quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Jorge e Matheus Gravam Música em Homenagem ao Cão Orelha

Canção, comoção e barbárie: morte do cão “Orelha” expõe o abismo entre afeto social e violência banalizada

Homenagem musical da dupla Jorge & Mateus transforma dor coletiva em símbolo nacional, enquanto o crime ocorrido em Florianópolis levanta questionamentos sobre responsabilidade, impunidade e o tipo de sociedade que estamos formando.

O Brasil se emocionou. Mas antes da música, veio a brutalidade.

A história do cão comunitário conhecido como “Orelha”, figura afetiva da Praia Brava, em Florianópolis, escancarou uma contradição cada vez mais perturbadora: vivemos numa sociedade capaz de amar um animal como membro do bairro — e, ao mesmo tempo, produzir jovens que o atacam com violência.

Segundo informações atribuídas à investigação da Polícia Civil de Santa Catarina, o animal foi encontrado gravemente ferido na madrugada de 4 de janeiro de 2026, após ter sido atacado por um grupo de adolescentes. Não estamos falando de um “incidente”. Estamos diante de um ato de crueldade que ultrapassa o campo penal e invade o campo moral e social.

Orelha não era um cão qualquer. Vivia há cerca de uma década entre moradores, comerciantes e turistas. Era alimentado, cuidado, reconhecido. Um animal comunitário, desses que viram ponto de referência emocional de um lugar. A música lançada por Jorge & Mateus não nasce do marketing: nasce da comoção real de uma comunidade que perdeu um símbolo de afeto cotidiano.

A letra, que circula nas redes, retrata exatamente isso — o cão “de porta em porta”, amigo de todos, presença constante, memória viva da praia. A canção virou homenagem, mas também virou protesto silencioso. Porque por trás da melodia há uma pergunta incômoda: como jovens chegam a esse ponto?

A violência contra animais é frequentemente tratada como “menor”, como se fosse um degrau inferior na escala da gravidade social. Não é. Estudos em criminologia e psicologia comportamental há décadas apontam que a crueldade contra animais é um marcador relevante de desvio grave de empatia. Quando um grupo agride até a morte um ser indefeso que era conhecido e querido pela comunidade, não é apenas o animal que é atingido — é o pacto civilizatório.

O caso também expõe um dilema jurídico delicado: adolescentes envolvidos, como responsabilizar sem cair na impunidade disfarçada de proteção? O Estatuto da Criança e do Adolescente não foi criado para blindar brutalidade, mas para educar e responsabilizar de forma adequada. A pergunta é se o sistema tem estrutura e firmeza para lidar com isso ou se mais um caso será absorvido pelo esquecimento burocrático.

A música de Jorge & Mateus eterniza Orelha. Mas a arte não pode virar anestesia social. Homenagear é necessário. Investigar, responsabilizar e refletir sobre o tipo de violência que estamos normalizando é urgente.

Quando um bairro inteiro chora um cachorro, não é só sobre um animal. É sobre humanidade. E talvez o que mais dói nessa história seja a suspeita de que alguns humanos já tenham perdido a própria.

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