Da “emergência” ao edital sob medida: o rastro da Prime, Neo e Link nos contratos de combustível de Goiânia
COMURG insiste em licitação questionada enquanto histórico recente expõe um modelo que se repete
A insistência da Companhia de Urbanização de Goiânia (COMURG) em levar adiante uma licitação de R$ 50 milhões para gerenciamento de abastecimento de combustíveis, mesmo após alerta formal do Tribunal de Contas dos Municípios de Goiás (TCM-GO), não ocorre no vácuo. Ela se insere em um histórico recente de contratações problemáticas, já denunciadas por este blog, que revelam um padrão preocupante na política de combustível da Prefeitura de Goiânia.
Em 2024, sob o pretexto de emergência, a Prefeitura ignorou uma licitação regular em andamento e firmou um contrato de R$ 35,2 milhões com a empresa Neo Consultoria, apontada em denúncias como empresa satélite do grupo Prime. À época, o município alegou risco de desabastecimento, mas não convocou as empresas remanescentes do certame, nem demonstrou de forma convincente a impossibilidade de solução dentro do próprio processo licitatório.
Agora, no novo episódio envolvendo a COMURG, o enredo muda de forma — mas não de essência.
O Pregão Eletrônico nº 050/2025, atualmente sob análise do TCM, foi formalmente questionado por conter exigências técnicas restritivas, com destaque para a Prova de Conceito, que exige soluções avançadas antes mesmo da contratação. O Tribunal admitiu a denúncia, reconheceu plausibilidade jurídica e apontou indícios de direcionamento.
Ainda assim, a COMURG decidiu seguir com a licitação, amparando-se em um parecer de procurador do próprio Tribunal de Contas, favorável à continuidade do certame. O parecer causou estranheza no meio jurídico por seu efeito prático: esvaziar a cautela do órgão de controle justamente em um contrato de alto valor e impacto financeiro.
O conselheiro Humberto Aidar, relator do processo, ainda não se manifestou publicamente sobre esse novo movimento. Enquanto isso, a licitação segue avançando.
O que chama atenção é que, mais uma vez, o desenho do edital aponta naturalmente para um grupo restrito de empresas que dominam esse mercado específico: Prime, Link e Neo. As mesmas empresas — ou seus entornos empresariais — que já aparecem em contratos emergenciais, licitações anuladas e modelos de contratação reiteradamente questionados.
Não se trata de afirmar vencedores antecipadamente. Trata-se de observar um padrão de repetição:
– contratos milionários;
– modelos altamente técnicos;
– justificativas de urgência ou complexidade;
– e um conjunto quase fixo de empresas aptas a atender às exigências.
No caso da COMURG, o risco ao erário não está apenas no volume financeiro — embora R$ 50 milhões em 12 meses por si só já imponham escrutínio máximo. Está no modelo de contratação, que permite preços sistematicamente elevados, difíceis de auditar e protegidos por uma retórica técnica que afasta o controle social.
A experiência recente da Prefeitura de Goiânia mostra que, quando a emergência é usada como atalho, a exceção vira regra. Agora, quando a licitação é formalmente questionada, a regra parece ser empurrada até o limite, mesmo sob alerta do Tribunal.
Formalmente, as decisões passam por secretarias e estatais. Politicamente, o fio condutor é único. Em contratos dessa magnitude, não há coincidências inocentes — apenas escolhas.
A pergunta que se impõe não é se os modelos são legais no papel.
É por que, repetidamente, eles conduzem às mesmas empresas.
O histórico existe. As denúncias estão documentadas.
E o padrão, mais uma vez, se apresenta.
Licitação com dia, hora e destino conhecidos
Diferentemente de processos administrativos ainda em fase preliminar, o Pregão Eletrônico nº 050/2025 da COMURG tem data e hora marcadas para acontecer: 21 de janeiro de 2026, às 9h30, na plataforma eletrônica da BLL Compras. Trata-se de um contrato estimado em R$ 50 milhões, cuja realização segue confirmada apesar de questionamentos formais, alerta do Tribunal de Contas e de um histórico recente de contratações controversas no mesmo setor .
Nos bastidores do mercado de gerenciamento de combustíveis, a leitura é praticamente unânime: o edital foi desenhado para caber em poucas mãos. As exigências técnicas, a formatação da Prova de Conceito, a escala operacional exigida e o histórico de atuação prévia nesse tipo de contrato afunilam o certame para um grupo específico de empresas.
Entre elas, aparecem novamente Prime, Link e Neo — empresas que já foram alvo de uma série de reportagens investigativas deste blog, nas quais se apontam vínculos operacionais, atuação coordenada em contratos públicos e domínio reiterado desse mercado, formando o que especialistas e denúncias qualificam como um cartel funcional no setor de gerenciamento de frotas e combustíveis.
Não se trata de mera coincidência. O próprio edital prevê mecanismos de verificação de vínculos societários e de grupo econômico, reconhecendo implicitamente que esse risco existe . Ainda assim, o desenho técnico do certame continua favorecendo exatamente as empresas que já dispõem da estrutura, da tecnologia e da capilaridade exigidas — porque ajudaram a consolidar esse modelo ao longo dos anos.
Na prática, a licitação ocorre com destino previsível, ainda que formalmente aberta. É o tipo de processo em que a concorrência existe no papel, mas o resultado já é antecipado pelo próprio formato do edital. Quando uma licitação milionária nasce com data, hora e perfil de vencedor conhecidos pelo mercado, o problema deixa de ser apenas administrativo. Passa a ser político e institucional.
Nesse contexto, a insistência da COMURG em manter o certame, mesmo após alerta do Tribunal de Contas e diante de um histórico de contratos emergenciais suspeitos envolvendo as mesmas empresas, reforça a percepção de que não se trata de um erro pontual, mas de um método.
A pergunta que permanece não é se a licitação vai acontecer.
Ela já vai acontecer.
A pergunta real é por que, mais uma vez, ela parece acontecer para os mesmos de sempre.

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