Daniel Vilela tentou escapar do desgaste do primeiro debate ao Governo de Goiás. O resultado foi o inverso: deixou a cadeira vazia, entregou o palco aos adversários, não pôde responder aos ataques e ainda abriu uma perigosa discussão sobre sua disposição para enfrentar o contraditório.
Daniel Vilela conseguiu algo raro na política: sair como um dos grandes perdedores de um debate do qual nem sequer participou. Enquanto Marconi Perillo (PSDB), Wilder Morais (PL) e Luiz Cesar Bueno (PT) compareceram ao debate promovido pela TV Sucesso/Band neste domingo (9), Daniel optou pela ausência.
Pode ter sido cálculo eleitoral. Mas estratégia política não se mede pela intenção. Mede-se pelo resultado.E o resultado foi ruim para Daniel.
1 — ENTREGOU AOS ADVERSÁRIOS O DIREITO DE EXPLICAR SUA AUSÊNCIA
Esse talvez tenha sido o maior erro. Daniel poderia ter explicado pessoalmente por que decidiu não participar. Ausente, deixou que seus adversários construíssem a explicação por ele.
E Marconi ocupou o espaço. Chamou Daniel de “playboy mimado que nunca trabalhou na vida”, disse que ele recebeu “tudo de mão beijada” e acusou o adversário de ter dado “uma banana para o eleitor”. Daniel não estava lá para responder. Na política, quando você deixa um espaço vazio, alguém ocupa.
2 — TRANSFORMOU UMA CADEIRA VAZIA EM IMAGEM DE CAMPANHA
Política também é imagem. E poucas imagens são tão simples de explorar eleitoralmente quanto uma cadeira vazia enquanto os adversários debatem. No local, até os assentos identificados como “Convidados Daniel Vilela” e “Assessor Daniel Vilela” permaneceram vazios. É uma fotografia que dispensa grandes explicações: os outros foram. Daniel não.
Os adversários agora podem transformar essa ausência em símbolo e repetir a pergunta durante a campanha:
Por que Daniel não foi?
3 — PERDEU A OPORTUNIDADE DE DEFENDER O PRÓPRIO GOVERNO
Daniel não é um candidato desconhecido tentando entrar no debate público. Carrega a responsabilidade política de defender o grupo que governa Goiás. Era uma oportunidade para apresentar resultados, responder críticas e explicar o que pretende fazer nos próximos quatro anos.
Abriu mão dela. Enquanto os adversários tiveram espaço para apresentar suas versões sobre Goiás, Daniel deixou sua defesa nas mãos de terceiros.
Quem pretende governar precisa demonstrar capacidade para defender aquilo que fez e aquilo que pretende fazer.
4 — REFORÇOU JUSTAMENTE O ATAQUE QUE MAIS PRECISAVA COMBATER
Daniel enfrenta uma crítica recorrente dos adversários sobre sua trajetória profissional e política. Marconi foi diretamente nesse ponto ao chamá-lo de “playboy mimado” e afirmar que nunca trabalhou.
A melhor oportunidade para Daniel desmontar esse discurso seria estar diante do adversário, olhando para ele e respondendo.
Não estava. Consequentemente, o ataque foi lançado sem contraditório imediato. Isso não transforma a acusação em verdade. Mas permite que ela circule politicamente sem a resposta do principal interessado.
5 — DEIXOU MARCONI E WILDER OCUPAREM O PAPEL DE ADVERSÁRIOS DISPOSTOS AO CONFRONTO
Existe outro problema estratégico.
Marconi e Wilder não precisaram provar que estavam dispostos a enfrentar Daniel. Bastou comparecer.
A comparação ficou simples: enquanto seus principais adversários aceitaram perguntas, críticas e confronto ao vivo, Daniel decidiu não participar. Em uma campanha para governador, essa diferença de postura tem peso. O eleitor pode concordar ou discordar de Marconi, Wilder ou Luiz Cesar Bueno. Mas eles estavam lá.
6 — CRIOU UM PROBLEMA DE COERÊNCIA PARA RONALDO CAIADO
A ausência ainda respinga em Ronaldo Caiado.
Caiado já cobrou publicamente a participação de Lula em debates presidenciais e tratou o enfrentamento eleitoral como demonstração de coragem e respeito ao eleitor. Agora existe uma pergunta incômoda:
aquilo que Caiado cobra de Lula também vale para Daniel Vilela?
Se fugir de debate é condenável quando praticado pelo adversário nacional, não pode virar estratégia aceitável quando quem falta é o aliado em Goiás. Pau que dá em Chico tem que dar em Francisco.
7 — TRANSFORMOU SUA AUSÊNCIA NO ASSUNTO QUE QUERIA EVITAR
Aqui está a ironia maior. Se Daniel faltou para evitar exposição, conseguiu exatamente o contrário. Sua cadeira vazia chamou atenção. Sua ausência provocou ataques. Sua decisão virou notícia.
E, no lugar de discutir apenas propostas apresentadas pelos candidatos presentes, parte da repercussão passou justamente a discutir por que Daniel Vilela não estava lá. Ou seja: tentou evitar o debate e acabou sendo debatido.
O GRANDE PERDEDOR
É impossível saber quanto uma ausência isolada poderá representar nas urnas. Mas politicamente, naquele debate, Daniel entregou vantagens aos adversários sem receber praticamente nada em troca.
Não apresentou propostas.
Não respondeu aos ataques.
Não defendeu sua trajetória.
Não confrontou adversários.
Não defendeu o governo.
E ainda permitiu que uma cadeira vazia se transformasse em símbolo político. Marconi, Wilder e Luiz Cesar Bueno poderão ser avaliados pelo que disseram. Daniel será avaliado pelo que decidiu não dizer. Essa é a diferença.
Ele não perdeu porque alguém necessariamente debateu melhor. Perdeu porque decidiu não disputar.
E talvez essa tenha sido a pior escolha possível para um candidato que pretende convencer milhões de goianos de que está preparado para comandar Goiás.
No primeiro grande teste do confronto eleitoral, Daniel Vilela não foi derrotado por Marconi, Wilder ou Luiz Cesar Bueno. Foi derrotado pela própria ausência.

Nenhum comentário:
Postar um comentário