quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SURUBA E PODER: O ESCÂNDALO QUE TESTA OS LIMITES DA BLINDAGEM EM BRASÍLIA

Vamos cortar o teatro: quando um caso desse estoura, o sistema faz o que sempre faz. Primeiro, tenta transformar em fofoca. Depois, empurra para o porão do “segredo de justiça”. Em seguida, abre a caixa de ferramentas do formalismo: “rito”, “competência”, “nulidade”, “provas contaminadas”. E, quando o assunto começa a encostar em gente grande, vem o clássico brasileiro: a blindagem pelo tempo.

A reportagem do MyNews, assinada por Mara Luquet, atribui a um relatório da Polícia Federal entregue ao ministro Edson Fachin uma descrição que, se confirmada nos autos, não é “moralismo” nem “libertinagem”. É engenharia de influência: encontros de ostentação como rede de relacionamento, ambientes de silêncio, “isolamento informativo” e uma arquitetura social feita para ninguém entender, ninguém registrar, ninguém testemunhar.

Isso, se verdadeiro, é gravíssimo. Não por causa de “peladão”. Mas porque sugere captura de ambiente — a velha corrupção atualizada: não é só dinheiro. É acesso. É cumplicidade. É proteção. É “ninguém viu, ninguém sabe, ninguém prova”.


E aí vem a pergunta que o Brasil inteiro deveria fazer sem medo:


vai dar em alguma coisa — ou vai virar mais um caso que o sistema esfria até morrer?



1) A blindagem existe? Existe. E ela tem nome.



No Brasil, a blindagem não precisa ser um “complô” cinematográfico. Ela funciona com coisas muito mais banais e poderosas:


  • Segredo de justiça (ou sigilo investigativo) como cortina: o público não sabe, a imprensa não vê, o debate morre por falta de documento.
  • Controle do vazamento: vaza o que convém, segura o que compromete. E o que compromete, curiosamente, quase nunca aparece inteiro.
  • Fragmentação: o caso vira vários pedaços, cada um em uma gaveta, cada um com um rito, cada um com uma desculpa técnica.
  • Judicialização do detalhe: quando o mérito é pesado, discute-se a forma até o mérito apodrecer.



Isso é blindagem institucional. Não é teoria. É prática brasileira.



2) Os nomes dos políticos vão aparecer?



Aqui tem duas realidades que convivem:


A realidade jurídica: em tese, nomes podem aparecer e devem ser apurados se houver indícios.

A realidade política: nomes só aparecem até onde o sistema aguenta.


E o sistema aguenta pouco quando:


  • envolve gente com mandato,
  • envolve centrões e coalizões,
  • envolve “governabilidade”,
  • envolve bastidores em Brasília.



Aí nasce a pergunta mais incômoda:


existe proteção para que esses nomes não sejam revelados?


Proteção formal, direta, “legal”? Em geral não.

Proteção prática, indireta, “operacional”? Aí o Brasil tem doutorado.


Porque o que impede a revelação não é só lei — é a forma como o caso é conduzido: sigilo prolongado, peças ocultadas, “falta de justa causa” seletiva, recortes de informação, e um “não dá para identificar” que chega sempre como salvação.



3) Quais as consequências se os nomes vierem à tona?



Se vierem com consistência documental, o impacto é em três camadas:


(a) Política: implosão de alianças, chantagem cruzada, corrida para salvar mandato e biografia.

(b) Institucional: teste real para PF, PGR/MPF e STF — porque o Brasil vai medir se há “dois pesos”.

(c) Social: a população entende a mensagem: ou “ninguém está acima”, ou “o topo é intocável”.


E é aqui que mora a coisa mais séria: se virar tapete, a consequência é devastadora — não só para o caso, mas para o país. A mensagem vira: a lei tem teto.



4) Onde isso pode parar?



Três cenários — e eu digo do jeito que o Brasil funciona, não do jeito que a Constituição sonha.



Cenário 1: “Efeito Lava Jato ao contrário” (a anulação como estratégia)



A narrativa passa a ser “excesso”, “erro de rito”, “inconsistência na condução” — e o caso morre no formalismo.

Não se prova inocência. Invalida-se o processo.

E, depois, vem o enterro com flores: “o Judiciário garantiu o devido processo legal”. A plateia aplaude e o sistema respira.



Cenário 2: “Culpados genéricos, intocáveis preservados”



Pune-se operador, laranja, intermediário, “pessoa jurídica”, e preserva-se o núcleo político.

É o modelo clássico: alguém paga para o sistema dizer que “funcionou”, mas o que realmente importa — nomes e estruturas — não chega no público.



Cenário 3: “Escalada real”



Esse é o cenário raro: investigação avança, conexões aparecem, nomes emergem, e há enfrentamento institucional.

Para isso acontecer, precisa de duas coisas que o Brasil nem sempre entrega:


  • consistência técnica impecável (cadeia probatória, competência, fundamentação),
  • coragem institucional para encostar em mandato e poder.




5) Vai ficar encoberto? Vai parar debaixo do tapete?



A resposta honesta é: depende de uma guerra que o público nem vê.


Quando um caso atinge o andar de cima, existe uma disputa subterrânea:


  • PF quer entregar resultado,
  • defesa quer nulidade,
  • bastidor quer “pacificar”,
  • política quer sobreviver,
  • e o Judiciário, muitas vezes, vira árbitro do próprio incêndio.



Aí, se o caso for conduzido com qualquer brecha, o sistema agradece. Porque brecha jurídica, no Brasil, é mais útil do que prova — ela mata o processo sem discutir o mérito.



6) O que o público provavelmente vai saber?



O público, quase sempre, sabe:


  • “houve relatório”
  • “houve suspeita”
  • “houve escândalo”
  • “houve discussão sobre nulidade”
  • “houve sigilo”



E depois, sabe o de sempre:


  • “não deu em nada”
  • “não era bem assim”
  • “não se comprovou”
  • “arquivou”
  • “prescreveu”
  • “competência”
  • “forma”
  • “rito”



O Brasil não é o país da falta de escândalo. É o país da administração do escândalo.



7) A pergunta final: isso vai evoluir?



Se evoluir, vai evoluir por um motivo simples: quando vira impossível segurar.


Ou porque documentos vazam por inteiro (não recortados).

Ou porque há disputa entre grupos e alguém entrega alguém.

Ou porque o desgaste público cresce a ponto de custar mais esconder do que investigar.


Se nada disso acontecer, o caminho natural é o tapete. Com carimbo, com prazo e com ares de legalidade.


E esse é o ponto mais duro:


o risco maior não é o que aconteceu nas festas — é o que pode acontecer com o país se o sistema decidir não mostrar quem estava nelas.


Blog do Cleuber Carlos

Opinião, bastidor e cobrança institucional.


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