segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Goiás volta a sentir o peso da violência enquanto o discurso oficial insiste em um estado “seguro”

O discurso de que Goiás é um dos estados mais seguros do país começa a esbarrar em um problema simples: os fatos.

O domingo recente, marcado por três homicídios em cidades do interior, não é apenas uma estatística isolada. É um sinal. Um sintoma. Um alerta. Os casos registrados em Bonfinópolis, Bom Jardim e Nerópolis, divulgados pelo portal Mais Goiás, mostram um cenário que começa a se repetir: mortes violentas, autores foragidos e sensação crescente de insegurança.


Quando três homicídios acontecem em municípios diferentes, no mesmo dia, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estrutural.

O contraste entre discurso e realidade

O governo sustenta a imagem de um estado controlado, com redução de índices e políticas de segurança bem-sucedidas. Mas a percepção social não se constrói apenas com números anuais — ela se forma na sequência dos fatos cotidianos.

E os fatos recentes falam alto:

  • execuções com múltiplos disparos
  • autores não localizados
  • ocorrências espalhadas pelo interior
  • vítimas jovens

Esse padrão não aponta para violência ocasional, mas para um ambiente onde o controle estatal começa a perder terreno para dinâmicas criminais mais ousadas e visíveis.

Interior deixou de ser “zona segura”

Historicamente, parte do discurso da segurança pública se apoiava na ideia de que a violência estava concentrada em grandes centros. Mas os registros recentes mostram outra coisa: o interior goiano deixou de ser reduto de tranquilidade.

Municípios médios e pequenos passaram a conviver com:

  • acertos de contas
  • homicídios com características de execução
  • crescimento de circulação de armas
  • expansão de organizações criminosas para fora das capitais

Isso muda o eixo da discussão. Não se trata apenas de policiamento urbano. Trata-se de inteligência, investigação e presença estatal efetiva fora dos polos tradicionais.

Violência não volta de um dia para o outro

Quando a violência “aparece” de forma mais frequente, normalmente ela já estava se reorganizando nos bastidores. O aumento de casos visíveis costuma ser o estágio seguinte de um processo silencioso:

  1. fortalecimento de grupos locais
  2. disputas territoriais
  3. circulação de armas ilegais
  4. sensação de impunidade

Se os autores seguem foragidos, a mensagem que circula nas ruas não é a de controle. É a de risco calculado.

O perigo do excesso de confiança institucional

Há um efeito colateral quando a narrativa oficial insiste em normalidade enquanto a população enxerga o contrário: descrédito.

Segurança pública não é só estatística, é percepção. E percepção se constrói com sensação de presença do Estado, respostas rápidas e elucidação de crimes.

Quando mortes se acumulam e a resposta demora, instala-se o sentimento de que algo está saindo do eixo.

A pergunta que precisa ser feita

Goiás é seguro nos relatórios ou na prática cotidiana?

Se o interior volta a registrar homicídios em sequência, se crimes violentos reaparecem com força e se a população começa a comentar a violência com mais frequência que a tranquilidade, o problema deixou de ser episódico.

A violência não “explode” de repente. Ela retorna quando encontra espaço.

E os sinais de que esse espaço está se abrindo começam a ficar visíveis demais para serem tratados como casos isolados.

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