Inquérito revela uso de terras como garantia em dívidas impagáveis; produtores e dirigentes podem enfrentar até 30 anos de prisão
O interior de Goiás voltou a ser palco de um escândalo financeiro de grandes proporções. O agropecuarista Thiago da Matta Fagundes, preso desde outubro de 2024, e uma diretora operacional do Sicoob Unicentro Norte Brasileiro, além de familiares e sócios, foram indiciados por crimes que vão do estelionato à organização criminosa, passando por lavagem de dinheiro, fraude processual e falsificação de documentos.
Segundo o Inquérito Policial nº 269/2023, conduzido pela 4ª Delegacia Distrital de Polícia Civil de Goiânia, Thiago negociava glebas de terra já comprometidas por dívidas milionárias, utilizando os mesmos imóveis como garantia em operações financeiras com o Sicoob. Ou seja, vendia terras comprometidas, recebia recursos de empresários de boa-fé e, paralelamente, renegociava os débitos diretamente com a cooperativa, deixando os compradores em situação de prejuízo iminente.
O início da investigação
A apuração começou em dezembro de 2023, após denúncia do empresário que comprou a Fazenda Cana Brava, em Porangatu — área de 1.209 hectares avaliada em R$ 34 milhões. O acordo previa que parte do valor pago (cerca de R$ 6,9 milhões transferidos em junho de 2023) seria utilizado para amortizar dívida de Thiago com o Sicoob, avaliada em aproximadamente R$ 9 milhões. Contudo, o que se descobriu foi que o produtor rural renegociou a pendência com a própria cooperativa, sem cumprir o acerto firmado em contrato de compra e venda.
O silêncio da defesa e a omissão institucional
A defesa de Thiago afirmou que só irá se manifestar após a conclusão do inquérito, buscando preservar a lisura do processo. Já o Sicoob Unicentro Norte, peça central desse emaranhado de negócios suspeitos, mantém silêncio absoluto. Essa postura, no entanto, só amplia as desconfianças sobre a conivência de dirigentes que deveriam zelar pela saúde financeira da instituição, mas acabaram mergulhados em denúncias que comprometem a credibilidade do sistema cooperativo.
A ponta de um iceberg
O caso levanta questões graves: quantos outros produtores, empresários e cooperados podem ter sido lesados por operações semelhantes? O que deveria ser uma rede de apoio ao desenvolvimento rural transforma-se em um instrumento de manipulação financeira, onde a confiança do cooperado é corroída pelo conluio entre dirigentes e grandes devedores.
Se confirmadas as acusações, os envolvidos podem enfrentar até 30 anos de prisão, mas a sentença, por si só, não será suficiente para reparar os danos econômicos e institucionais. O episódio expõe uma ferida profunda: a fragilidade dos mecanismos de controle do Sicoob e a vulnerabilidade de todo o sistema cooperativo brasileiro quando submetido a práticas criminosas.

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