De clube-modelo a empresa que “faz a gata parir” às custas de jogadores sem salário
Por anos, o Cuiabá Esporte Clube construiu a imagem de clube organizado, pagador em dia e exemplo de gestão no futebol brasileiro. Essa reputação, no entanto, vem sendo corroída por denúncias recorrentes de atraso deliberado de salários e direitos de imagem, prática que, segundo relatos colhidos pela reportagem, virou método de pressão sobre atletas.
O roteiro é conhecido no futebol — e não é bonito: o clube atrasa, cria o desespero financeiro e, no ápice da pressão, oferece acordos leoninos para “quitar” a dívida pagando cerca de 20% do valor devido. Quem precisa comer, pagar aluguel e sustentar família acaba aceitando. Quem resiste, fica no limbo.
A engrenagem do atraso “estratégico”
Não se trata de acidente de caixa ou crise inesperada. Os atrasos atingem salários, 13º e direitos de imagem, e recaem de forma seletiva sobre atletas que dependem do fluxo mensal para sobreviver. A prática — descrita nos bastidores como “fazer a gata parir” — força a capitulação: o jogador abre mão do que é seu para receber algum dinheiro agora.
O paradoxo é gritante. Clube-empresa, discurso de governança, planilhas e compliance — na prática, o velho calote com verniz corporativo.
De exceção a regra: a queda do padrão
O que antes era exceção virou procedimento. A mudança de postura do comando do clube, nos últimos anos, empurrou o Cuiabá para o mesmo balaio de instituições que tratam o atraso como instrumento de negociação. No futebol brasileiro, isso tem nome: calote.
A transformação é simbólica e concreta. saida do pedestal do “clube que honra” para a prateleira dos que normalizam o não pagamento e terceirizam o custo da má gestão aos atletas.
O silêncio que grita
Até aqui, o silêncio institucional pesa mais do que qualquer nota oficial. Não há explicação convincente, não há pedido público de desculpas, não há plano de regularização com datas e garantias. Há, sim, o desgaste da marca, a insegurança do elenco e a erosão da confiança.
Quem manda no Cuiabá: a família Dresch, o clube-empresa e a contradição entre discurso e prática
O Cuiabá Esporte Clube não é um clube tradicional capturado por dirigentes amadores ou políticos de ocasião. Desde a sua origem moderna, trata-se de um clube-empresa, adquirido em 2009 pelo Grupo Dresch, conglomerado familiar mato-grossense com forte atuação industrial, especialmente por meio da Drebor.
À frente da operação esportiva estão Cristiano Dresch, atual presidente, e Alessandro Dresch, ambos integrantes do núcleo decisório da família. Não se trata, portanto, de desconhecimento de gestão, improviso ou ausência de estrutura administrativa. Há comando centralizado, planejamento histórico e controle empresarial direto.
Clube-empresa desde o DNA
Diferentemente da maioria dos clubes brasileiros, o Cuiabá já operava como clube-empresa desde sua fundação e, em 2021, foi um dos pioneiros na adoção formal do modelo de Sociedade Anônima do Futebol (SAF). Esse detalhe é crucial: o clube sempre vendeu ao mercado a imagem de governança, previsibilidade e responsabilidade financeira.
Foi sob esse discurso que o Cuiabá:
- Saiu das divisões inferiores;
- Estruturou elenco competitivo;
- Chegou à Série A;
- Consolidou-se na elite do futebol brasileiro.
Nada disso aconteceu por acaso. Foi gestão empresarial aplicada ao futebol.
A contradição que derruba o discurso
É exatamente por isso que a prática atual denunciada — atrasos deliberados de salários, 13º e direitos de imagem, acompanhados de ofertas de quitação por cerca de 20% do valor devido — ganha contornos ainda mais graves.
Quando um clube associativo atrasa, fala-se em bagunça.
Quando um clube-empresa atrasa, fala-se em método.
No caso do Cuiabá, não há como dissociar a responsabilidade da família controladora, porque:
- O comando é familiar e centralizado;
- O clube não depende de conselhos políticos ou assembleias caóticas;
- As decisões passam diretamente pela presidência.
Portanto, o atraso não é acidente: é escolha de gestão.
De vitrine de modernidade a mais um “malandro do futebol”
A família Dresch construiu, com mérito esportivo, um clube competitivo. Mas nos últimos anos, segundo relatos de bastidores, a mesma gestão que pregava profissionalismo passou a adotar práticas típicas do submundo do futebol brasileiro: pressionar quem precisa, atrasar quem não pode esperar e transformar contrato em instrumento de chantagem financeira.
É aqui que o Cuiabá cruza uma linha perigosa:
- Sai do papel de exemplo de SAF;
- Entra no rol dos clubes caloteiros;
- E aproxima sua imagem daquilo que o futebol brasileiro tem de mais atrasado.
Opinião
Clube-empresa não é salvo-conduto para pisar em contrato. Gestão moderna não combina com pressão financeira sobre trabalhador. O Cuiabá escolheu um caminho perigoso: trocar reputação por caixa de curto prazo, dignidade por desconto forçado.
Se não houver correção imediata de rota — com pagamento integral, transparência e respeito — o clube consolida um novo rótulo. E no futebol, rótulos custam caro.
Quando um clube-empresa dá calote, não é crise: é decisão estratégica.
Quando uma SAF não paga, não é falha: é modelo mal-intencionado.
A família Dresch sabe gerir. Justamente por isso, não pode se esconder atrás de dificuldades momentâneas. O que está em jogo não é apenas dinheiro — é credibilidade, segurança jurídica e dignidade profissional.
Se o Cuiabá quer continuar se vendendo como símbolo de gestão moderna, precisa começar pelo básico: honrar contratos. Caso contrário, deixa de ser pioneiro e passa a ser apenas mais um malandro bem vestido no futebol brasileiro.

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