A cidade goiana capturada por interesses religiosos, contratos suspeitos e um prefeito rejeitado pela própria população
Quem atravessa hoje as ruas de São Miguel do Araguaia não vê apenas crateras no asfalto. Vê o retrato de uma gestão falida, marcada por abandono urbano, denúncias sucessivas, relações promíscuas entre poder político e interesses privados — e um prefeito cada vez mais isolado da população que o elegeu.
A cidade ganhou um novo apelido popular, repetido em conversas de rua, redes sociais e denúncias encaminhadas a órgãos de controle: São Miguel dos Buracos. Buracos nas ruas. Buracos na administração. Buracos na ética pública.
Um governo de gogó, marketing e púlpito
O atual prefeito construiu sua imagem política no discurso fácil, no gogó inflado e na retórica religiosa. Lives, falas emotivas e promessas são abundantes. Resultados concretos, não.
Na prática, São Miguel vive o colapso do básico: ruas esburacadas, poeira, ausência de manutenção urbana e sensação generalizada de abandono. A gestão parece mais preocupada em sustentar uma base política fechada, ligada à igreja, do que em governar para o conjunto da população.
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Prefeitura sob influência religiosa
Denúncias recorrentes apontam que a prefeitura passou a funcionar como extensão de um grupo religioso específico, ferindo na prática o princípio do Estado laico. Cargos públicos teriam sido criados ou ocupados para atender interesses internos, inclusive envolvendo familiares de lideranças religiosas, como a esposa de um bispo ocupando cargo na administração municipal.
O governo deixa de ser institucional e passa a ser confessional, governando para poucos e excluindo muitos
Lousas digitais, atas superfaturadas e contratos sob suspeita
O Blog do Cleuber Carlos já denunciou a compra de lousas digitais por meio de atas de registro de preços, com valores considerados excessivos e desproporcionais à realidade do município. As aquisições levantaram questionamentos sobre sobrepreço, direcionamento e falta de transparência — temas que passaram a integrar o radar de órgãos de controle.
Essas compras contrastam com a realidade das ruas: dinheiro para tecnologia, nenhum para asfalto.
Prédio público cedido e conflito de interesses
Outra denúncia grave envolve a cessão de prédio público para funcionamento de uma faculdade em São Miguel do Araguaia, instituição na qual o irmão do prefeito figura como sócio. O caso levanta suspeitas de conflito de interesses, favorecimento indevido e uso da máquina pública para benefício privado.
A situação se agrava com denúncias envolvendo o presidente da Câmara Municipal de São Miguel do Araguaia, conhecido como Batista, que, segundo apurações e relatos locais, teria ligação indireta com a instituição por meio de um suposto laranja — fato que já desperta atenção nos bastidores políticos e jurídicos.
Ministério Público e investigações
As irregularidades na prefeitura não são novidade para o Ministério Público de Goiás. A gestão municipal já foi alvo de investigações e procedimentos envolvendo contratos, nomeações e uso de recursos públicos.
O volume e a recorrência das denúncias indicam um padrão administrativo, não episódios isolados.
Shows superfaturados e prioridades invertidas
Enquanto falta infraestrutura básica, surgem denúncias de contratação de shows com valores considerados superfaturados, reforçando a percepção de que a gestão prefere o espetáculo ao serviço público.
A pergunta que ecoa nas ruas é direta:
👉 Como falta dinheiro para tapar buracos, mas sobra para festas e contratos caros?
Câmara submissa e nepotismo escancarado
O Legislativo municipal, que deveria fiscalizar o Executivo, é visto por grande parte da população como submisso e aparelhado. O presidente da Câmara, Batista, mantém a esposa como secretária de Agricultura, numa prática que, no mínimo, afronta os princípios da moralidade administrativa.
Há ainda denúncias envolvendo vereadores acusados de assédio sexual, fatos que agravam a crise de credibilidade do Legislativo local e reforçam a sensação de impunidade.
Traição política e rejeição histórica
Eleito pelo Partido Liberal, o prefeito Jeronymo Rodrigues, rompeu com o eleitorado ao trocar de legenda e migrar para o Movimento Democrático Brasileiro, num movimento interpretado por muitos como oportunismo político.
O resultado é visível: índices de rejeição que ultrapassam 80%, segundo levantamentos informais, percepção popular e termômetro das ruas. A população está revoltada, descrente e cansada de promessas.
Opinião
São Miguel do Araguaia não vive apenas uma crise administrativa. Vive uma captura do poder público por interesses privados, religiosos e políticos, com uma população cada vez mais excluída das decisões e dos benefícios do orçamento municipal.
Uma cidade governada para amigos, igreja e alianças internas não é uma cidade governada para o povo.
Enquanto isso não mudar, São Miguel continuará afundada em buracos — físicos e morais — consolidando-se como o pior exemplo de gestão municipal em Goiás.
São Miguel dos Buracos não é um apelido. É um diagnóstico.

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