segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Saúde, poder e família: o contrato que atravessa mandatos e expõe a promiscuidade institucional em Rio Verde

Mesmo fora da prefeitura, Paulo do Vale segue no centro de uma engrenagem que mistura Organização Social, dinheiro público e vínculos familiares — um caso que desafia a moralidade administrativa.

A gestão da saúde pública em Rio Verde revela um retrato preocupante de como o poder político, quando não respeita limites éticos claros, continua operando mesmo após o fim do mandato. O caso envolve o Instituto de Planejamento e Gestão de Serviços Especializados (IPGSE), uma Organização Social responsável pela administração de serviços de saúde, contratos firmados com o Município e a subcontratação de empresas privadas ligadas diretamente ao entorno familiar do ex-prefeito Paulo do Vale, hoje Secretário de Governo.

Formalmente, está tudo “regular”. Materialmente, o cenário grita conflito de interesses.

A arquitetura do problema: OS, contratos e subcontratações

Organizações Sociais são frequentemente apresentadas como solução moderna para a gestão da saúde. Não são empresas, não têm sócios, não visam lucro. Mas isso não significa ausência de riscos.


O IPGSE, embora juridicamente privado, opera com recursos públicos, administra unidades do SUS e depende diretamente de contratos assinados pelo poder público municipal. Em Rio Verde, esses contratos foram firmados durante a gestão de Paulo do Vale como prefeito.

Até aqui, nada de ilegal.

O problema começa quando a OS subcontrata empresas privadas para execução dos serviços médicos — e entre essas empresas aparece a Renal Care Serviços Médicos Ltda, representada pelo médico Guilherme do Vale Garcia, sobrinho direto do então prefeito.

Não se trata de suposição. Trata-se de documentos oficiais.


O ponto sensível: parentesco + poder + dinheiro público

É preciso ser claro:

👉 o simples fato de um parente de prefeito prestar serviços a uma OS não configura, automaticamente, crime.

Mas o jornalismo sério não se limita ao “não é crime”. Ele investiga se é ético, se é moral e se respeita os princípios constitucionais da administração pública.


A Constituição Federal é cristalina ao impor à gestão pública os princípios da impessoalidade, moralidade e legalidade. Esses princípios não se limitam à assinatura direta de contratos — alcançam também a influência política, o ambiente decisório e a aparência de favorecimento.

Quando uma Organização Social:

  • recebe milhões do município,
  • subcontrata empresa ligada a parente do prefeito,
  • mantém esse contrato ao longo do tempo,
  • e segue prestando serviços mesmo após o prefeito assumir cargo estratégico no governo,

a pergunta não é mais se “pode”.

A pergunta é: por que ninguém achou necessário interromper, revisar ou ao menos blindar essa relação?

Mudança de cargo, permanência do poder

Paulo do Vale deixou o cargo de prefeito, mas não deixou o centro do poder municipal. Ao assumir a Secretaria de Governo, passou a ocupar uma função ainda mais estratégica: articulação política, coordenação administrativa e influência direta sobre contratos, secretarias e prioridades da gestão.


E aqui está o nó central da investigação:


O IPGSE continuou prestando serviços ao município após essa mudança?

Os contratos foram renovados? Houve aditivos? Os repasses continuaram?


Se a engrenagem continuou girando, então o poder apenas mudou de cadeira — não de mãos.

O silêncio da transparência

Até o momento, não há clareza pública suficiente sobre:

  • os valores totais repassados ao IPGSE,
  • quanto desse montante foi direcionado à Renal Care,
  • se houve chamamento público para essa subcontratação,
  • quem autorizou e fiscalizou esses contratos,
  • e se houve qualquer declaração formal de impedimento por parte do agente político envolvido.

Em contratos de saúde, a ausência de transparência não é detalhe — é alerta vermelho

Legalidade não basta: o problema é institucional

Mesmo que todos os papéis estejam formalmente corretos, o caso revela algo mais profundo:

👉 a naturalização da promiscuidade institucional.

Quando gestores passam a tratar como normal que:

  • parentes gravitem em torno de contratos públicos,
  • OS funcionem como zonas cinzentas de subcontratação,
  • e o poder político continue influente mesmo fora do cargo eletivo,

o resultado é a corrosão da confiança pública.

Não se governa apenas cumprindo a letra fria da lei.

Governa-se respeitando seus princípios.


O que precisa ser investigado — e por quem

Este caso exige apuração independente, com acesso irrestrito aos documentos e respostas objetivas às seguintes questões:

  • Qual o valor total do contrato entre Rio Verde e o IPGSE?
  • Quanto a Renal Care recebeu e por quais serviços?
  • Houve processo público de escolha dessa empresa?
  • Quem autorizou a subcontratação?
  • O município foi informado formalmente?
  • Houve continuidade contratual após Paulo do Vale assumir a Secretaria de Governo?

Essas respostas não podem ficar restritas aos bastidores.

Opinião

O problema aqui não é um sobrenome.

É um modelo de poder que se perpetua, contorna a fiscalização e se protege sob a formalidade jurídica.


Quando a saúde pública vira território de relações pessoais e políticas, o risco não é apenas financeiro — é humano.


E enquanto não houver transparência total, o caso IPGSE–Rio Verde seguirá como símbolo de tudo aquilo que a administração pública não pode aceitar como normal.


No Blog do Cleuber Carlos, o silêncio nunca foi opção.


Rafael Lara falha como presidente e a OAB-GO perde a autoridade moral

OAB-GO ajoelhada ao poder: a covardia institucional de Rafael Lara no caso Rodolfo Caiado

Quando o presidente da Ordem perde a independência, a advocacia perde a voz — e a sociedade, a confiança

A Ordem dos Advogados do Brasil não é um clube social, nem um puxadinho do poder político. A OAB existe para defender a Constituição, a legalidade, a ética e a dignidade da advocacia, inclusive — e principalmente — quando isso exige enfrentar poderosos. Quando a Ordem se cala, tergiversa ou relativiza fatos graves, ela trai sua própria razão de existir.


Foi exatamente isso que ocorreu no caso envolvendo o advogado Rodolfo Caiado, sobrinho do governador de Goiás, flagrado em agressão física registrada em vídeo, em um episódio que teria ocorrido na presença de crianças. O fato é público, visual, concreto. Não depende de interpretação subjetiva, nem de versões contraditórias: as imagens falam por si.


Ainda assim, a OAB-GO, sob a presidência de Rafael Lara, escolheu um caminho que não honra a instituição que comanda.





A nota que envergonha a advocacia


A reação oficial da OAB-GO foi classificar o episódio como um “desentendimento” envolvendo “supostas agressões”, tratando o caso como se fosse um evento da “vida privada”. Essa escolha semântica não é inocente. É uma estratégia clássica de diluição da gravidade, usada quando se quer proteger alguém — especialmente quando esse alguém tem sobrenome pesado e conexões políticas óbvias.


Ao fazer isso, a OAB-GO ignorou o vídeo, minimizou a violência, desconsiderou o impacto sobre a vítima e normalizou uma agressão física, algo absolutamente incompatível com os princípios que regem a advocacia.


Violência não vira “desentendimento” porque o agressor é parente do governador.

Agressão filmada não vira “suposta” porque incomoda o poder.


Falta de independência: o problema central

O ponto mais grave deste episódio não é apenas a agressão em si — embora ela seja gravíssima. O verdadeiro escândalo é a postura submissa do presidente da OAB-GO, que demonstra não ter independência política, institucional ou moral para exercer o cargo que ocupa.


A presidência da OAB exige autonomia, coragem e pulso firme. Exige capacidade de agir contra qualquer advogado que viole os princípios éticos da profissão, independentemente de sobrenomes, alianças ou relações de poder.


Rafael Lara mostrou que não tem essa independência.


Ao optar por uma nota tímida, relativizadora e evasiva, ele deixou claro que:


  • não enfrenta o poder;
  • não protege a imagem da advocacia;
  • não age com igualdade de critérios;
  • e não cumpre integralmente o papel institucional que o cargo exige.

Quando o presidente da OAB mede palavras para não desagradar o Palácio, a Ordem deixa de ser instituição e passa a ser instrumento político.

Dois pesos, duas medidas

A pergunta que ecoa — e não pode ser ignorada — é simples e direta:

👉 Se o agressor fosse um advogado comum, sem parentesco com o governador, a reação da OAB seria a mesma?

A experiência mostra que não.

A advocacia goiana já viu casos em que advogados sem proteção política foram rapidamente expostos, processados e punidos, muitas vezes por condutas muito menos graves. No caso Rodolfo Caiado, o que se viu foi o oposto: silêncio elegante, nota protocolar e complacência institucional.

Isso tem nome: dois pesos e duas medidas.


O papel que a OAB abandonou


A OAB não existe para proteger advogados violentos.

Existe para zelar pela ética, pela dignidade da profissão e pela paz social.

Quando a Ordem relativiza agressão física — ainda mais diante de menores — ela envia uma mensagem perigosa: a de que o poder político pode comprar silêncio institucional.

Ao classificar violência como “vida privada”, a OAB-GO abdica de sua função constitucional e se afasta da sociedade que deveria defender.


Uma liderança fraca compromete toda a instituição

O episódio revela algo ainda mais profundo: Rafael Lara não tem o perfil que o cargo exige. Falta-lhe independência. Falta-lhe firmeza. Falta-lhe coragem institucional.

A OAB-GO, sob sua gestão, não se mostrou capaz de:

  • enfrentar um caso sensível;
  • agir com isonomia;
  • sustentar princípios acima de conveniências políticas.


E quando o presidente da Ordem se mostra incapaz de punir um advogado poderoso, toda a advocacia paga a conta — em credibilidade, em respeito e em confiança social.


A advocacia não precisa de presidentes que se ajoelham ao poder.

Precisa de líderes que honrem a toga moral do cargo, mesmo quando isso custa desconforto político.

No caso Rodolfo Caiado, a OAB-GO falhou.

E a responsabilidade tem nome e sobrenome: Rafael Lara.

No Blog do Cleuber Carlos, não se normaliza violência, não se relativiza ética e não se aceita uma OAB de joelhos.


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Moisés Nunca Existiu: O Silêncio da História, da Ciência e da Arqueologia

Sem registros, sem provas e sem vestígios: como a figura central da tradição bíblica resiste apenas no campo da fé

Durante séculos, a figura de Moisés foi apresentada como um fato histórico incontestável. Líder, legislador, profeta. O homem que teria desafiado o Egito, conduzido um povo pelo deserto e recebido leis diretamente de Deus. Mas quando a fé é retirada da equação e o tema é submetido ao método científico, à arqueologia e à história comparada, o que sobra é um dado incômodo: não há qualquer prova histórica ou científica da existência de Moisés.


E o que existe, na verdade, é um silêncio ensurdecedor.

O Egito registrava tudo — menos Moisés

O Egito Antigo é uma das civilizações mais bem documentadas da história. Registros administrativos, inscrições em templos, estelas comemorativas, listas de povos derrotados, crises internas, revoltas, secas, epidemias e até greves de trabalhadores chegaram até os dias atuais.

No entanto, não há uma única menção a Moisés.

Não há registro das dez pragas.

Não há relato de uma fuga em massa de escravizados hebreus.

Não há menção a um colapso econômico ou militar decorrente do Êxodo.

E isso não é detalhe. Um evento da magnitude descrita na Bíblia — com centenas de milhares de pessoas deixando o Egito — seria impossível de ocultar nos arquivos administrativos de uma potência imperial.

A arqueologia também não encontrou Moisés

Escavações realizadas ao longo de décadas no Sinai e em Canaã não encontraram:

  • vestígios de acampamentos compatíveis com 40 anos no deserto;
  • restos materiais de uma migração em massa;
  • objetos, inscrições ou sepultamentos associados a Moisés.

O que a arqueologia mostra, ao contrário da narrativa bíblica, é que os antigos israelitas surgem gradualmente em Canaã, sem sinais de invasão externa ou êxodo coletivo.

Ou seja: o povo não saiu do Egito — ele sempre esteve ali.

O texto bíblico não é contemporâneo aos fatos

Outro ponto ignorado pelos discursos religiosos é que os livros atribuídos a Moisés não foram escritos na época em que ele teria vivido.

A crítica textual moderna demonstra que:

  • a Torá foi redigida e compilada entre os séculos IX e V a.C.;
  • por múltiplos autores;
  • com interesses políticos, religiosos e identitários claros.

O Êxodo não é um diário histórico. É uma construção narrativa posterior, escrita para legitimar leis, hierarquias e autoridade religiosa.

Moisés como figura política, não histórica

Para a maioria dos historiadores e antropólogos, Moisés se encaixa melhor em outro perfil: o do fundador simbólico.

Culturas antigas frequentemente criavam personagens fundadores para:

  • unificar tribos;
  • atribuir origem divina às leis;
  • impedir questionamentos (“a lei não vem dos homens, vem de Deus”);
  • consolidar poder religioso.

Não é coincidência que códigos legais anteriores, como o de Hamurábi, apresentem normas quase idênticas às atribuídas a Moisés. A diferença não está no conteúdo, mas na estratégia de autoridade.

A pergunta que incomoda: por que isso nunca é dito?

Porque admitir a inexistência de Moisés como personagem histórico desestabiliza narrativas de poder, não apenas religiosas, mas culturais e políticas.

Não se trata de atacar a fé de ninguém. Trata-se de separar:

  • fé (esfera pessoal),
  • de fato histórico (esfera pública).

Quando instituições apresentam personagens sem comprovação como fatos incontestáveis, o debate deixa de ser espiritual e passa a ser intelectual.

Opinião: a verdade não destrói a fé — mas destrói mitos de controle

Reconhecer que Moisés não é comprovado historicamente não enfraquece valores morais. O que enfraquece sociedades é sustentar verdades absolutas sem lastro na realidade.

A moral humana não nasceu em tábuas de pedra. Ela nasceu da convivência, do conflito e da necessidade de sobrevivência coletiva.

Moisés, ao que tudo indica, não foi um homem de carne e osso, mas uma ideia poderosa. E ideias, quando não questionadas, tornam-se ferramentas de controle.

A ciência não precisa provar que Moisés não existiu.

Basta constatar que ninguém jamais conseguiu provar que ele existiu.

E, no jornalismo sério, o ônus da prova sempre pertence a quem afirma.