Enquanto a mineradora canadense exibe relatórios técnicos de conformidade, moradores e pesquisadores independentes denunciam contaminação crônica por metais pesados, riscos nas barragens de rejeitos e impactos silenciosos na saúde pública.
O ouro e o preço escondido
A mina Morro do Ouro, em Paracatu (MG), é a maior operação de ouro a céu aberto do Brasil e um dos pilares globais da Kinross. A empresa ostenta relatórios anuais de sustentabilidade, auditorias ambientais e projetos de biodiversidade. Mas sob o verniz corporativo, cresce uma controvérsia que mistura arsênio nos rios, barragens temidas pela população e relatos de doenças que a ciência oficial ainda hesita em assumir.
O que a Kinross diz
Nos documentos públicos, a mineradora afirma que os níveis de arsênio em água potável e cursos d’água monitorados estão abaixo dos limites da OMS e da legislação brasileira. Defende que suas barragens de rejeitos passam por inspeções técnicas regulares e que planos emergenciais são entregues aos órgãos competentes. Também alega investir em gestão hídrica e programas de biodiversidade para mitigar impactos do gigantismo de sua operação.
O que apontam moradores e cientistas
Do outro lado, comunidades locais e revisões técnicas independentes contestam a narrativa oficial. Pesquisadores ligados a instituições como a Fiocruz descrevem um quadro de exposição crônica a metais pesados, com registros de arsênio acima de referenciais ambientais em solos e sedimentos fluviais. A desconfiança cresce diante da ausência de dados completos sobre aquíferos subterrâneos e sobre a dispersão da poeira tóxica gerada pela lavra.
Além disso, o medo das barragens de rejeito é constante. Comitês de bacia hidrográfica e movimentos sociais denunciam que a população não tem acesso a todos os relatórios de estabilidade e acusam a empresa de falta de transparência. O fantasma de tragédias recentes em Minas Gerais torna qualquer silêncio ainda mais ruidoso.
Saúde pública em xeque
Moradores relatam aumento de doenças renais, neurológicas e respiratórias. Pesquisas independentes pedem estudos epidemiológicos robustos, com biomarcadores em larga escala, para verificar se a mineração está diretamente ligada aos agravos de saúde. Até hoje, os levantamentos oficiais não conseguiram dissipar a dúvida: a população está ou não sendo envenenada lentamente?
O debate que não pode ser silenciado
O caso de Paracatu simboliza o choque entre o discurso ESG das grandes mineradoras e a realidade de comunidades que convivem com poeira, rejeitos e rios contaminados. O ouro extraído a céu aberto alimenta bolsas de valores e reservas internacionais, mas deixa para trás um legado de incertezas ambientais e sociais.
A pergunta que fica é direta: até que ponto o Brasil continuará trocando recursos naturais e saúde coletiva por dividendos corporativos
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