Documento oficial confirma tramitação após representação que envolve policiais de Marechal Deodoro, empresário ligado a políticos e secretário de segurança
A crise institucional que assombra a Polícia Civil de Alagoas ganhou novos contornos após a Corregedoria-Geral instaurar a Investigação Preliminar (IVP nº 0074/2025), confirmada em documento oficial assinado pelo corregedor Fabricio Lima do Nascimento. O despacho, datado de maio de 2025, encaminha o processo SEI nº E:20105.000008860/2025 para apuração de crimes que, se comprovados, revelam um esquema de poder subterrâneo envolvendo policiais, empresários e figuras políticas do estado.
A representação que deu origem à investigação foi protocolada e encaminhada não apenas à Corregedoria, mas também ao Ministério Público de Alagoas (GAECO), apontando um conjunto grave de ilícitos: abuso de autoridade, tortura, grilagem de terras, falsificação de documentos públicos e uso da máquina policial como instrumento de intimidação.
Denúncia de jornalista torturado
Entre os casos relatados, está o de um jornalista que afirma ter sido torturado dentro da prisão, a mando de um empresário com fortes ligações políticas. O episódio não apenas fere frontalmente o Estado Democrático de Direito, mas expõe o risco de se transformar Alagoas em um terreno fértil para milícias institucionais travestidas de polícia.
Reportagens já publicadas em veículos independentes detalham ainda mais o escândalo:
- Policiais de Marechal Deodoro atuando como milicianos para se apropriar ilegalmente de imóveis.
- Um grupo criminoso especializado em documentos falsos e intimidações para tomar propriedades.
- O nome do advogado Daniel Saraiva, ligado ao então secretário de Segurança Flávio Saraiva, acusado de forjar flagrante contra o jornalista denunciando o esquema.
O conjunto das acusações pinta um retrato de um Estado capturado por interesses privados e criminosos, onde agentes da lei se transformam em operadores de negócios ilícitos.
Implicações políticas e jurídicas
A abertura da investigação pela própria Corregedoria representa uma conquista inicial da sociedade civil e da imprensa independente, mas também levanta dúvidas:
- Haverá coragem institucional para ir até o fim?
- O Ministério Público dará sequência às denúncias, mesmo diante do envolvimento de figuras de peso?
- A cúpula política de Alagoas permitirá que a apuração alcance empresários e secretários?
É preciso lembrar que o artigo 5º da Constituição Federal garante o direito à integridade física e moral de todo cidadão, e que o uso da tortura como método de intimidação é crime inafiançável, conforme a Lei nº 9.455/1997.
Se a investigação se restringir a meras formalidades, Alagoas corre o risco de aprofundar uma tradição perversa de impunidade para os poderosos e perseguição para os que ousam denunciar.
Nossa opinião
Este blog já alertava há meses: há um padrão miliciano infiltrado no Estado, misturando agentes públicos, empresários e advogados de alto trânsito político. A resposta da Corregedoria é apenas o primeiro passo, mas não basta.
O Brasil não pode aceitar que um jornalista seja torturado dentro do cárcere por denunciar esquemas. Não pode tolerar que imóveis sejam tomados com base em documentos falsos chancelados por policiais. Não pode admitir que a polícia se torne braço armado de interesses privados.
Cabe agora ao Ministério Público, ao Judiciário e à sociedade civil garantir que este processo não seja mais um arquivo morto em gavetas oficiais. A transparência e a firmeza na apuração são o mínimo que se espera diante de crimes tão graves.

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