Maceió afunda de novo — e desta vez a omissão tem endereço, cargo e assinatura
Maceió não está diante de uma nova “descoberta técnica”.
Está diante da continuidade de um crime anunciado, agora agravado por omissão deliberada das autoridades.
Quando o engenheiro Marcos Carnaúba, ex-presidente do Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA) e ex-coordenador do DNOCS, afirma publicamente que há indícios de subsidência fora da área oficialmente reconhecida, inclusive em Ponta Verde, ele não está “levantando hipótese”.
Ele está acusando o modelo institucional de mentir por conveniência.
E isso muda tudo.
O problema nunca foi técnico. Sempre foi político.
Os laudos existiam.
Os alertas existiam.
Os sinais no solo existiam.
O que não existiu foi vontade política de enfrentar o custo real do problema.
Durante anos, o poder público preferiu:
- delimitar o risco em mapas estreitos
- blindar áreas nobres do debate
- ganhar tempo enquanto o subsolo se reorganizava
Essa escolha não é neutra.
É decisão política consciente.
Quando o risco era no Pinheiro, chamaram de “tragédia social”.
Agora que chega à Ponta Verde, chamam de “hipótese”.
Essa diferença de tratamento expõe o que realmente orienta as decisões públicas em Maceió:
CEP do problema.
Enquanto famílias pobres eram removidas às pressas, o discurso era de urgência.
Agora que o alerta toca o metro quadrado mais caro da cidade, o discurso vira cautela, relativização e silêncio.
Não é coincidência.
É classe, poder e dinheiro ditando a narrativa
Quem são os responsáveis políticos?
Não basta citar empresas e encerrar o debate.
Há responsabilidades claras:
- Prefeitura de Maceió, que escolheu administrar o problema politicamente, não preventivamente
- Governo de Alagoas, que nunca liderou uma auditoria independente ampla sobre o subsolo urbano
- Órgãos ambientais estaduais, que aceitaram perímetros estreitos como se fossem fronteiras geológicas
- Autoridades que sabiam e optaram por não ampliar o monitorament
O alerta de Marcos Carnaúba não acusa o passado.
Ele expõe o presente.
O silêncio agora não é prudência. É negligência consciente.
Quando um engenheiro com esse histórico afirma que o debate técnico está sendo subestimado institucionalmente, o recado é claro:
há gente apostando que o problema não vai estourar no próprio mandato.
Mas o solo não respeita calendário eleitoral.
Não espera eleição.
Não negocia narrativa.
Cada dia de silêncio aumenta o passivo jurídico, humano e político.
Se Ponta Verde afundar, não haverá discurso de surpresa
Se surgirem fissuras estruturais fora da área oficial, ninguém poderá alegar ignorância.
O alerta foi dado.
Publicamente.
Por quem tem autoridade técnica e histórica.
A partir deste momento, qualquer omissão:
- será culpa política
- será responsabilidade administrativa
- será crime por negligência
Não haverá “tragédia imprevisível”.
Haverá omissão documentada.
Maceió está diante de uma escolha — e será cobrada por ela
Ou amplia o monitoramento, escancara os dados e enfrenta o problema com transparência,
ou continuará fingindo estabilidade enquanto o chão cede.
O afundamento de Maceió não é apenas geológico.
É institucional, moral e político.
E agora, diferente do passado, ninguém poderá dizer que não foi avisado.

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