
A Operação Carbono Oculto, deflagrada em 28 de agosto de 2025 pela Receita Federal, pelo Ministério Público de São Paulo (Gaeco) e pela Polícia Federal, identificou fintechs e fundos administrados pela Reag em esquema de adulteração de combustíveis e ocultação patrimonial. De acordo com as autoridades, fundos da gestora movimentaram centenas de milhões com indícios de vínculo com o PCC. A ação alcançou cerca de 350 alvos em oito estados, inclusive Goiás. O esquema utilizava importação irregular de metanol, envolvia mais de mil postos e movimentou valor estimado em R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
A operação apontou redes de postos em Senador Canedo, Goiânia, Catalão, Jataí e outras cidades, além de usinas. A fintech BK Bank, descrita pelas investigações como “banco paralelo”, movimentou recursos do setor e recebeu cerca de R$ 1,36 bilhão da GoiásFomento em programas sociais entre 2021 e 2025 (segundo documento do Coaf divulgado pela Folha de S. Paulo), operando com “contas-bolsões” que dificultam o rastreamento. No mesmo período, o Banco Central apurou operações entre o Banco Master e fundos da Reag que somavam aproximadamente R$ 11,5 bilhões entre 2023 e 2024, com falhas graves de gestão de risco, crédito e liquidez. Investigados ligados às empresas Áster Petróleo e Copape aplicaram cerca de R$ 700 milhões em carteiras de consignado do Master por meio de fundos geridos pela Reag.
O fundador da Reag, João Carlos Mansur, tornou-se personagem central. Alvo de buscas nas duas frentes (Carbono Oculto e Compliance Zero), negociou acordo de delação premiada — assinado pela PGR e encaminhado ao STF para homologação — com foco nas operações do Master. O documento contém 17 anexos que detalham como os fundos teriam sido montados e aponta caminhos para a localização de cerca de R$ 20 bilhões em recursos associados a Daniel Vorcaro.
O quadro expõe fragilidades institucionais profundas. A supervisão do mercado de capitais não impediu o crescimento de estruturas que, segundo as apurações, serviram a interesses de um banco em crise e a fluxos sob suspeita de origem ilícita. O impacto potencial sobre o Fundo Garantidor de Créditos e a confiança no sistema financeiro eleva o episódio à condição de hecatombe regulatória.
Nesse diapasão, trata-se da demonstração de que o crime organizado encontrou caminhos sofisticados no coração do mercado formal, com desdobramentos que já alcançam o debate político e podem reverberar nas eleições de 2026.
As eventuais homologações de delações e os desdobramentos em curso — inclusive o arquivamento, pelo BC em setembro de 2026, do inquérito específico da liquidação da Reag e o levantamento da indisponibilidade de bens de controladores, sem prejuízo das demais investigações administrativas e criminais — poderão esclarecer a extensão real do dano. Até lá, resta uma evidência inconteste: a Reag não foi apenas cenário do escândalo Master. Foi o elo que o conectou a um problema muito maior — o crime organizado amalgamado à Faria Lima e ao centro institucional do Poder.
Enquanto a delação de João Carlos Mansur avança no STF — já com audiência de voluntariedade realizada e aguardando homologação pelo ministro André Mendonça —, o próprio Supremo se tornou palco de uma crise sem precedentes. Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, tornadas públicas, revelaram contatos e indícios de proximidade com ministros da Corte, gerando acusações mútuas em plenário, pedidos de suspeição, troca de relatorias e uma guerra interna que expõe, aos olhos da sociedade, a decadência moral e a fragilidade ética que corroem até as mais altas instâncias do Poder. O caso Master, nascido nas estruturas opacas da Faria Lima, agora contamina a própria credibilidade do Judiciário e eleva o escândalo à dimensão de um abalo institucional completo.
EDEMUNDO DIAS DE OLIVEIRA FILHO
Advogado. Especialista e mestre em Segurança Pública, Políticas Públicas e Direito Público.
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