Verbas destinadas ao esporte viram salários, festas e contratos informais — e tudo aponta para um esquema que opera longe das contas da Prefeitura
O caso não se desenrola em um vácuo político. Ele ocorre em Morrinhos, município cujo cenário institucional já é marcado por uma sequência de denúncias, representações e apurações no âmbito do Ministério Público, envolvendo a atual gestão municipal.
É nesse contexto que emerge mais uma denúncia grave: a possível utilização irregular de verbas públicas destinadas ao esporte, que, segundo indícios, estariam sendo desviadas para pagamento de jogadores amadores, custeio de viagens, festas e manutenção de um futebol informalmente profissionalizado.
As entidades citadas na representação encaminhada ao Ministério Público do Estado de Goiás são a Associação Rodoviária Esportiva (ARE) e a Sociedade Civil Santos Dumont.
Quando a conta não fecha, a resposta não pode ser o deboche
Há algo profundamente errado quando clubes amadores, sem bilheteria relevante, sem patrocínios consistentes e sem atividade econômica regular, conseguem movimentar centenas de milhares de reais por temporada. Errado — e grave.
Mas o que torna o caso ainda mais sensível é o comportamento de quem deveria prestar esclarecimentos.
Um print de conversa atribuído ao vereador e presidente da Câmara Municipal , Leandro Ventura, revela um tom de deboche explícito em relação às denúncias feitas. Na troca de mensagens, o presidente minimiza representações ao Ministério Público, afirma que denúncias são “arquivadas”, trata o denunciante com termos ofensivos e demonstra total desprezo pelo controle institucional, como se a fiscalização fosse irrelevante ou inócua.
Esse tipo de postura não é um detalhe lateral. Ela ajuda a explicar o ambiente em que o possível desvio prospera: a naturalização da impunidade.
Conflito de interesses elevado ao extremo
O caso se agrava quando se observa que Leandro Ventura acumula papéis sensíveis:
- é presidente da Câmara municipal, vereador e autor de emendas destinadas a associações esportivas;
- atua como presidente do América Futebol do Clube
- exerce influência direta na gestão e nas contratações do futebol amador;
- e tem vínculo familiar direto com a estrutura pública, já que seu irmão ocupa o cargo de secretário municipal de Esportes e Lazer.
Estamos diante de uma concentração de poder político, administrativo e esportivo que, por si só, já exigiria nível máximo de transparência e cautela. O que se vê, no entanto, é o oposto: arrogância, deboche e tentativa de desqualificar a denúncia.
Isso não é apenas imoral. Em tese, configura cenário propício para improbidade administrativa, desvio de finalidade, peculato e até lavagem de dinheiro, a depender do que uma investigação financeira aprofundada revelar.
Os números não mentem — e não fecham
Simulações baseadas em valores efetivamente pagos a atletas apontam para:
- cerca de R$ 9.600 por jogo, apenas com o time titular;
- R$ 124.800 em 13 partidas, sem incluir reservas, comissão técnica, material esportivo, alimentação ou logística;
- com festas e despesas extras, o custo ultrapassa facilmente R$ 200 mil por temporada.
A pergunta continua sem resposta:
de onde vem esse dinheiro?
Clubes amadores não geram esse caixa. A conta só fecha quando se observa o fluxo de emendas parlamentares e recursos públicos.
Por que o Ministério Público precisa ir além do óbvio
Este não é um caso sobre futebol. É sobre dinheiro público sendo tratado com escárnio, em um ambiente onde o controle institucional é ridicularizado e a denúncia é tratada como incômodo pessoal.
A investigação precisa ir onde ainda não foi:
- quebra de sigilo bancário das associações;
- auditoria completa das movimentações;
- oitiva dos atletas;
- cruzamento de notas fiscais, empresas fornecedoras e vínculos políticos.
Investigar apenas a Prefeitura é investigar a superfície.
O problema está nas contas das associações e na teia de relações que as cerca.
Opinião do Blog do Cleuber Carlos
Quando o agente público debocha da denúncia, o problema deixa de ser apenas financeiro — passa a ser institucional. Em Morrinhos, o esporte parece ter virado escudo retórico para práticas que exigem apuração profunda e independente.
O Ministério Público tem agora a chance de responder não apenas aos números, mas também ao desprezo explícito pelo controle público.
Porque quando quem administra dinheiro público ri da fiscalização, quem paga a conta é sempre a população.


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