No dia em que seria rebaixado para a Série B do Campeonato Brasileiro, o Atlético Goianiense não jogou diante de sua torcida. Não houve choro, protestos, decepção. Em um estádio cheio de corintianos, a 200 quilômetros de casa, o clube goiano deu seu último suspiro no sonho de permanecer na elite. Um sonho que dependia de um milagre matemático. No futebol, o Atlético já havia caído.
Os protestos, o choro e a decepção ficaram distantes no espaço e no tempo. O Atlético, que saiu da Série B do Goiano para a elite nacional em cinco anos, viveu uma temporada terrível. “Deu tudo errado” foi a frase mais ouvida na sede do clube, no centro de treinamentos, em entrevistas dos jogadores e da diretoria.Em campo, não houve dúvida: tudo deu errado, de fato. O Atlético perdeu a chance de um inédito tricampeonato goiano, contratou mal, trocou de treinador repetidas vezes, viu um jogador envolvido em caso de doping por erro médico, conviveu com uma série incomum de lesões musculares e sofreu com ciúmes no elenco por questões salariais. Mas a queda do Atlético Goianiense para a Série B teve, também, fatores externos. O clube, um dos que mais cresceram no futebol brasileiro nos últimos anos, teve de lidar com dificuldades financeiras, viu seu nome envolvido em um escândalo nacional e, em meio à disputa do Brasileiro, foi associado até ao assassinato de um jornalista esportivo em Goiânia.
Castelo de influências
O renascimento do Atlético Goianiense começou em 2005, quando o time teve de disputar a Série B do campeonato estadual depois de anos de penúria e de um período de inatividade. Para se reerguer, a equipe precisou de dinheiro e influência. E, desde então, sustentou-se graças ao trabalho de bastidores de um grupo de dirigentes com fortes laços políticos na Região Centro-Oeste. Deste grupo, fizeram parte nos últimos anos o deputado federal Valdivino de Oliveira, ex-secretário da Fazenda do Distrito Federal e atual presidente do clube, o também deputado federal Jovair Arantes, candidato derrotado à prefeitura de Goiânia, o empresário Maurício Sampaio, ex-vice-presidente de futebol do clube; e, em menor escala, o ex-presidente da Câmara Municipal de Goiânia, Wladimir Garcêz.
Nos últimos dois anos, o castelo de influências e captação de recursos, sustentado desde o ressurgimento do clube, começou a ruir. E, em 2012, uma série de acontecimentos levou ao fim da estrutura de poder e influência que manteve o Atlético na elite do futebol brasileiro por três anos.
Os padrinhos
A primeira mudança fundamental aconteceu ainda em 2009, quando Valdivino de Oliveira deixou a secretaria da Fazenda do Distrito Federal, cargo que exercia pela segunda vez, depois de uma primeira passagem entre 1999 e 2006. Em fevereiro de 2010, Valdivino foi condenado por improbidade administrativa à frente do cargo; ainda assim, ele conseguiu na justiça o direito de se candidatar a deputado federal em Goiás – com 51.237 votos, ficou como primeiro suplente do PSDB, assumindo uma vaga na Câmara ainda em janeiro de 2011.Na Câmara, embora ainda trabalhasse em Brasília, onde construiu sua rede de influências, Valdivino perdeu parte da capacidade de captar recursos. “Como deputado, ele não tinha mais a influência para conseguir patrocinadores para o clube. Só que o Atlético continuou sem ter um departamento de marketing, dependendo desta influência para conseguir recursos”, disse ao ESPN.com.br uma pessoa ligada ao clube. A influência foi, também, a arma utilizada pelo deputado federal Jovair Arantes para ajudar na ascensão meteórica do clube. Mas, desde o fim de 2011, ele distanciou-se das decisões do clube para trabalhar na própria candidatura à prefeitura de Goiânia. Segundo mais votado, Jovair não conseguiu ir para o segundo turno com o atual prefeito, Paulo Garcia, que se reelegeu. Outra figura importante na fase de bonança do Atlético, o empresário Maurício Sampaio, que ocupava o cargo de vice-presidente de futebol, também se afastou neste ano. No fim do ano passado, Sampaio emprestou R$ 3,3 milhões ao clube, para o pagamento de premiações aos atletas – a quantia está no balanço financeiro de 2011, divulgado em abril deste ano. Segundo apurou o ESPN.com.br, o presidente Valdivino de Oliveira prometeu a Sampaio que o empréstimo seria pago assim que o Atlético recebesse os R$ 16,5 milhões a que teria direito referentes às cotas de TV.
Entretanto, quando o dinheiro entrou nos cofres do clube, Sampaio não foi pago. O calote fez com que o diretor deixasse o clube. De acordo com pessoas ligadas ao Atlético, o ex-vice-presidente de futebol fazia polpudas doações à equipe, inclusive pagando os prêmios por vitórias. Com a má fase do time no Brasileiro e a saída do dirigente, os prêmios por vitória deixaram de ser pagos. O último “bicho” foi o da vitória por 2 a 1 sobre o líder Fluminense, em Volta Redonda, no dia 15 de setembro.
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Vida que segue

Em meio a tanta turbulência fora de campo, o diretor de futebol, Adson Batista, não vê relação entre os fatores externos e o mau desempenho do time. Para ele, o time caiu pelo que fez – ou deixou de fazer – dentro de campo.“O Atlético foi rebaixado o porque deu tudo errado. Contratamos jogadores que não encaixaram no time, fizemos mudanças de treinadores que não deram certo, houve muitas lesões... Foi um ano em que nada deu certo para a gente”, afirmou o dirigente ao ESPN.com.br, na quinta-feira, antes mesmo de o Atlético estar matematicamente rebaixado. “O Atlético já caiu, já caiu. Vamos pensar em 2013”, disse. No domingo, sem choro, protestou ou decepção, o Atlético Goianiense encerrou uma passagem de 3 anos pela elite do futebol brasileiro. Foi o fim de uma fase que talvez não se repita. Foi a crônica de um rebaixamento anunciado.
Fonte: ESPN


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