Pacientes denunciam escassez de remédios básicos em hospitais e postos de saúde enquanto o Estado bate recordes de arrecadação e investimentos milionários em propaganda e infraestrutura. Onde está a prioridade?
A cena se repete em diferentes cidades de Goiás: postos de saúde sem dipirona, unidades hospitalares desabastecidas de antibióticos simples, pacientes obrigados a comprar com recursos próprios medicamentos que deveriam receber de forma gratuita.
Em Goiânia, Anápolis, Aparecida, Rio Verde e no entorno do Distrito Federal, relatos se multiplicam em redes sociais, programas de rádio e denúncias ao Ministério Público. Enquanto isso, o Governo de Goiás anuncia investimentos recordes em obras, propaganda institucional e contratos milionários com OSs (Organizações Sociais).
A pergunta que ecoa entre os corredores dos hospitais e nas filas dos PSFs é: por que falta remédio se não falta dinheiro?
📉 O retrato do desabastecimento
De acordo com levantamento feito pelo MaisBR News com base em dados da própria SES-GO (Secretaria de Estado da Saúde), 31% dos medicamentos essenciais estavam em falta no estoque central no mês de junho.
Entre os itens mais escassos estão:
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Dipirona injetável
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Amoxicilina
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Insulina NPH
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Soro fisiológico
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Metformina
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Ácido fólico e vitaminas para gestantes
“Tive que comprar três caixas de antibiótico para meu filho em farmácia particular. O médico me disse que o hospital não tem previsão de entrega”, relata Raimunda Alves, mãe de um paciente atendido no HUGO.
💰 Mas o dinheiro está disponível
Enquanto os hospitais lidam com escassez, os números da Lei Orçamentária Anual de Goiás 2025 mostram outra realidade: o orçamento da saúde ultrapassa os R$ 7,8 bilhões, o maior da história do estado.
Além disso, o governo goiano bateu recordes de arrecadação no primeiro semestre, com superávit fiscal e aumento de repasses federais para custeio da saúde, especialmente por meio do novo piso da enfermagem e do Programa SUS Forte.
“O dinheiro existe. O que falta é prioridade e gestão”, afirma um auditor do TCE-GO sob condição de anonimato.
🧮 Onde está o problema?
Especialistas apontam três gargalos principais que explicam o paradoxo:
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Gestão fragmentada por OSs – As Organizações Sociais que administram hospitais estaduais muitas vezes não seguem o cronograma centralizado de compras. Isso gera falhas de abastecimento e falta de padronização.
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Burocracia nas licitações – Atrasos em processos licitatórios e exigências excessivas travam a aquisição de remédios simples. Em alguns casos, pregões são anulados por falta de interessados ou recursos jurídicos.
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Prioridade política invertida – Enquanto a saúde sofre com desabastecimento, o governo investe pesado em obras com visibilidade política e campanhas publicitárias que custaram mais de R$ 24 milhões apenas em 2025.
🗣️ Vozes da saúde
“Como profissional, é revoltante ver o paciente sem o mínimo e saber que o Estado tem dinheiro em caixa. Estamos pedindo doações de soro e analgésico em grupos de bairro”, denuncia um enfermeiro da rede estadual.
“Esse é um governo que prefere aparecer em outdoor a investir na farmácia do hospital”, critica o deputado estadual Carlos Vieira (PSB).
🧭 Análise política: gestão técnica ou marketing de governo?
O governador Ronaldo Caiado, médico de formação, sempre defendeu a bandeira da saúde pública eficiente. No entanto, na reta final de seu segundo mandato, aumentam as críticas de que sua gestão teria se rendido ao marketing político, à terceirização excessiva e à priorização de obras com retorno eleitoral.
“Estamos vendo uma saúde esvaziada de estrutura, mas com excesso de discursos”, analisa a cientista política Lívia Borges.
📌 Conclusão
Enquanto isso, a pergunta segue ecoando nas farmácias públicas e nos corredores lotados:
Cadê o remédio, governador?

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