Quando um deputado federal fala em “fogo amigo”, a pergunta que precisa ser feita é simples: quem está realmente disparando?
Gustavo Gayer resolveu reagir publicamente após a visita de Wilder Morais a Jair Bolsonaro e a confirmação, por Eduardo Bolsonaro, de que Wilder é o nome escolhido para o governo de Goiás.
Até aí, divergência política é normal. O problema começa quando a divergência vira tentativa de reescrever o campo ideológico.
Gayer, que durante anos fez críticas públicas e duras ao governador Ronaldo Caiado, agora adota um discurso de contenção, fala em evitar conflito e sustenta que está apenas seguindo orientação de Bolsonaro para não “arrumar briga” em Goiás.
Mas a memória política não é seletiva.
Caiado rompeu com Bolsonaro em momentos decisivos. Durante a pandemia, declarou que não precisava dos votos bolsonaristas. Criou a chamada “taxa do agro”, medida que atingiu diretamente produtores rurais — base majoritariamente alinhada ao bolsonarismo no estado.
Esse histórico é público. Está registrado. Não é interpretação.
O que causa estranheza não é a discordância. É a tentativa de transformar quem defende candidatura própria do PL em responsável por “fogo amigo”.
Se o PL em Goiás opta por candidatura própria, isso é autonomia partidária. Se o bolsonarismo goiano rejeita aproximação com Caiado, isso é posicionamento político.
A questão central é outra: ao defender contenção e sugerir aproximação estratégica, Gayer estaria preservando o projeto bolsonarista ou deslocando o partido para o colo de um governador que já se afastou reiteradas vezes do ex-presidente?
Não se trata de adjetivo. Trata-se de coerência.
Na política, mudança de estratégia é legítima. O que não é legítimo é atribuir a terceiros a responsabilidade por uma divisão que nasce da própria divergência interna.
Se há incêndio, ele não começou com a confirmação de Wilder. Ele começou no momento em que parte do grupo passou a defender moderação com quem já declarou independência do bolsonarismo.
O eleitorado de direita em Goiás não é amnésico. Ele sabe quem esteve ao lado de Bolsonaro nos momentos de embate nacional — e quem tomou distância.
A pergunta que fica não é quem faz “fogo amigo”.
A pergunta é: qual é, afinal, o projeto político que está sendo defendido — e a serviço de quem? PERSONALISMO OU PROJETO COLETIVO?
Outro ponto que ganha força nos bastidores do PL em Goiás é a percepção de que Gustavo Gayer atua mais sob lógica individual do que sob lógica de grupo.
Partido se constrói com base, diálogo e respeito às lideranças municipais. Prefeitos, vereadores e coordenadores regionais são a espinha dorsal de qualquer projeto estadual. Sem essa estrutura, não há crescimento orgânico.
O que parte da base questiona é se há, de fato, valorização dessas lideranças ou se o protagonismo tem sido concentrado em decisões personalizadas. Na eleição municipal, por exemplo, o apoio enfático a determinados nomes — como Fred — foi visto por integrantes do grupo como movimento unilateral, não como construção coletiva.
Quando a estratégia parece partir de vontade individual e não de articulação partidária, o ruído interno cresce.
Partido não é extensão de mandato. É estrutura permanente.
A reflexão que circula é objetiva: o foco está na expansão do PL em Goiás ou na consolidação de protagonismo pessoal?
Em política, essa diferença define o tamanho do projeto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário