Documentos oficiais expõem crise na arrecadação municipal e levantam suspeitas de cumplicidade no esquema
Buriti Alegre vive dias turbulentos. Em menos de 48 horas, o prefeito Garibaldo Ferreira de Santana Neto assinou dois atos administrativos que, se analisados em conjunto, revelam a dimensão da crise que ronda a gestão municipal. No dia 18 de agosto de 2025, foi publicada a exoneração de Willen Marsal Ferreira Silva Custódio, secretário municipal de arrecadação e tributos. Já no dia 20 de agosto, o gabinete do prefeito editou a Portaria nº 076/2025, instaurando sindicância administrativa para apurar irregularidades justamente na arrecadação do ITBI (Imposto de Transmissão de Bens Imóveis).
A coincidência temporal não é mero detalhe burocrático. Trata-se de um movimento político calculado diante da pressão externa. Isso porque o Ministério Público de Goiás havia encaminhado um ofício cobrando explicações sobre denúncias de desvio na cobrança do ITBI.
A denúncia que escancara o rombo
Um vídeo que circula nas redes sociais acusa diretamente o prefeito e seu então secretário de tributos de desviarem dinheiro público. O esquema, segundo a denúncia, consistia em receber os valores do imposto em espécie ou via PIX em contas pessoais, em vez de recolhê-los aos cofres municipais. O rombo estimado chega à casa de quase R$ 1 milhão.
Não bastasse a gravidade dos fatos, o denunciante afirma que o prefeito seria cúmplice, beneficiando-se do dinheiro que deveria custear a máquina pública. Se confirmadas as alegações, não estaríamos diante apenas de irregularidade administrativa, mas de crimes tipificados como peculato e corrupção, além de atos de improbidade administrativa.
A manobra do prefeito: contenção ou confissão?
A exoneração de Willen Marsal antes mesmo da abertura formal da sindicância soa mais como uma manobra de autopreservação do que um ato de moralidade. Afinal, se o gestor tivesse real compromisso com a transparência, não teria permitido que a arrecadação tributária fosse conduzida de forma tão opaca a ponto de despertar o interesse do Ministério Público.
A sindicância, embora necessária, traz consigo uma sombra: será conduzida por servidores designados pelo próprio prefeito, o que gera dúvida sobre sua real imparcialidade. O risco é que o processo administrativo se transforme em mera peça de ficção, concluindo pelo arquivamento ou por punições leves, enquanto o erário já teria sido profundamente lesado.
Consequências políticas e jurídicas
A situação abre um flanco perigoso para o prefeito Garibaldo Neto. Politicamente, sua gestão fica marcada pela suspeita de corrupção institucionalizada. Juridicamente, pode vir a responder solidariamente pelos atos de seu subordinado, caso se prove que tinha conhecimento — ou, pior, participação ativa — no esquema.
Com o MP já na cola da prefeitura, é provável que a sindicância seja apenas a primeira de uma série de investigações. O caso pode evoluir para ação de improbidade administrativa, denúncia criminal por peculato e até mesmo pedido de cassação de mandato, dependendo da robustez das provas.
Opinião
Em Buriti Alegre, mais uma vez a política municipal se confunde com práticas arcaicas de desvio de recursos. A exoneração do secretário de tributos não encerra o problema, apenas confirma que algo grave aconteceu. Resta saber se a sindicância será usada como um instrumento de apuração real ou como um biombo para abafar escândalos.
Enquanto isso, o contribuinte paga a conta — ou melhor, não paga, porque parte desse dinheiro sequer chegava aos cofres públicos.

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