Há tragédias que não cabem na política. E há silêncios que falam mais alto do que qualquer discurso oficial. A manifestação do prefeito de Itumbiara, Dione Araújo, após a morte brutal dos netos Miguel e Benício, não foi um ato institucional. Foi um desabafo humano diante do insuportável.
Mais de uma semana depois do crime que chocou Goiás e repercutiu nacionalmente, o prefeito rompeu o silêncio não como chefe do Executivo, mas como avô. E isso precisa ser dito com clareza: ele não falou sobre investigação, não comentou desdobramentos policiais, não fez qualquer construção narrativa. Limitou-se à dor.
Num ambiente onde redes sociais transformam luto em espetáculo e tragédia em disputa de versões, a escolha pelo recolhimento e pela fé é, ao mesmo tempo, compreensível e estratégica. Compreensível porque ninguém reage racionalmente à perda de duas crianças da própria família. Estratégica porque qualquer palavra fora do campo emocional poderia ser distorcida, explorada ou politizada.
O caso envolve menores de idade, violência extrema e circunstâncias que seguem sob apuração. O Estatuto da Criança e do Adolescente impõe limites à divulgação de detalhes, e o segredo de justiça, quando aplicado, existe justamente para proteger vítimas, familiares e a integridade da investigação. Não se trata de blindagem política — trata-se de protocolo legal.
Mas há um ponto que precisa ser enfrentado: quando a tragédia atinge diretamente o núcleo familiar de um prefeito, o impacto institucional é inevitável. A cidade observa. A oposição observa. A imprensa observa. E o silêncio, nesse cenário, vira campo de disputa simbólica.
Até aqui, o prefeito optou por não misturar dor com cargo. Não convocou coletiva. Não buscou capital político da comoção. Não transformou a tragédia em discurso. Isso, no ambiente tóxico da política contemporânea, já é um dado relevante.
O que se espera agora é que a investigação avance com rigor técnico, sem contaminação emocional e sem exploração sensacionalista. A dor da família é privada. A apuração dos fatos é dever do Estado.
E é justamente aí que reside a linha que não pode ser ultrapassada: solidariedade não pode virar blindagem; indignação não pode virar espetáculo; silêncio não pode virar teoria conspiratória.
Itumbiara vive um momento de luto. E o luto não pode ser sequestrado nem pela política nem pelo oportunismo digital.
Há hora de falar. E há hora de respeitar o silêncio.
Agora é hora de respeito.
Veja a mensagem
dionedafamoveis Quero agradecer, de coração, por cada mensagem, cada abraço, cada palavra de apoio, carinho e solidariedade que nossa família recebeu neste momento de dor tão imensa, de recolhimento e reflexão.
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