no nome, mas no caminho construído para que esse nome coubesse no cargo.

A lei original: Procurador era cargo de carreira

A Lei Municipal nº 3.918/2023 estabelecia, de forma clara, que o cargo de Procurador-Geral do Município era privativo de membros efetivos da carreira, admitidos por concurso público. Esse modelo segue entendimento consolidado do STF: onde há procuradoria estruturada, a chefia jurídica deve ser exercida por servidor de carreira, como forma de preservar independência técnica e institucional.

Ou seja: o desenho original não comportava nomeação política externa.

A “curva” legislativa: quando a exceção vira regra


O cenário muda com a edição da Lei nº 4.093/2025, que altera profundamente o espírito da norma anterior. A nova redação cria uma válvula de escape jurídica: na hipótese de “desinteresse formalizado” dos procuradores de carreira, o prefeito passa a poder nomear advogado externo, desde que inscrito na OAB e com cinco anos de exercício profissional.

Mais do que isso:

a lei garante que, após nomeado, o ocupante do cargo permanece até exoneração, independentemente de qualquer situação posterior.

Na prática, a exceção virou atalho permanente.

É aqui que surge a pergunta que ecoa nos bastidores políticos de Morrinhos:

👉 o desinteresse foi real — ou apenas o argumento necessário para dobrar a lei?

O nome escolhido e o conflito que a lei não resolve


O nome beneficiado pela nova arquitetura legal é Vinícius Nunes da Silva, advogado regularmente inscrito na OAB-GO, sem antecedentes criminais — fato comprovado por certidão judicial.

Mas a questão central não é criminal.

É ética, administrativa e institucional.


Vinícius Nunes é filho de empresário ligado a empresas historicamente fornecedoras da Prefeitura de Morrinhos, especialmente no ramo alimentício — contratos que, segundo apuração preliminar, movimentam cifras milionárias ao longo dos anos, chegando à casa de milhões por exercício.

E aqui surge o ponto mais sensível:

➡️

licitações envolvendo esse grupo empresarial foram homologadas após Vinícius já estar no cargo de Procurador-Geral.

Mesmo que ele não tenha assinado diretamente cada ato, a Procuradoria é o órgão máximo de controle jurídico da administração, responsável por pareceres, orientações, blindagens e validações.

A pergunta não é se houve assinatura.

A pergunta é: é razoável que o guardião jurídico do município seja filho de um dos maiores fornecedores da própria prefeitura?



O conflito que ninguém quis ver: o procurador e a empresa do pai dentro da Prefeitura

A nomeação de Vinícius Nunes da Silva para o cargo de Procurador-Geral do Município de Morrinhos não é apenas juridicamente questionável pelo caminho legislativo tortuoso que a viabilizou. Ela esbarra em algo ainda mais sensível: o vínculo direto com um dos maiores fornecedores da Prefeitura.

O pai do procurador, Lucimario Fernandes da Silva, é sócio da empresa BEKIM LANCHES E FRIOS LTDA – EPP 

CNPJ: 05.945.390/0001-96

 tradicional fornecedora de carnes para o município, com contratos milionários ao longo dos anos. Trata-se de uma empresa conhecida nos bastidores da administração como presença constante em licitações, especialmente no fornecimento de proteína animal para escolas, hospitais e programas públicos.



O ponto central — e que exige apuração profunda — é que licitações envolvendo a empresa da família ocorreram após Vinícius Nunes já estar no núcleo duro do governo, ocupando cargo de assessor especial e, posteriormente, de Procurador-Geral. Ou seja: o responsável por zelar pela legalidade dos atos administrativos passou a ocupar o cargo máximo da Procuradoria enquanto o negócio da própria família mantinha relação contratual com o município.



Não se trata de afirmar ilegalidade automática. Trata-se de algo mais grave do ponto de vista institucional: conflito de interesses objetivo, que exige, no mínimo, afastamento formal, declaração de impedimento e transparência absoluta — nada disso veio a público.


A situação se agrava quando se observa que a Prefeitura alterou a legislação municipal para permitir a nomeação de um procurador não concursado, abrindo exceção sob o argumento de “desinteresse” dos membros de carreira. A lei foi moldada, o cargo foi ocupado e, na sequência, contratos continuaram fluindo.


O roteiro é conhecido. Caldas Novas caiu exatamente nessa armadilha: mudança de regra para acomodar aliado, fornecedor da família orbitando contratos públicos e, depois, investigação. Morrinhos parece ter seguido o mesmo manual.


Aqui, a pergunta que precisa ser respondida não é retórica — é jurídica e moral:

👉 Como garantir a independência da Procuradoria quando o procurador está ligado por laços diretos a fornecedores do próprio município que ele deveria fiscalizar?


O silêncio institucional não elimina o problema. Apenas o adia.

E, como a história recente mostra, problemas assim não costumam prescrever — explodem.


Legalidade não é sinônimo de legitimidade

A gestão pode alegar que:

  • a lei foi aprovada pela Câmara;
  • o decreto é formalmente válido;
  • não há condenações criminais;
  • os processos licitatórios seguiram ritos.

Tudo isso pode até ser formalmente verdadeiro.

Mas o caso expõe algo mais profundo:

📌 a transformação da lei em instrumento de acomodação política,

📌 a fragilização da autonomia da Procuradoria,

📌 e a erosão da confiança pública no controle jurídico do Executivo.

Quando a lei precisa ser alterada antes da nomeação, quando o nome surge antes da exceção, e quando os contratos aparecem depois, o problema deixa de ser técnico — e passa a ser político e moral.


Um filme já visto — e que costuma terminar mal

Casos semelhantes já ruíram em outros municípios goianos. O roteiro é conhecido:

  1. mudança legal sob medida;
  2. nomeação politicamente conveniente;
  3. silêncio institucional;
  4. contratos cruzados;
  5. e, por fim, questionamentos do Ministério Público.

Em Morrinhos, o assunto pode até ter sido abafado no início. Mas, como costuma acontecer, o tempo transforma atalhos em provas documentais.

A pergunta agora não é se o caso vai evoluir.

É quando — e em qual instância.


Este espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura de Morrinhos, da Câmara Municipal e do Procurador-Geral citado


O Duto Oculto da Fraude em Senador Canedo

Dutos clandestinos e a “rota invisível” do combustível: o que o MPGO encontrou em Senador Canedo e por que esse caso pode revelar uma fraude maior


Operação no Distrito Agroindustrial mira ligação subterrânea entre terminais, atravessando via pública, sem licença ambiental estadual; força-tarefa interditou instalações e abriu uma investigação que pode alcançar da esfera ambiental ao coração do controle fiscal de combustíveis


Na manhã desta segunda-feira (15), uma força-tarefa coordenada pelo Ministério Público de Goiás (MPGO) deflagrou, no Distrito Agroindustrial de Senador Canedo (Região Metropolitana de Goiânia), uma operação que, na prática, expôs o que o setor teme e o contribuinte paga: a possibilidade de existir uma “rota paralela” para transferência de combustíveis, por baixo do asfalto, fora do ritual de controles que normalmente acompanha cada litro que circula legalmente no país.  


A investigação — ainda em fase inicial — apura a existência de dutos subterrâneos clandestinos que teriam sido usados para transferência direta de combustíveis entre empreendimentos ligados ao mesmo grupo econômico, incluindo estruturas atribuídas à Phoenix/Fênix e à Dinâmica Terminais de Combustíveis (DTC), com trechos atravessando via pública e sem a devida autorização/regularidade ambiental estadual apontada na fiscalização.  


O que a fiscalização encontrou (e por que isso é tão grave)


Segundo os relatos publicados a partir de informações e imagens colhidas durante a ação, os dutos teriam sido instalados para permitir a movimentação de produtos como etanol, gasolina e diferentes tipos de diesel, com a suspeita de que a conexão subterrânea viabilizaria a transferência contínua entre estruturas sem o mesmo nível de rastreabilidade do transporte convencional (por caminhões/rotas documentadas).  


Em paralelo, a operação resultou na interdição de terminais no município, após verificação de irregularidades nas instalações e na documentação ambiental, conforme comunicados públicos sobre a ação integrada que envolveu órgãos federais, estaduais e municipais.  


Aqui, o ponto não é apenas “obra irregular”. Um duto clandestino, em área sensível, é um atalho logístico que pode significar:

Risco ambiental e urbano (produto inflamável, subterrâneo, com potencial de vazamento e impacto difuso);

Burla de condicionantes de licenças (operar além do permitido ou por rotas não autorizadas);

Vantagem econômica indevida (redução de custo logístico, aumento de margem e distorção concorrencial);

E, no limite, um cenário compatível com fraude — inclusive tributária — dependendo do que a apuração revelar sobre volumes, origem, destino e registros.  


O “elo” que chama atenção: Condomínio Centro-Oeste e a porta de entrada autorizada


Um trecho especialmente sensível, citado em cobertura local, é o seguinte: a força-tarefa teria identificado que o Condomínio Centro-Oeste, descrito como autorizado a receber combustível diretamente da Transpetro (subsidiária da Petrobras), teria sido ligado a uma das empresas investigadas por um ramal clandestino construído por outra empresa do mesmo grupo.  


Se confirmado, isso muda o tamanho político e institucional do caso, porque desloca a discussão da “engenharia interna” de um terminal para a suspeita de aproveitamento irregular de uma estrutura autorizada — e esse tipo de conexão, por si, exige respostas duras: quem autorizou obra, quem sabia, quem se beneficiou, e qual foi o papel real de cada agente privado na cadeia.


Quem participou da operação e o que isso sinaliza


A composição da força-tarefa é outro indicativo de gravidade: a atuação integrada mencionada envolve MPGO, ANP, Polícia Civil, órgãos municipais de meio ambiente e outros entes de fiscalização e emergência, com narrativa pública de ação voltada a irregularidades em instalações e documentação ambiental e a coibir transporte irregular de inflamáveis.  


Quando ANP entra junto, não é só “meio ambiente”: é também regulação do mercado, segurança operacional e conformidade da cadeia — e isso costuma produzir desdobramentos administrativos pesados, além dos judiciais.


A pergunta que ninguém quer responder: dá para isso existir sem blindagem?


Combustíveis não são mercadoria comum. A saída, o estoque e a circulação são acompanhados por camadas de controle (fiscal, regulatório e operacional). Por isso, a existência de uma “rota subterrânea” clandestina — se provada — impõe uma pergunta incômoda: como esse tipo de estrutura funcionaria por tempo suficiente para valer o investimento, sem acender alarmes institucionais?


Essa pergunta não acusa ninguém automaticamente. Mas ela orienta o que deve ser cobrado, de forma objetiva:

1. Cronologia: há quanto tempo o duto existe?

2. Volume: quanto combustível passou por ali?

3. Licenças: quais licenças existiam, quais faltavam e quais foram “interpretadas” como suficientes?

4. Rastro documental: que documentos (notas, registros de medição, relatórios) correspondem ao fluxo físico?

5. Benefício econômico: quem economizou, quem ganhou mercado, quem ampliou capacidade de operação?


Se a apuração mostrar que houve transferência relevante e reiterada, a discussão inevitavelmente deixa de ser “irregularidade ambiental” e passa a tocar em estrutura de fraude, porque a clandestinidade, nesse setor, geralmente é meio — não fim.


O que as empresas dizem (e o que precisa ser confrontado)


Coberturas de imprensa registraram posicionamentos no sentido de que os dutos fariam parte de estruturas logísticas e que haveria cooperação/regularização em andamento, ao menos no que foi reportado por veículos que ouviram as empresas.  


Esse é exatamente o ponto que precisa ser confrontado tecnicamente: se era “logística regular”, por que a fiscalização sustenta a suspeita de clandestinidade e irregularidade ambiental? A resposta não está no argumento — está no papel, na licença, no traçado e na autorização formal do que atravessa área pública.


O que vem agora: investigação deve se expandir


O MPGO noticiou a interdição decorrente da operação de fiscalização coordenada no distrito, e esse tipo de procedimento normalmente se desdobra em coleta de documentos, perícias, oitiva de responsáveis, e cruzamentos com dados regulatórios e administrativos.  


Em outras palavras: o caso não termina com lacre. Ele começa no lacre.


E, se a hipótese de uma rede subterrânea clandestina se confirmar, Senador Canedo pode estar diante de algo maior do que um “atalho” logístico: pode ser a anatomia de um modelo — o tipo de engenharia que, quando aparece, raramente está sozinho.