Operação Sofisma: seis anos depois, o Estado admite a falta de provas e expõe o dano irreparável causado pela condenação midiática
Em 23 de janeiro de 2020, a manchete foi dura, ruidosa e definitiva. A Polícia Civil de Goiás deflagrava a chamada Operação Sofisma e, em poucas horas, uma lista de nomes passou a ocupar o lugar de culpados oficiais da opinião pública.
Blogs, sites e pessoas físicas foram apresentados como peças centrais de um suposto esquema de corrupção, fraude, direcionamento de verbas e manipulação política da comunicação do Governo de Goiás, envolvendo contratos de publicidade institucional realizados entre 2015 e 2017.
A narrativa era simples — e devastadora:
havia crime, havia esquema, havia culpados.
Seis anos depois, o mesmo Estado que alimentou essa narrativa arquivou o inquérito por absoluta falta de provas.
Sem indiciamentos.
Sem autoria.
Sem materialidade.
Sem crime comprovado.
E o silêncio, agora, é ensurdecedor.
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A operação que virou espetáculo
À época, reportagens como a publicada em vários veículos de comunicação, como O Popular, Jornal Opção e por Cloves Reges Maia, na editoria Direito e Justiça, não economizaram palavras nem adjetivos. Falava-se em “fraudes”, “esquema de corrupção”, “disseminação de factoides” e “verbas vultosas”.
Os alvos foram nominalmente expostos:
Cristiano Livramento da Silva (Goiás 24 Horas),
Cleuber Carlos do Nascimento,
Eni Isabel de Aquino Alves,
Luiz Gama,
além de ex-servidores públicos.
O texto não fazia ressalvas. Não falava em “suspeita” com a prudência que o Estado de Direito exige. O tom era acusatório, definitivo, condenatório. O julgamento já havia sido feito — sem contraditório, sem sentença, sem prova.
A operação virou manchete.
Os investigados viraram personagens de um enredo criminal que jamais se confirmou.
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O que o Estado admite agora — nos autos
O inquérito policial nº 052/2019, instaurado por portaria e conduzido pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (DERCAP), investigava suposto crime de peculato (art. 312 do Código Penal).
O relatório final, assinado pelo delegado Pedro Y. B. Trajano (matrícula 11.300), é explícito ao desmontar, ponto a ponto, a narrativa construída em 2020:
• Nenhum investigado foi indiciado
• Não foi possível comprovar autoria
• Não foi possível comprovar materialidade
• Não houve rastreamento financeiro eficaz
• Diligências essenciais não foram realizadas a tempo
• O decurso excessivo do tempo inviabilizou a produção de provas
O próprio relatório reconhece que, após anos de inércia estatal, bancos, operadoras telefônicas e sistemas de dados já não possuíam informações, tornando a investigação tecnicamente inviável.
Resultado: arquivamento.
A defesa sempre sustentou exatamente isso: tratava-se de uma investigação política, desprovida de lastro probatório, baseada muito mais em narrativa do que em fatos concretos.
O tempo deu razão à defesa.
Mas o tempo não devolve reputações.
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Quando a defesa falou — e a mídia escolheu não escutar
No próprio dia da deflagração da Operação Sofisma, os investigados falaram. E falaram com clareza.
Em entrevista ao Sagres Online, Cleuber Carlos reconheceu o direito do Estado investigar, colocou-se à disposição e afirmou que provaria sua inocência. Mais do que isso, denunciou o que hoje se confirma nos autos:
“Estão promovendo uma ação contra alguém que sabem ser inocente.”
Cleuber falou em perseguição política, em vingança pessoal e deixou claro que não faria confronto institucional, mas que o processo estava contaminado desde a origem.
Seis anos depois, o arquivamento não apenas confirma a ausência de provas — confirma que a investigação não se sustentou nem tecnicamente, nem juridicamente.
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Cristiano Livramento fez a pergunta que ninguém respondeu
O jornalista Cristiano Livramento da Silva, proprietário do Goiás 24 Horas, também falou publicamente. Explicou, em detalhes, como funcionava a contratação de publicidade institucional:
• contrato firmado com agência
• tabela de preços
• certidões regulares
• veiculação dentro da normalidade do mercado
E fez a pergunta central, que jamais foi respondida:
“Qual a irregularidade haveria nisso?”
Cristiano denunciou abuso de autoridade e perseguição política. Disse que provaria sua inocência.
Ele provou.
Não em coletiva.
Não em editorial.
Mas no silêncio constrangedor do arquivamento.
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A imprensa ouviu — mas não escutou
As defesas falaram desde o primeiro dia. Não houve fuga, silêncio ou negativa genérica. Houve explicações, argumentos e denúncia de motivação política.
A imprensa, porém, fez sua escolha editorial:
• deu palco à acusação
• relativizou a defesa
• transformou investigação em condenação simbólica
Hoje, com o inquérito encerrado sem provas, fica evidente que não se tratava de corrupção comprovada, mas de uma investigação que jamais conseguiu sustentar aquilo que prometeu nas manchetes.
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A Operação Sofisma nasceu política — e isso nunca foi segredo
A Operação Sofisma foi deflagrada nos primeiros dias do governo de Ronaldo Caiado, logo após sua posse.
Não foi coincidência.
Foi método.
Iniciava-se ali uma ofensiva sistemática contra o legado do ex-governador Marconi Perillo, com o objetivo claro de criminalizar politicamente sua gestão e sustentar, a qualquer custo, uma narrativa de ruptura baseada em suspeitas que nunca se confirmaram.
A Sofisma foi uma das primeiras engrenagens desse processo.
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Fernando Krebs e a criminalização da crítica
Um personagem central dessa engrenagem foi o promotor Fernando Krebs.
Fernando Krebs já havia atuado de forma reiterada contra Marconi Perillo durante seus mandatos. Na Operação Sofisma, sua atuação extrapolou o campo político e avançou sobre a imprensa independente.
Cristiano Livramento e Cleuber Carlos tornaram-se alvos diretos:
• como investigados em procedimento criminal
• como réus em ações propostas pelo promotor
• e, posteriormente, como alvos de ações pessoais quando passaram a denunciá-lo publicamente
O mesmo promotor que imputava crimes, quando confrontado pela crítica jornalística, passou a se dizer vítima.
A crítica virou crime.
O contraditório virou punição.
A denúncia virou ofensa.
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O que restou aos investigados
Restou o dano:
• reputações manchadas
• nomes eternamente indexados a “operações”
• prejuízos profissionais e pessoais
• e nenhum espaço proporcional para reparação
O arquivamento não vira manchete.
A inocência não gera cliques.
A correção não viraliza.
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Opinião — sem rodeios
A Operação Sofisma não fracassou apenas como investigação. Ela fracassou como exemplo de justiça responsável e expôs um problema ainda maior: o uso político do sistema de justiça com apoio de parte da imprensa.
Em 2020, os investigados disseram que eram vítimas de perseguição política.
Em 2026, o Estado arquivou por falta absoluta de provas.
A história não absolveu apenas pessoas.
Ela condenou a pressa, o sensacionalismo e a covardia de não reconhecer o erro.
A Operação Sofisma terminou nos arquivos.
Mas o que ela revelou sobre perseguição institucional com verniz legal não pode — e não deve — ser arquivado.

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