domingo, 11 de janeiro de 2026

Emendas, Caixa Dois e Deboche no Futebol Amador de Morrinhos

Dinheiro público, futebol amador e silêncio oficial: a engrenagem que o Ministério Público precisa desmontar em Morrinhos (GO)

Verbas destinadas ao esporte viram salários, festas e contratos informais — e tudo aponta para um esquema que opera longe das contas da Prefeitura


O caso não se desenrola em um vácuo político. Ele ocorre em Morrinhos, município cujo cenário institucional já é marcado por uma sequência de denúncias, representações e apurações no âmbito do Ministério Público, envolvendo a atual gestão municipal.


É nesse contexto que emerge mais uma denúncia grave: a possível utilização irregular de verbas públicas destinadas ao esporte, que, segundo indícios, estariam sendo desviadas para pagamento de jogadores amadores, custeio de viagens, festas e manutenção de um futebol informalmente profissionalizado.


As entidades citadas na representação encaminhada ao Ministério Público do Estado de Goiás são a Associação Rodoviária Esportiva (ARE) e a Sociedade Civil Santos Dumont.


Quando a conta não fecha, a resposta não pode ser o deboche

Há algo profundamente errado quando clubes amadores, sem bilheteria relevante, sem patrocínios consistentes e sem atividade econômica regular, conseguem movimentar centenas de milhares de reais por temporada. Errado — e grave.

Mas o que torna o caso ainda mais sensível é o comportamento de quem deveria prestar esclarecimentos.


Um print de conversa atribuído ao vereador e presidente da Câmara Municipal , Leandro Ventura, revela um tom de deboche explícito em relação às denúncias feitas. Na troca de mensagens, o presidente minimiza representações ao Ministério Público, afirma que denúncias são “arquivadas”, trata o denunciante com termos ofensivos e demonstra total desprezo pelo controle institucional, como se a fiscalização fosse irrelevante ou inócua.

Esse tipo de postura não é um detalhe lateral. Ela ajuda a explicar o ambiente em que o possível desvio prospera: a naturalização da impunidade.


Conflito de interesses elevado ao extremo

O caso se agrava quando se observa que Leandro Ventura acumula papéis sensíveis:


  • é presidente da Câmara municipal, vereador e autor de emendas destinadas a associações esportivas;
  • atua como presidente do América Futebol do Clube
  • exerce influência direta na gestão e nas contratações do futebol amador;
  • e tem vínculo familiar direto com a estrutura pública, já que seu irmão ocupa o cargo de secretário municipal de Esportes e Lazer.

Estamos diante de uma concentração de poder político, administrativo e esportivo que, por si só, já exigiria nível máximo de transparência e cautela. O que se vê, no entanto, é o oposto: arrogância, deboche e tentativa de desqualificar a denúncia.

Isso não é apenas imoral. Em tese, configura cenário propício para improbidade administrativa, desvio de finalidade, peculato e até lavagem de dinheiro, a depender do que uma investigação financeira aprofundada revelar.


Os números não mentem — e não fecham

Simulações baseadas em valores efetivamente pagos a atletas apontam para:

  • cerca de R$ 9.600 por jogo, apenas com o time titular;
  • R$ 124.800 em 13 partidas, sem incluir reservas, comissão técnica, material esportivo, alimentação ou logística;
  • com festas e despesas extras, o custo ultrapassa facilmente R$ 200 mil por temporada.



A pergunta continua sem resposta:

de onde vem esse dinheiro?


Clubes amadores não geram esse caixa. A conta só fecha quando se observa o fluxo de emendas parlamentares e recursos públicos.


Por que o Ministério Público precisa ir além do óbvio


Este não é um caso sobre futebol. É sobre dinheiro público sendo tratado com escárnio, em um ambiente onde o controle institucional é ridicularizado e a denúncia é tratada como incômodo pessoal.

A investigação precisa ir onde ainda não foi:

  • quebra de sigilo bancário das associações;
  • auditoria completa das movimentações;
  • oitiva dos atletas;
  • cruzamento de notas fiscais, empresas fornecedoras e vínculos políticos.

Investigar apenas a Prefeitura é investigar a superfície.

O problema está nas contas das associações e na teia de relações que as cerca.


Opinião do Blog do Cleuber Carlos

Quando o agente público debocha da denúncia, o problema deixa de ser apenas financeiro — passa a ser institucional. Em Morrinhos, o esporte parece ter virado escudo retórico para práticas que exigem apuração profunda e independente.


O Ministério Público tem agora a chance de responder não apenas aos números, mas também ao desprezo explícito pelo controle público.

Porque quando quem administra dinheiro público ri da fiscalização, quem paga a conta é sempre a população.


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