Artista que já foi reconhecido pelo Estado como vítima da ditadura e beneficiário da Lei de Anistia agora critica o instituto e pede boicote aos que defendem o perdão político.
O Brasil convive com mais uma contradição que expõe a seletividade do debate político e cultural. O cantor e ex-ministro Gilberto Gil, que foi perseguido durante a ditadura militar, preso e exilado em 1969, é reconhecido oficialmente como anistiado político. Esse status não é apenas simbólico: trata-se de um ato formal do Estado brasileiro, que desde os anos 2000 reparou moral e administrativamente artistas, jornalistas, militantes e cidadãos que sofreram perseguições naquele período.
Ou seja, Gilberto Gil é um dos nomes que foram beneficiados diretamente pela Lei de Anistia e pelas medidas de reparação dela derivadas. Foi essa legislação que permitiu que ele recuperasse seus direitos civis, políticos e a própria legitimidade perante o Estado brasileiro.
Agora, no entanto, o mesmo artista surge em manchetes afirmando: “Se você é a favor da anistia, por favor, não consuma nossas músicas.” A frase, dita em tom de repúdio à atual discussão sobre anistias políticas, escancara uma contradição incômoda: alguém que já recebeu do país o manto da anistia, hoje condena o instituto que lhe garantiu liberdade, reparação e reconhecimento histórico.
Esse movimento abre espaço para um questionamento inevitável: a anistia só vale quando beneficia a esquerda cultural e política? Quando serviu para reparar artistas e militantes da ditadura, foi celebrada como ato democrático. Mas quando o mesmo mecanismo é reivindicado por adversários políticos, vira alvo de repúdio absoluto.
A seletividade moral fica evidente. Gilberto Gil, cuja biografia está intimamente ligada ao conceito de anistia e à luta por liberdade, adota hoje uma posição que beira a negação daquilo que um dia lhe foi essencial.
Essa contradição lança luz sobre um debate maior: a instrumentalização da memória histórica. Enquanto figuras públicas tratam a anistia como uma bandeira de ocasião, o instituto perde sua essência jurídica de reparação e pacificação nacional.
No caso de Gilberto Gil, fica a pergunta que ecoa: se a anistia fosse negada a ele nos anos 70, teria sua trajetória seguido o mesmo caminho? Teria se tornado ícone cultural, ministro da Cultura, símbolo de resistência?
O episódio revela que, no Brasil, até a memória da perseguição e da reparação vira palco de disputas ideológicas, onde a coerência se perde e a conveniência fala mais alto.

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