O futebol goiano vive mais um capítulo previsível da sua própria hipocrisia institucional. Quando a decisão da arbitragem favorece, o silêncio impera. Quando prejudica, nasce a tese da conspiração.
No duelo envolvendo a Anapolina, a reclamação é clara: pênalti não marcado, Goiás beneficiado. Se fosse o contrário, alguém acredita que o Goiás estaria em silêncio? Evidentemente não. O discurso seria outro. A narrativa seria de “erro grave”, “pressão externa”, “falta de respeito com a camisa”.
No clássico entre Atlético e Vila Nova, a história se repetiu. Penalidade reclamada, decisão mantida, VAR silencioso. O Vila reage, aponta dedo, questiona federação, fala em prejuízo.
Mas aqui está o ponto que ninguém quer encarar: isso não é sobre justiça esportiva. É sobre correlação de forças.
Ao longo dos anos, os grandes clubes goianos aprenderam que campeonato não se disputa apenas nas quatro linhas. Existe o jogo político. Existe a pressão institucional. Existe o bastidor. E todos — absolutamente todos — já souberam jogar esse jogo quando lhes foi conveniente.
Durante muito tempo, o Goiás soube transitar nesse ambiente com habilidade. Depois, o Atlético consolidou força administrativa e institucional. O Vila Nova, historicamente com menos influência nos bastidores, quase sempre reclamou de desvantagem estrutural.
Agora o Vila grita. E o grito é compreensível. Mas não é um grito inocente. É o grito de quem está aprendendo a disputar o mesmo território de poder.
A verdade incômoda é simples: não há mocinhos nessa narrativa.
Quando a balança pende a favor, é “interpretação”.
Quando pende contra, é “escândalo”.
Quando se perde a queda de braço política, vira “arbitragem tendenciosa”.
O problema do Campeonato Goiano não é apenas técnico. É cultural. É institucional. É estrutural.
Enquanto os clubes continuarem investindo energia em medir força fora de campo, o roteiro será sempre o mesmo: polêmica no domingo, nota oficial na segunda, indignação estratégica na terça e memória curta na quarta.
No fundo, ninguém quer um campeonato neutro. Querem um campeonato onde sua influência pese mais.
E o torcedor, que acredita que o jogo começa no apito inicial, raramente percebe que ele começa muito antes — nas salas fechadas, nos corredores, nas conversas reservadas.
No Campeonato Goiano, a indignação não nasce do erro.
Nasce de quem perdeu o controle do bastidor.
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