terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Operação Sofisma: o uso político do Estado para destruir reputações no governo Caiado


Quando a manchete vira sentença — e o arquivamento vira rodapé


Operação Sofisma: seis anos depois, o Estado admite a falta de provas e expõe o dano irreparável causado pela condenação midiática


Em 23 de janeiro de 2020, a manchete foi dura, ruidosa e definitiva. A Polícia Civil de Goiás deflagrava a chamada Operação Sofisma e, em poucas horas, uma lista de nomes passou a ocupar o lugar de culpados oficiais da opinião pública.


Blogs, sites e pessoas físicas foram apresentados como peças centrais de um suposto esquema de corrupção, fraude, direcionamento de verbas e manipulação política da comunicação do Governo de Goiás, envolvendo contratos de publicidade institucional realizados entre 2015 e 2017.


A narrativa era simples — e devastadora:

havia crime, havia esquema, havia culpados.


Seis anos depois, o mesmo Estado que alimentou essa narrativa arquivou o inquérito por absoluta falta de provas.

Sem indiciamentos.

Sem autoria.

Sem materialidade.

Sem crime comprovado.


E o silêncio, agora, é ensurdecedor.



A operação que virou espetáculo


À época, reportagens como a publicada em vários veículos de comunicação, como O Popular, Jornal Opção e por Cloves Reges Maia, na editoria Direito e Justiça, não economizaram palavras nem adjetivos. Falava-se em “fraudes”, “esquema de corrupção”, “disseminação de factoides” e “verbas vultosas”.


Os alvos foram nominalmente expostos:

Cristiano Livramento da Silva (Goiás 24 Horas),

Cleuber Carlos do Nascimento,

Eni Isabel de Aquino Alves,

Luiz Gama,

além de ex-servidores públicos.


O texto não fazia ressalvas. Não falava em “suspeita” com a prudência que o Estado de Direito exige. O tom era acusatório, definitivo, condenatório. O julgamento já havia sido feito — sem contraditório, sem sentença, sem prova.


A operação virou manchete.

Os investigados viraram personagens de um enredo criminal que jamais se confirmou.



O que o Estado admite agora — nos autos


O inquérito policial nº 052/2019, instaurado por portaria e conduzido pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (DERCAP), investigava suposto crime de peculato (art. 312 do Código Penal).


O relatório final, assinado pelo delegado Pedro Y. B. Trajano (matrícula 11.300), é explícito ao desmontar, ponto a ponto, a narrativa construída em 2020:

Nenhum investigado foi indiciado

Não foi possível comprovar autoria

Não foi possível comprovar materialidade

Não houve rastreamento financeiro eficaz

Diligências essenciais não foram realizadas a tempo

O decurso excessivo do tempo inviabilizou a produção de provas


O próprio relatório reconhece que, após anos de inércia estatal, bancos, operadoras telefônicas e sistemas de dados já não possuíam informações, tornando a investigação tecnicamente inviável.


Resultado: arquivamento.


A defesa sempre sustentou exatamente isso: tratava-se de uma investigação política, desprovida de lastro probatório, baseada muito mais em narrativa do que em fatos concretos.


O tempo deu razão à defesa.

Mas o tempo não devolve reputações.



Quando a defesa falou — e a mídia escolheu não escutar


No próprio dia da deflagração da Operação Sofisma, os investigados falaram. E falaram com clareza.


Em entrevista ao Sagres Online, Cleuber Carlos reconheceu o direito do Estado investigar, colocou-se à disposição e afirmou que provaria sua inocência. Mais do que isso, denunciou o que hoje se confirma nos autos:


“Estão promovendo uma ação contra alguém que sabem ser inocente.”


Cleuber falou em perseguição política, em vingança pessoal e deixou claro que não faria confronto institucional, mas que o processo estava contaminado desde a origem.


Seis anos depois, o arquivamento não apenas confirma a ausência de provas — confirma que a investigação não se sustentou nem tecnicamente, nem juridicamente.



Cristiano Livramento fez a pergunta que ninguém respondeu


O jornalista Cristiano Livramento da Silva, proprietário do Goiás 24 Horas, também falou publicamente. Explicou, em detalhes, como funcionava a contratação de publicidade institucional:

contrato firmado com agência

tabela de preços

certidões regulares

veiculação dentro da normalidade do mercado


E fez a pergunta central, que jamais foi respondida:


“Qual a irregularidade haveria nisso?”


Cristiano denunciou abuso de autoridade e perseguição política. Disse que provaria sua inocência.


Ele provou.

Não em coletiva.

Não em editorial.


Mas no silêncio constrangedor do arquivamento.



A imprensa ouviu — mas não escutou


As defesas falaram desde o primeiro dia. Não houve fuga, silêncio ou negativa genérica. Houve explicações, argumentos e denúncia de motivação política.


A imprensa, porém, fez sua escolha editorial:

deu palco à acusação

relativizou a defesa

transformou investigação em condenação simbólica


Hoje, com o inquérito encerrado sem provas, fica evidente que não se tratava de corrupção comprovada, mas de uma investigação que jamais conseguiu sustentar aquilo que prometeu nas manchetes.



A Operação Sofisma nasceu política — e isso nunca foi segredo


A Operação Sofisma foi deflagrada nos primeiros dias do governo de Ronaldo Caiado, logo após sua posse.


Não foi coincidência.

Foi método.


Iniciava-se ali uma ofensiva sistemática contra o legado do ex-governador Marconi Perillo, com o objetivo claro de criminalizar politicamente sua gestão e sustentar, a qualquer custo, uma narrativa de ruptura baseada em suspeitas que nunca se confirmaram.


A Sofisma foi uma das primeiras engrenagens desse processo.



Fernando Krebs e a criminalização da crítica


Um personagem central dessa engrenagem foi o promotor Fernando Krebs.


Fernando Krebs já havia atuado de forma reiterada contra Marconi Perillo durante seus mandatos. Na Operação Sofisma, sua atuação extrapolou o campo político e avançou sobre a imprensa independente.


Cristiano Livramento e Cleuber Carlos tornaram-se alvos diretos:

como investigados em procedimento criminal

como réus em ações propostas pelo promotor

e, posteriormente, como alvos de ações pessoais quando passaram a denunciá-lo publicamente


O mesmo promotor que imputava crimes, quando confrontado pela crítica jornalística, passou a se dizer vítima.


A crítica virou crime.

O contraditório virou punição.

A denúncia virou ofensa.



O que restou aos investigados


Restou o dano:

reputações manchadas

nomes eternamente indexados a “operações”

prejuízos profissionais e pessoais

e nenhum espaço proporcional para reparação


O arquivamento não vira manchete.

A inocência não gera cliques.

A correção não viraliza.



Opinião — sem rodeios


A Operação Sofisma não fracassou apenas como investigação. Ela fracassou como exemplo de justiça responsável e expôs um problema ainda maior: o uso político do sistema de justiça com apoio de parte da imprensa.


Em 2020, os investigados disseram que eram vítimas de perseguição política.

Em 2026, o Estado arquivou por falta absoluta de provas.


A história não absolveu apenas pessoas.

Ela condenou a pressa, o sensacionalismo e a covardia de não reconhecer o erro.


A Operação Sofisma terminou nos arquivos.

Mas o que ela revelou sobre perseguição institucional com verniz legal não pode — e não deve — ser arquivado.

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