Banco Master e o Projeto DV: quando milhões tentam comprar a narrativa e intimidar as instituições
Contratos de até R$ 2 milhões, acordos de silêncio e influenciadores como linha auxiliar contra o Banco Central
A revelação feita pela jornalista Malu Gaspar expõe algo que vai muito além de uma simples estratégia de comunicação: trata-se de uma tentativa organizada de interferência narrativa em um processo regulatório do sistema financeiro brasileiro. No centro do caso está o Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, e uma operação batizada internamente de “Projeto DV”.
O nome não é detalhe. Ele revela personalização, comando e propósito.
🧠 Como funcionava a operação
- 📌 O plano recebeu o nome interno de “Projeto DV”, referência direta às iniciais de Daniel Vorcaro
- 📄 Influenciadores recebiam acordo de confidencialidade (NDA)
- 🎬 A entrega exigida era de 8 vídeos por mês, durante 3 meses
- 💰 Valores:
- Até R$ 2 milhões para grandes perfis
- Montantes menores para influenciadores médios
Mais grave: os conteúdos não eram livres. Havia roteiro pré-definido, com orientações explícitas:
- Defender o TCU
- Lançar suspeitas sobre a legalidade e a motivação do Banco Central
- Tratar a liquidação como ato político ou abusivo
Segundo as reportagens mais recentes que investigam o caso Banco Master, as propostas milionárias a influenciadores foram feitas por uma agência descrita como Agência Mithi, registrada também como Miranda Comunicação. Os dados da reportagem indicam que:
- A agência foi liderada por Thiago Miranda, que já foi CEO e sócio do grupo ligado ao jornalista Léo Dias, embora Léo Dias tenha negado qualquer vínculo atual com a agência ou com o portal que leva seu nome.
- Um dos sócios majoritários apontados na agência é Flávio Carneiro, com cerca de 60% das cotas, e Thiago Miranda com o restante (ou participação relevante), conforme reportagem de veículos que citam registros e transferências bancárias.
O método: dinheiro, silêncio e roteiro
De acordo com a apuração, influenciadores digitais receberam propostas que podiam chegar a R$ 2 milhões por apenas três meses de trabalho. Em troca, deveriam produzir oito vídeos mensais, seguindo orientações prévias e um discurso cuidadosamente encomendado.
Não era opinião.
Não era espontâneo.
Não era debate livre.
Os contratos vinham acompanhados de acordos de confidencialidade (NDAs) e de um briefing claro:
- Defender o Tribunal de Contas da União como possível freio à liquidação do banco
- Lançar suspeitas sobre a atuação do Banco Central do Brasil
- Sugerir abuso, motivação política ou erro técnico na decisão regulatória
Alguns influenciadores, segundo Malu Gaspar, recusaram o acordo, exatamente por perceberem o risco jurídico e reputacional. Outros, tudo indica, não acharam problema em transformar audiência em instrumento de pressão institucional.
Quando marketing vira ataque ao Estado
É aqui que o caso deixa de ser curioso e se torna grave.
O Banco Central não é um concorrente de mercado.
O TCU não é um aliado político.
Liquidação bancária não é pauta ideológica.
Trata-se de uma decisão técnica, com impacto sistêmico, envolvendo risco financeiro, depositantes, credibilidade regulatória e estabilidade do mercado. Tentar deslegitimar o regulador por meio de campanhas digitais pagas é flertar com algo perigoso: a corrosão deliberada da confiança pública nas instituições.
Não é “defesa de imagem”.
É guerra de narrativa.
A engenharia da desinformação de luxo
O caso escancara um fenômeno moderno e ainda pouco enfrentado no Brasil:
👉 o lobby digital milionário travestido de engajamento orgânico.
Quando:
- O discurso vem pronto
- O silêncio é comprado
- O influenciador vira vetor político
- E o alvo é uma autarquia de Estado
Estamos diante de desinformação premium, financiada, roteirizada e estrategicamente distribuída.
E a pergunta que fica é incômoda:
quantas decisões públicas hoje enfrentam campanhas desse tipo sem que o cidadão perceba?
O silêncio que também fala
Até aqui, o que mais chama atenção não é apenas a existência do “Projeto DV”, mas o silêncio institucional em torno desse tipo de prática.
Não se trata de censurar influenciadores. Trata-se de responsabilizar quem tenta manipular o debate público para pressionar decisões técnicas.
Se um banco em liquidação pode mobilizar milhões para atacar o regulador, qual o limite?
Opinião
O caso Banco Master não é apenas sobre um banco, um banqueiro ou influenciadores. É sobre até onde o poder econômico está disposto a ir para reescrever a realidade quando a lei bate à porta.
Quando a narrativa vira mercadoria e a verdade vira obstáculo, o risco não é só financeiro.
É institucional.
É democrático.
É sistêmico.
E isso, definitivamente, não pode ser tratado como marketing.

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