Análise publicada nas redes sociais desloca o foco da tragédia do “descontrole” para a lógica de poder dentro das relações
A tragédia que abalou Itumbiara continua gerando repercussões que ultrapassam o campo policial. Nas redes sociais, o psicoterapeuta Rodolfo Calazans publicou uma reflexão que provocou forte debate ao questionar a narrativa simplificada de que o episódio teria sido fruto de um “surto” ou de um momento de “perda da cabeça”.
O texto não trata de laudo. Não apresenta diagnóstico clínico formal. Mas propõe uma leitura comportamental contundente: segundo ele, o que se viu não foi explosão emocional descontrolada, e sim uma lógica de posse, honra e necessidade de manter controle narrativo.
Essa interpretação desloca o eixo da discussão.
Em vez de reduzir o episódio a impulso irracional, o autor sugere que há uma estrutura simbólica por trás de crimes dessa natureza: a ideia de que família pode ser tratada como patrimônio, que traição pode ser convertida em justificativa moral e que o agressor busca, no ato extremo, garantir a “última palavra”.
A provocação é relevante porque toca em um ponto sensível: a cultura da honra como legitimadora de violência.
Calazans afirma que colocar traição e homicídio na mesma balança cria um “falso equilíbrio” — tese que reforça uma distinção fundamental no debate jurídico e moral: erro relacional não é crime; assassinato é.
A análise também critica o que chama de “sanitização do mal”, expressão usada para condenar tentativas de romantizar o ato com linguagem espiritualizada ou simbólica.
É importante registrar: trata-se de interpretação psicológica publicada em ambiente opinativo. A motivação concreta do autor do crime é matéria de investigação oficial. Nenhuma conclusão sobre intenção pode substituir apuração técnica das autoridades.
Ainda assim, a reflexão amplia o debate público ao questionar padrões culturais que, historicamente, já foram utilizados para relativizar violência dentro do ambiente familiar.
Ao trazer essa leitura para o centro da discussão, o psicoterapeuta não encerra o tema — ele o complexifica.
E complexificar é necessário quando a tragédia corre o risco de ser simplificada.
ARTIGO DE RODOLFO CALAZANS
Segue a transcrição na íntegra
rodolfocalazans
O caso de Itumbiara não é apenas uma tragédia local, é a materialização terminal de algo que eu vejo, em pequenas doses, todos os dias no consultório: a posse disfarçada de amor.
Li a carta deixada pelo autor e, como psicoterapeuta, o que vi ali não foi dor, foi estratégia.
Ele não matou por “perder a cabeça”. Ele matou para garantir que teria a última palavra.
Precisamos dar nome aos bois:
O uso da “Honra”: Quando um homem usa a traição da parceira para justificar o extermínio dos próprios filhos, ele não está defendendo sua dignidade.
Ele está tratando pessoas como patrimônio.
Se o “bem” (a família) não serve mais à sua imagem, ele o destrói.
A Sanitização do Mal: Chamar as vítimas de “anjos que vieram comigo” é a tentativa final de higienizar a crueldade.
Ele não os levou para o céu, ele os arrancou da vida para punir quem ficou.
O Falso Equilíbrio: Traição é um erro relacional, uma falha de caráter.
Violência é crime, é perversão. Tentar colocar os dois na mesma balança é validar a lógica de quem mata.
O amor protege, liberta e, no limite, deixa ir.
O que mata é o ego ferido de quem não suporta perder o controle da narrativa.
Se você vive em um relacionamento onde o “respeito” é usado como ameaça e o controle dita as regras, entenda: isso não vai melhorar com o tempo. Isso só acaba com consciência e limites claros.
A autonomia emocional não é apenas um desejo, em muitos casos, ela é uma estratégia de sobrevivência.
Meus sentimentos à família e, principalmente, à mãe que agora precisa reconstruir o impossível.
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