Wilder Morais admitiu que participava de seu primeiro debate e não escondeu que aquela não era sua especialidade. O problema não foi admitir a limitação. Foi entrar no principal confronto eleitoral até agora sem aparentemente estar treinado para uma regra elementar da televisão: em debate, tempo é patrimônio. E desperdiçá-lo pode significar desperdiçar a oportunidade de falar diretamente com milhares de eleitores.
O primeiro debate entre os candidatos ao Governo de Goiás, realizado neste domingo (9) pela TV Sucesso/Band, colocou candidatos frente a frente. Mas colocou também, ainda que indiretamente, os marqueteiros em confronto. E nesse segundo debate, travado nos bastidores, a preparação dos candidatos merece atenção.
Wilder Morais (PL) fez uma afirmação que, por si só, não deveria ser tratada como fraqueza. Disse que aquele era seu primeiro debate, que não era um especialista em debater e procurou destacar sua formação como engenheiro e sua preparação para administrar.
Até aí, uma estratégia defensável: reconhecer uma limitação de comunicação e tentar deslocar a discussão para capacidade de gestão.
O problema veio depois.
TRÊS MINUTOS. WILDER USOU METADE
Em uma das respostas, Wilder dispunha de aproximadamente três minutos. Terminou com cerca de metade do tempo utilizado.
Joel Datena chamou sua atenção para o tempo restante e ofereceu a possibilidade de continuar. Wilder preferiu encerrar. Em outro momento, situação semelhante voltou a ocorrer. Num debate eleitoral televisionado, isso é mais do que detalhe.
Tempo de televisão é oportunidade política.
Se existem 90 segundos disponíveis, são 90 segundos para apresentar uma proposta, citar um número, defender uma realização, responder uma crítica ou simplesmente permitir que o eleitor conheça melhor o candidato. Abrir mão desse tempo voluntariamente é abrir mão de exposição. E é justamente aqui que a discussão sai de Wilder e chega à sua equipe.
CADÊ O MEDIA TRAINING?
Marcelo Vitorino foi confirmado como responsável pela estratégia de comunicação da campanha de Wilder. O profissional possui quase duas décadas de atuação em comunicação e registra no próprio currículo participação em campanhas nacionais, estaduais e municipais. Justamente por isso surge a pergunta:
como um candidato que participaria de seu primeiro debate não chegou aparentemente condicionado a aproveitar integralmente seus tempos?
Não se trata de obrigar Wilder a falar por falar. Media training serve exatamente para evitar isso. Um candidato precisa entrar no estúdio sabendo que, se responder a questão principal em 90 segundos e ainda possuir outros 90, deve ter preparado um segundo bloco: proposta, comparação, dado, mensagem-chave ou prestação de contas. Isso se treina.
Cronômetro na mesa. Perguntas simuladas. Réplicas. Tréplicas. Ataques inesperados. Respostas de 30 segundos, um minuto, dois minutos e três minutos.
Se Wilder reconhecia previamente que debate não era seu terreno natural, a preparação deveria ter sido ainda maior — e não menor.
A RESPONSABILIDADE NÃO É APENAS DO CANDIDATO
É fácil assistir ao debate e concluir: “Wilder errou”. Errou. Mas existe uma equipe profissional justamente para reduzir os erros previsíveis de um candidato. O marqueteiro não sobe ao palco, mas sua preparação sobe. O roteiro sobe. As frases treinadas sobem. A estratégia sobe. E até a administração do relógio sobe.
Marcelo Vitorino deixou a estrutura de comunicação ligada à pré-campanha de Marconi e, semanas depois, foi confirmado na campanha de Wilder, assumindo justamente a área de estratégia, comunicação, imagem e posicionamento. Por isso, o desempenho televisivo de Wilder também coloca o trabalho de bastidores sob avaliação.
MARCONI MOSTROU OUTRO NÍVEL DE PREPARAÇÃO PARA O FORMATO
Do outro lado estava Marconi Perillo. E aí apareceu um contraste importante de preparação para o formato. Marconi naturalmente carrega uma vantagem que marqueteiro nenhum consegue fabricar: quatro mandatos como governador, passagem pelo Senado e pela Câmara dos Deputados e décadas de experiência em entrevistas, campanhas e confrontos políticos.
É um candidato acostumado ao debate. Mas experiência não significa que preparação seja dispensável. Pelo contrário.
À frente da estratégia de comunicação de Marconi está Lula Guimarães, um dos profissionais veteranos do marketing político nacional, contratado em julho justamente para comandar a comunicação da campanha tucana em Goiás. Guimarães traz no currículo campanhas presidenciais e disputas de grande exposição nacional. Foi responsável pela campanha que elegeu João Doria prefeito de São Paulo no primeiro turno em 2016 e posteriormente trabalhou nas campanhas presidenciais de Geraldo Alckmin e Soraya Thronicke, além de ter comandado a campanha de Guilherme Boulos à Prefeitura de São Paulo em 2024.
E é justamente aí que o primeiro debate permite uma comparação de preparação comunicacional, não de capacidade administrativa dos candidatos. Marconi demonstrou familiaridade com o relógio, com os momentos de ataque e resposta e com a necessidade de transformar cada oportunidade em mensagem política. Se, conforme a apuração do Blog, Lula Guimarães submeteu Marconi a media training e preparação específica ao longo do dia para o confronto, esse detalhe é ainda mais significativo.
Porque estamos falando de um político que já participou de inúmeros debates e poderia perfeitamente imaginar que sua experiência seria suficiente. Não imaginou. Treinou.
E aí está o contraste que coloca o trabalho dos marqueteiros sob os holofotes. De um lado, um candidato experiente que, ainda assim, chegou preparado especificamente para aquele debate. Do outro, Wilder Morais, que reconheceu diante das câmeras estar participando de seu primeiro debate e acabou desperdiçando parte de um dos ativos mais valiosos que possuía naquela noite: tempo de televisão.
VITORINO SAIU DE MARCONI; GUIMARÃES ENTROU
Existe ainda um ingrediente político particularmente interessante nessa história. Antes de Lula Guimarães assumir a estratégia de comunicação de Marconi, Marcelo Vitorino havia integrado a estrutura da pré-campanha tucana. Sua saída ocorreu em meio a divergências relacionadas ao planejamento da comunicação. Depois, Vitorino passou para o projeto eleitoral de Wilder, enquanto Marconi fechou com Lula Guimarães. O primeiro debate, portanto, colocou indiretamente os dois modelos de preparação diante das câmeras.
Não é possível atribuir todo o desempenho de um candidato ao marqueteiro — seria simplista. Mas preparação para televisão, administração de tempo, definição de mensagens-chave e treinamento para situações previsíveis fazem parte justamente do território profissional da comunicação eleitoral.
Por isso, quando Wilder abre mão voluntariamente de tempo em seu primeiro debate, a pergunta não deve ser dirigida somente a ele. Onde estava a preparação? E quando um político com décadas de experiência como Marconi ainda assim passa por treinamento específico antes de entrar no estúdio, o contraste torna-se ainda mais difícil de ignorar.
Wilder avisou que não sabia debater. Sua equipe sabia que aquele seria seu primeiro debate. Portanto, a pergunta continua de pé: se a limitação era conhecida, por que ela não foi melhor trabalhada antes de as câmeras serem ligadas?
Em resumo, este primeiro debate serviu pra mostrar que Marconi acertou em trocar Marcelo Vitorino por Lula Guimarães, enquanto Wilder, errou em contratar Marcelo Vitorino.

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