segunda-feira, 28 de setembro de 2026

LULA PROÍBE AS BETS E COMPRA BRIGA MILIONÁRIA COM O FUTEBOL ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO

EDITORIAL | Decisão atinge uma das principais fontes de patrocínio dos grandes clubes brasileiros, provoca reação de dirigentes e torcedores e abre uma incógnita sobre seus efeitos nas urnas. Pesquisas indicam apoio popular à proibição, mas ainda não demonstram que esse apoio esteja se transformando em votos para Lula.

A poucos dias das eleições, o presidente Lula tomou uma decisão com potencial para ultrapassar a discussão sobre jogos de azar e entrar diretamente no universo do futebol: proibiu as bets no Brasil. A medida atinge um mercado que, nos últimos anos, tornou-se uma das maiores fontes de financiamento dos clubes brasileiros, especialmente por meio dos contratos de patrocínio máster. Flamengo, Corinthians, Palmeiras e vários outros integrantes da Série A possuem acordos milionários com empresas do setor.

A dimensão econômica ajuda a explicar a repercussão. Dos 20 clubes da Série A, 14 possuem patrocínio máster relacionado às casas de apostas, com contratos que, somados, chegam a aproximadamente R$ 910 milhões por ano. Portanto, quando o governo proíbe as bets, a consequência não fica restrita às empresas de apostas. Ela alcança diretamente o orçamento dos clubes, seus planejamentos financeiros e, inevitavelmente, milhões de torcedores.

É nesse ponto que uma decisão apresentada pelo governo como medida de proteção social passa a produzir também um problema político. Lula não está enfrentando apenas empresários do setor. Sua decisão interfere em uma estrutura econômica incorporada ao futebol brasileiro e atinge clubes capazes de mobilizar algumas das maiores torcidas do planeta. A questão, às vésperas das urnas, é saber até que ponto essa reação poderá influenciar o comportamento eleitoral.

Os primeiros dados recomendam cautela. Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg realizada antes da assinatura da medida apontou que 75% dos entrevistados defendiam a proibição das bets. Monitoramentos das redes sociais também identificaram predominância de manifestações favoráveis à restrição. Existe uma preocupação concreta de parte da sociedade com endividamento, compulsão e comprometimento da renda familiar provocado pelas apostas. Isso significa que seria um erro presumir que um flamenguista, corintiano ou palmeirense será contrário à decisão simplesmente porque seu clube recebe dinheiro de uma bet.

Por outro lado, existe um risco político que não pode ser desprezado. A discussão pode deixar de ser sobre os efeitos sociais das apostas e passar a ser percebida pelo torcedor como uma ameaça financeira ao seu clube. Se a narrativa de que “Lula tirou dinheiro do meu time” ganhar força, o governo terá pela frente uma comunicação muito mais difícil. Clubes, dirigentes, jogadores, influenciadores e páginas esportivas possuem uma capacidade gigantesca de mobilização nas redes sociais, principalmente em uma semana eleitoral.

As primeiras reações mostram justamente essa divisão. Há torcedores comemorando a proibição e criticando os próprios clubes pela dependência financeira das casas de apostas, enquanto outros responsabilizam Lula pelas possíveis perdas de receita. Surgiram inclusive manifestações individuais de eleitores dizendo que poderiam mudar o voto por causa da decisão. Essas declarações mostram que existe reação política, mas não permitem concluir que esteja ocorrendo uma transferência significativa de votos.

Outro dado ajuda a compreender o tamanho da incógnita. Levantamento da AP Exata, realizado depois da assinatura da medida e baseado em cerca de 180 mil menções no X e no Instagram, apontou que 68,2% das publicações sobre a proibição sequer mencionavam Lula. Apenas 18,6% relacionavam positivamente a medida ao presidente. O dado sugere que existe uma diferença importante entre aprovar a proibição das bets e transformar essa aprovação em apoio eleitoral ao responsável pela decisão.

É aí que aparece o maior risco político para Lula. Ele pode absorver o desgaste provocado entre os segmentos contrários à proibição sem necessariamente receber, na mesma intensidade, os dividendos eleitorais entre aqueles que concordam com ela. Em outras palavras, uma política pública pode ser amplamente aprovada e, ainda assim, produzir pouco efeito sobre a escolha do presidente.

Também chama atenção o momento escolhido. Uma medida com tamanho impacto econômico e social foi anunciada na reta final da eleição. O governo sustenta que a decisão responde à necessidade de proteger famílias atingidas pelos problemas relacionados às apostas. Os adversários políticos, por sua vez, questionam o momento da iniciativa. Independentemente dessas interpretações, a proximidade das urnas faz com que qualquer consequência política seja potencializada.

Será preciso observar principalmente as pesquisas realizadas integralmente depois da decisão. Mesmo assim, qualquer oscilação deve ser analisada com cuidado. Não será possível atribuir automaticamente uma eventual alta ou queda de Lula exclusivamente à proibição das bets, porque uma eleição presidencial é influenciada simultaneamente pela economia, debates, campanhas, acontecimentos políticos e pela própria dinâmica da reta final.

O fato objetivo é que Lula abriu uma frente de enorme repercussão justamente nos últimos dias da campanha. De um lado estão brasileiros preocupados com os efeitos sociais das apostas. Do outro, clubes que podem perder contratos milionários e torcedores preocupados com as consequências financeiras para seus times. No meio dessa disputa estão milhões de eleitores.

A grande questão, portanto, não é simplesmente saber se o brasileiro é contra ou a favor das bets. Os levantamentos disponíveis indicam que existe forte apoio à proibição. A pergunta eleitoral é outra: quantos brasileiros transformarão esse assunto em critério para decidir o voto no próximo domingo?

Essa resposta nenhuma pesquisa de redes sociais consegue oferecer definitivamente. Quem dará a resposta serão as urnas.

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