quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O combustível da COMURG virou ouro: R$ 50 milhões, um edital sob suspeita e a Prefeitura que finge não ver

COMURG, combustível caro e silêncio conveniente: quando a Prefeitura de Goiânia prefere não explicar

A Companhia de Urbanização de Goiânia (COMURG) está prestes a movimentar mais de R$ 50 milhões em apenas 12 meses com um contrato de gerenciamento do abastecimento de combustíveis. Não é um detalhe administrativo. É uma escolha política. E, como toda escolha política que envolve muito dinheiro público, ela exige explicações. O problema é que, até agora, o que se vê é pressa para contratar e resistência para esclarecer.


O Pregão Eletrônico nº 050/2025, alvo do Processo nº 183/2026 no Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO), já não é apenas um edital contestado. É um símbolo de como a administração municipal parece confortável em operar num modelo caro, concentrado e blindado por tecnicismos, enquanto empurra as perguntas incômodas para debaixo do tapete.


O Tribunal de Contas fez o que lhe cabia: admitiu a denúncia, reconheceu plausibilidade jurídica e apontou, preto no branco, indícios de direcionamento, exigências desproporcionais e possível violação aos princípios da Lei das Estatais. Isso não é retórica de oposição. É linguagem técnica de órgão de controle.



O modelo que “funciona” — para quem?



A COMURG consome cerca de 300 mil litros de combustível por mês. Em contratos dessa magnitude, ninguém precisa roubar um centavo de forma escancarada para causar prejuízo. Basta um modelo mal desenhado — ou bem desenhado demais — que aceite preços sistematicamente no topo da média.


Um desvio contínuo de 10%, perfeitamente camuflado dentro de parâmetros “de mercado”, representa 30 mil litros por mês pagos a mais. Dependendo da diferença por litro, isso significa algo próximo de R$ 150 mil por mês. Em um ano, R$ 1,8 milhão evaporando sem barulho, sem escândalo, sem manchete.


E a pergunta que ecoa nos corredores da Prefeitura é simples e constrangedora:

por que insistir em um modelo mais caro, mais rígido e com pior atendimento?



Quando a técnica vira escudo



O discurso oficial é o de sempre: “é técnico”, “é moderno”, “é seguro”. Curiosamente, esse mesmo discurso aparece em quase todo contrato público problemático dos últimos anos. A técnica vira escudo, não instrumento. Serve para afastar concorrentes, justificar exigências excessivas e, principalmente, inibir questionamentos.


A chamada Prova de Conceito, um dos pontos centrais da denúncia admitida pelo TCM, funciona como filtro sofisticado: exige customizações complexas antes mesmo da contratação. Em bom português, só passa quem já está pronto — ou quem já conhece o caminho das pedras.


O Tribunal enxergou isso. Não por acaso, delimitou expressamente a apuração de indícios de direcionamento. Quem insiste em tratar isso como “normalidade administrativa” ou não leu o processo ou finge não ter lido.



Quem manda, afinal?



Formalmente, a decisão passa pelo presidente da COMURG, o coronel Kleber. Mas ninguém em sã consciência acredita que um contrato dessa dimensão seja decidido em isolamento. Em Goiânia, como em qualquer grande prefeitura, decisões estratégicas não nascem em mesas solitárias.


A pergunta que incomoda não é se houve ordem.

É de onde veio a ordem.


Foi uma escolha exclusiva da COMURG?

Foi orientação do núcleo político da Prefeitura?

Houve diálogo prévio com interessados no modelo?


O silêncio diante dessas perguntas é ensurdecedor — e revelador.



O alerta foi dado. Agora é escolha política.



O Tribunal de Contas já acendeu a luz amarela. Disse, com todas as letras, que se confirmadas as irregularidades, o dano ao erário pode ser expressivo. A partir daqui, insistir nesse modelo sem explicações públicas não é mais erro técnico. É decisão política consciente.


Em Goiânia, o combustível da COMURG não é apenas diesel, gasolina ou etanol.

É dinheiro público queimando devagar, protegido por editais complexos e pela velha aposta de que a população não vai acompanhar.


O problema é que alguém está acompanhando.

E agora, oficialmente.


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