domingo, 8 de fevereiro de 2026

Governo de Goiás destina R$ 2,9 milhões ao Jornal Opção em publicidade oficial

Gastos elevados com veículo alvo de ações judiciais reacendem debate sobre uso político da verba pública e a fronteira entre publicidade institucional e alinhamento editorial

O Governo de Goiás destinou R$ 2.925.336,01 em recursos públicos ao Jornal Opção, segundo levantamento a partir de notas fiscais e demonstrativos de pagamentos oficiais. O montante, que se aproxima de R$ 3 milhões, chama atenção não apenas pelo valor absoluto, mas pelo contexto em que se insere: trata-se de um jornal semanal, de circulação regional, que mantém linha editorial reiteradamente alinhada ao Palácio das Esmeraldas.

Os dados analisados indicam que os pagamentos não ocorreram de forma pontual ou esporádica. Ao contrário, revelam fluxo recorrente de recursos, distribuídos em diversas notas fiscais, com valores individuais que, somados, alcançam cifra milionária. O volume coloca o veículo em posição de destaque entre os beneficiários da publicidade institucional estadual.

Judicialização e conflitos editorial


O mesmo veículo beneficiado pelos repasses públicos aparece como parte em múltiplas ações judiciais no Tribunal de Justiça de Goiás, por meio de sua razão social, Opção Notícias Ltda. Entre os processos, há ações em que o jornal figura como réu, inclusive movidas por figuras públicas diretamente atingidas por reportagens.


Um dos casos envolve o ex-governador Marconi Perillo, que acionou judicialmente a empresa. Há ainda outros processos em trâmite, alguns sob segredo de justiça, circunstância comum em ações que discutem honra, imagem e conteúdo jornalístico.

Outro caso envolve o senador Wilder Morais

Os alvos das noticiais falsas e plantadas são sempre adversários política do governo que já pagou quase três milhões ao jornal. 

A existência desse histórico processual, por si só, não configura condenação nem prova automática de irregularidade editorial. Mas derruba a narrativa de ausência de questionamentos jurídicos e reforça que o conteúdo publicado pelo jornal tem sido objeto recorrente de controvérsia judicial.

Publicidade institucional ou blindagem política?

A Constituição estabelece que a publicidade oficial deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social. O debate que se impõe, diante dos números, é se esse princípio está sendo respeitado quando grandes volumes de recursos públicos são direcionados a um veículo cuja atuação editorial coincide, de forma sistemática, com os interesses do governo estadual.

Não se trata de afirmar ilegalidade automática. Trata-se de questionar finalidade.

A combinação entre:

  • alto volume de verbas públicas,
  • alinhamento editorial constante,
  • ataques recorrentes a adversários políticos do governo,
  • e judicialização frequente por conteúdo publicado.

levanta dúvidas legítimas sobre se a publicidade institucional estaria sendo utilizada como instrumento indireto de sustentação narrativa e política, em vez de mera divulgação de atos administrativos.

Um debate que ultrapassa preferências ideológicas.

A discussão não é sobre gostar ou não do Jornal Opção, nem sobre afinidade política. O ponto central é transparência, proporcionalidade e finalidade do gasto público.

Quando quase R$ 3 milhões são direcionados a um único veículo de imprensa regional, o interesse público exige respostas claras:

  • quais critérios de distribuição foram adotados?
  • houve proporcionalidade em relação a outros veículos?
  • qual o retorno institucional efetivo dessas despesas?

São perguntas que não atacam a imprensa — protegem o dinheiro público.

Opinião

Não é papel do jornalismo silenciar diante de números incômodos. Tampouco é função da publicidade oficial se converter em escudo político informal. O gasto existe, é real, é documentado e é elevado. Ignorá-lo seria abdicar do dever básico de fiscalização.


Em tempos de discurso fácil sobre fake news, o dado concreto continua sendo o mesmo: R$ 2.925.336,01 saíram dos cofres públicos para um único jornal.

E isso, por si só, merece escrutínio — não aplauso automático, nem silêncio convenientemente.


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