quinta-feira, 15 de outubro de 2026

JOÃO BOSCO LUZ COMANDAVA O JURÍDICO DO GOIÁS QUANDO A DÍVIDA DA JF SPORTS FOI RENEGOCIADA: O QUE ELE SABIA E QUAL FOI SUA PARTICIPAÇÃO?

Documentos judiciais e demonstrações contábeis reabrem questionamentos sobre a atuação do advogado que, antes de presidir o Goiás Esporte Clube, integrou sua estrutura jurídica durante a renegociação de uma dívida milionária. Operação de R$ 3 milhões acabou vinculada a 50% da transferência do atacante Welliton para o futebol russo. A investigação procura esclarecer quem elaborou, examinou e autorizou os instrumentos contratuais.

A história de uma das mais controversas operações financeiras do Goiás Esporte Clube ainda guarda perguntas que não foram satisfatoriamente respondidas. No centro dessa investigação está o advogado João Bosco Luz de Morais, profissional que durante anos exerceu funções jurídicas no clube esmeraldino e posteriormente chegou à presidência executiva da instituição. Sua trajetória coincide com acontecimentos decisivos de uma disputa envolvendo a empresa JF Esportes Ltda., contratos de empréstimos, uma confissão de dívida milionária e a negociação internacional do atacante Welliton Soares de Morais.

A questão que agora se apresenta não é simplesmente saber quem assinou os documentos. É identificar quem participou de sua elaboração, quem examinou as obrigações assumidas, quais pareceres foram emitidos e que conhecimento tinha a estrutura jurídica do Goiás sobre as consequências financeiras de uma negociação que acabaria provocando uma longa batalha judicial.

João Bosco foi eleito presidente do Goiás para o biênio 2012–2013. Na ocasião, reportagem publicada pelo UOL registrou que o advogado havia defendido causas do clube entre 1996 e 2009. Portanto, sua atuação jurídica abrangia o período da renegociação realizada em janeiro de 2007.

A origem da dívida e a operação envolvendo Welliton

A relação financeira entre Goiás e JF Esportes começou antes da transferência do atacante para a Rússia. Conforme os documentos reproduzidos em reportagens anteriores do Blog do Cleuber Carlos, a empresa realizou operações de empréstimo ao clube durante a administração de Raimundo Joaquim Queiroz, mediante instrumentos particulares de mútuo.

Esses contratos deram origem a obrigações financeiras que, posteriormente, foram consolidadas em um instrumento assinado em 8 de janeiro de 2007. O documento reconhecia uma dívida de aproximadamente R$ 3.004.700,80 e estabelecia uma modalidade de pagamento vinculada à futura negociação do atacante Welliton.

O aspecto extraordinário dessa operação estava justamente na garantia econômica: a JF Esportes passaria a reivindicar 50% do valor da transferência do jogador, conforme os termos da renegociação.

Quando Welliton foi negociado com o Spartak Moscou, a operação foi descrita nos autos judiciais como uma transferência de aproximadamente R$ 21,04 milhões. Metade desse montante corresponderia a R$ 10,52 milhões, valor muito superior ao saldo consolidado na confissão de dívida de 2007.

Essa diferença constitui um dos elementos centrais da controvérsia. O Goiás questionou judicialmente a validade dos instrumentos, enquanto a JF Esportes sustentou que a participação no resultado da negociação havia sido livremente contratada.

O jurídico do Goiás e a responsabilidade pela análise dos contratos

É nesse ponto que surge a necessidade de esclarecer a participação de João Bosco Luz.

A existência de uma estrutura jurídica no clube durante a assinatura de uma confissão de dívida dessa natureza suscita perguntas administrativas relevantes. Uma obrigação inicialmente vinculada a empréstimos financeiros foi transformada em compromisso associado à valorização futura de um atleta profissional. Tratava-se de operação com consequências potencialmente expressivas para o patrimônio do Goiás.

Quem examinou a legalidade da operação? Houve parecer jurídico recomendando sua celebração? O departamento jurídico participou das negociações? A diretoria recebeu orientação formal sobre os riscos de vincular metade da receita futura de um jogador a uma dívida anteriormente constituída?

Essas perguntas não representam, por si, acusações contra João Bosco. São questões de interesse público e institucional, sobretudo diante do cargo que ocupava e da dimensão financeira da negociação.

Os documentos examinados até aqui não demonstram que ele tenha assinado pessoalmente a confissão de dívida de 8 de janeiro de 2007. A documentação histórica identifica Raimundo Queiroz como representante do Goiás nos contratos de empréstimo, ao lado de outros participantes e testemunhas.

Mas a ausência de assinatura não esclarece, por completo, se houve participação na análise jurídica, na preparação dos documentos ou nas discussões que antecederam a formalização da operação.

A dívida continuou nos balanços quando João Bosco chegou à presidência

A investigação ganha uma dimensão ainda mais relevante quando se examinam as demonstrações contábeis do Goiás relativas ao exercício de 2012, período em que João Bosco já exercia a presidência executiva.

O balanço, publicado pelo próprio clube e acompanhado de relatório de auditores independentes, registra na rubrica Títulos a Pagar o montante de R$ 3.145.309,00, tanto em 2011 quanto em 2012.

A nota explicativa nº 16 identifica expressamente a origem da obrigação: instrumentos particulares de mútuo firmados com a JF Esportes durante a administração de 2003/2004. O documento informa que os valores e as condições contratuais estavam sendo contestados judicialmente desde 2009.

Mais significativo ainda é o relatório dos auditores independentes, emitido em 25 de abril de 2013. Os profissionais registraram ressalva relacionada à disputa com a JF Esportes, informando que não podiam determinar os eventuais impactos financeiros decorrentes do desfecho da causa.

O documento contém a identificação de João Bosco Luz de Morais como presidente executivo, ao lado do vice-presidente e diretor financeiro Adriano Rodrigues de Oliveira e do contador Francinaldo Nunes da Silva.

Esse registro permite estabelecer um fato objetivo: a controvérsia financeira com a JF Esportes permanecia formalmente reconhecida nas demonstrações contábeis durante a administração de João Bosco, embora o Goiás contestasse a exigibilidade da obrigação.

Surge, portanto, uma segunda linha de questionamento. Além de esclarecer sua atuação jurídica em 2007, é necessário compreender quais providências João Bosco adotou, já como presidente, diante de uma disputa que envolvia valores potencialmente superiores aos contabilizados.

A batalha judicial e a sentença posteriormente cassada

A controvérsia chegou à Justiça e produziu decisões de grande repercussão.

Em maio de 2014, uma sentença de primeira instância acolheu a posição da JF Esportes em relação à validade dos contratos discutidos e impôs consequências financeiras ao Goiás, incluindo multa por litigância de má-fé e honorários advocatícios.

O magistrado considerou, naquele julgamento, que os empréstimos haviam sido efetivamente recebidos pelo clube e que a renegociação vinculada à transferência de Welliton deveria produzir efeitos.

Entretanto, essa decisão foi posteriormente cassada, em 2015, no julgamento de recurso relacionado à controvérsia. A cassação impede que aquela sentença seja tratada como pronunciamento judicial definitivo sobre a validade dos contratos ou sobre eventual má-fé do Goiás.

O processo nº 229582-96.2011.8.09.0051 integra esse histórico, mas o resultado definitivo e a situação processual atual ainda precisam ser confirmados por certidão ou consulta atualizada aos autos do Tribunal de Justiça de Goiás.

A complexidade da disputa torna ainda mais relevante a identificação dos responsáveis pelas decisões administrativas e jurídicas adotadas ao longo dos anos.

O que João Bosco precisa esclarecer

A investigação do Blog do Cleuber Carlos identifica dois momentos distintos da atuação do advogado.

O primeiro corresponde ao período em que integrava a estrutura jurídica do Goiás, quando foi formalizada a renegociação de janeiro de 2007. O segundo envolve sua gestão como presidente executivo, quando a dívida continuava registrada no balanço e era objeto de contestação judicial.

No primeiro momento, é necessário identificar se João Bosco teve acesso à minuta contratual, se participou das reuniões, se emitiu pareceres e se recomendou alguma alteração nas condições da operação.

No segundo, é preciso esclarecer quais informações recebeu sobre a dívida, quais orientações foram transmitidas aos advogados responsáveis pelos processos e quais medidas foram adotadas para proteger os interesses patrimoniais do clube.

Há também uma questão de transparência: os associados e conselheiros do Goiás tiveram conhecimento integral das condições pactuadas com a JF Esportes e dos riscos financeiros decorrentes da disputa?

A resposta exige documentos, atas, pareceres e registros administrativos. Não pode ser construída apenas com base nos cargos ocupados.

O direito de resposta e a necessidade de documentação

Em manifestação anteriormente atribuída a João Bosco Luz e relatada à investigação, o advogado teria negado participação pessoal na elaboração e assinatura da confissão de dívida, indicando Raimundo Queiroz como responsável pela assinatura do instrumento.

Essa versão precisa ser considerada na apuração. A reportagem não dispõe, nesta etapa, de documento que comprove que João Bosco tenha elaborado, autorizado pessoalmente ou assinado a renegociação de 2007.

Também não foi localizada, nesta consulta, manifestação atualizada do advogado sobre os questionamentos específicos apresentados nesta matéria.

O Blog do Cleuber Carlos considera indispensável que João Bosco tenha oportunidade de esclarecer sua atuação, apresentar documentos e indicar eventuais pareceres que possam estabelecer os limites de sua responsabilidade funcional.

Uma história que exige respostas

O caso JF Esportes ultrapassa a discussão sobre uma dívida antiga. Ele envolve a administração de recursos de uma instituição esportiva, a utilização de receitas futuras de transferência de atletas como instrumento de negociação e as responsabilidades dos profissionais encarregados de orientar juridicamente seus dirigentes.

Os documentos já examinados demonstram a existência dos empréstimos contabilizados, da renegociação de 2007, da controvérsia envolvendo a transferência de Welliton e da permanência da obrigação nos balanços durante a presidência de João Bosco Luz.

O que ainda precisa ser demonstrado é a extensão da participação pessoal do advogado nas decisões que deram origem à disputa.

João Bosco Luz esteve ligado à estrutura jurídica do Goiás no período da renegociação e, anos depois, presidiu o clube enquanto a dívida continuava sob contestação judicial. São dois fatos relevantes, mas que não constituem, isoladamente, prova de irregularidade ou responsabilidade pessoal.

O interesse público está justamente em esclarecer o que aconteceu entre esses dois momentos.

Afinal, quem orientou juridicamente a operação que vinculou uma dívida de aproximadamente R$ 3 milhões a metade da receita de transferência de um jogador posteriormente negociado por mais de R$ 21 milhões?

E qual foi, efetivamente, a participação de João Bosco Luz nessa história?

São perguntas que continuam exigindo respostas documentadas.

BLOG DO CLEUBER CARLOS — JORNALISMO INVESTIGATIVO

Nota de apuração: a reportagem foi construída com base em documentos contábeis publicados pelo Goiás, registros judiciais históricos e reportagens anteriores. Não foi possível confirmar nesta pesquisa o andamento processual definitivo até 15 de outubro de 2026 nem obter uma nova manifestação de João Bosco Luz. Esses pontos permanecem sujeitos à atualização.


quarta-feira, 14 de outubro de 2026

JHC ENFRENTA PRIMEIRO DESAFIO: A DISPUTA PELO COMANDO DA ASSEMBLEIA DE ALAGOAS

A eleição de JHC para governador de Alagoas abriu uma nova etapa na política estadual. Mas vencer nas urnas e conquistar condições para governar são desafios diferentes. Antes mesmo de assumir o Palácio República dos Palmares, o governador eleito terá pela frente uma disputa estratégica: a escolha do próximo presidente da Assembleia Legislativa.

O nome do deputado eleito Tenorinho Malta surgiu nos bastidores como possível líder do governo e até candidato à presidência da Casa, segundo Berg Morais Política. A movimentação colocaria JHC diante da influência de Marcelo Victor, atual presidente do Legislativo.

Entretanto, o cenário apresenta obstáculos. Segundo o portal CadaMinuto, o grupo de Marcelo Victor já reuniria 21 dos 27 deputados eleitos, tendo Ricardo Nezinho como nome preferido para comandar a Assembleia. Os números representam articulações de bastidores, não compromissos oficialmente confirmados.

A situação ganha importância porque o presidente da Assembleia controla a pauta legislativa, conduz votações e exerce influência sobre decisões fundamentais para o Executivo. Sem diálogo com o Parlamento, qualquer governador enfrenta dificuldades para aprovar projetos e consolidar sua base política.

JHC terá de negociar com deputados que possuem mandatos próprios, compromissos partidários e interesses distintos. A eventual candidatura de Tenorinho Malta representaria uma alternativa política, mas dependeria da construção de apoios dentro da Casa.

A eleição da Mesa Diretora está prevista para 1º de fevereiro de 2027. Até lá, as articulações deverão revelar como será construída a relação entre o novo governo e o Legislativo.

JHC conquistou o governo nas urnas. Agora enfrentará o desafio de construir sua sustentação parlamentar diante de um grupo político consolidado. O comando da Assembleia será uma peça central nessa negociação.

BLOG DO CLEUBER CARLOS — ANÁLISE POLÍTICA


A PRIMEIRA MISSÃO POLÍTICA DE JHC COMO GOVERNADOR ELEITO É A DISPUTA PELO COMANDO DA ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DE ALAGOAS

Antes mesmo de assumir o Palácio República dos Palmares, JHC se depara com uma decisão que poderá definir sua relação com o Legislativo durante os próximos quatro anos. A possível candidatura de Tenorinho Malta à presidência da Assembleia coloca em discussão a influência de Marcelo Victor e a formação de uma nova correlação de forças na política alagoana.

A eleição de João Henrique Caldas, o JHC, para o governo de Alagoas abriu uma nova etapa na política estadual. Mas conquistar o Palácio República dos Palmares e construir as condições políticas para governar são desafios diferentes. O primeiro foi decidido nas urnas. O segundo começa agora, nos bastidores da Assembleia Legislativa, onde se desenha uma disputa que poderá estabelecer os limites da influência do novo governador sobre o Parlamento.

A primeira grande missão política de JHC, portanto, está relacionada à eleição do próximo presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas. Não se trata de uma escolha meramente administrativa. Quem preside o Legislativo controla a pauta de votações, conduz os trabalhos parlamentares, exerce influência sobre a organização interna da Casa e participa diretamente da construção dos entendimentos que permitem ao Executivo transformar propostas em leis.

É nesse cenário que surge o nome do deputado estadual eleito Tenorinho Malta. Segundo informações divulgadas pelo perfil Berg Morais Política, o parlamentar aparece nas articulações de bastidores como possível escolha de JHC para assumir a liderança do governo na Assembleia. Entretanto, as conversas políticas também apontariam Tenorinho como uma alternativa para disputar a presidência da Mesa Diretora, em uma movimentação que poderia colocá-lo diante do grupo comandado pelo atual presidente, Marcelo Victor.

As duas possibilidades representam estratégias institucionais distintas. Como líder do governo, Tenorinho seria responsável por defender as propostas do Executivo, negociar com os deputados e organizar a interlocução política do governador dentro da Assembleia. Como candidato à presidência, participaria de uma disputa mais ampla, envolvendo a direção administrativa e política do Poder Legislativo.

Marcelo Victor, por sua vez, representa um fator central nessa equação. Sua influência sobre a Assembleia não pode ser desconsiderada em qualquer análise sobre a sucessão da Mesa Diretora. A eventual apresentação de uma candidatura vinculada ao novo governo abriria uma negociação entre grupos políticos que possuem interesses, compromissos e projetos próprios.

O desafio de JHC será construir uma relação institucional capaz de assegurar governabilidade sem eliminar a autonomia do Parlamento. A Assembleia não é uma extensão do Palácio República dos Palmares. Seus integrantes possuem mandatos próprios, e a eleição da Mesa Diretora depende da vontade dos deputados, não de uma decisão unilateral do governador.

Há ainda uma questão estratégica importante: a presidência da Assembleia e a liderança do governo não são funções equivalentes. Um presidente do Legislativo precisa administrar os interesses de toda a Casa, inclusive da oposição, enquanto o líder governista tem a responsabilidade explícita de defender o Executivo. A escolha entre esses caminhos exige articulações diferentes e poderá revelar qual modelo de relacionamento JHC pretende estabelecer com os parlamentares.

A disputa também permitirá observar o comportamento dos deputados que integrarão a próxima legislatura. Parte deles poderá buscar aproximação com o governador eleito, enquanto outros poderão preservar compromissos políticos anteriores ou defender uma composição independente para o comando da Assembleia. O resultado dessas negociações ajudará a definir a dinâmica das votações e das relações entre os dois poderes.

Até o momento, a indicação de Tenorinho Malta para qualquer uma das duas funções permanece no campo das informações de bastidores, sem confirmação oficial apresentada no material divulgado. Também não há, nesse relato, anúncio formal de candidatura à presidência da Assembleia.

O que está em discussão, portanto, ultrapassa o nome de um deputado. A sucessão no comando da Casa de Tavares Bastos será um dos primeiros testes da capacidade de articulação do novo governo e da disposição do Legislativo para estabelecer sua relação com o Executivo.

JHC venceu a eleição para governador. Agora começa outra etapa: negociar com uma Assembleia que possui poder próprio, lideranças consolidadas e interesses que não necessariamente coincidem com os do futuro governo. A escolha do próximo presidente do Legislativo poderá indicar como será construída essa relação durante os quatro anos seguintes.

Blog do Cleuber Carlos — Análise política e jornalismo independente.

Atualização importante da apuração: reportagens publicadas hoje, 14 de outubro, acrescentam um dado decisivo ao editorial. Segundo o portal CadaMinuto, o grupo de Marcelo Victor já reuniria 21 dos 27 deputados eleitos, enquanto Ricardo Nezinho seria o nome preferido desse grupo para a presidência. São informações atribuídas a fontes políticas, não uma contagem oficial de compromissos.

Outro fato relevante: Marcelo Victor deverá assumir temporariamente o governo de Alagoas nesta quarta-feira, durante a licença de Paulo Dantas, segundo informação divulgada pelo Jornal de Alagoas.

Esses elementos tornam a disputa mais complexa do que uma simples escolha entre Tenorinho Malta e Marcelo Victor. O regimento estabelece a eleição da nova Mesa em 1º de fevereiro de 2027, e a composição dependerá dos votos dos próprios deputados.

Para a versão definitiva do editorial, o ponto central é esse contraste: JHC chega fortalecido pela vitória nas urnas, mas encontrará uma Assembleia na qual o grupo de Marcelo Victor já demonstra significativa capacidade de articulação.


JHC PRECISA SAIR DO MURO: ALAGOAS TEM O DIREITO DE SABER QUAL BRASIL SEU GOVERNADOR ELEITO DEFENDE

JHC conquistou o governo de Alagoas e recebeu das urnas uma responsabilidade que ultrapassa as fronteiras do estado. Quem pede ao eleitor confiança para governar precisa também demonstrar clareza sobre os rumos do país. Diante de uma disputa presidencial decisiva, o silêncio pode ser uma escolha conveniente para o político, mas oferece pouco à sociedade. Alagoas tem o direito de saber qual projeto nacional seu governador eleito considera melhor.

Até o levantamento da CNN atualizado em 13 de outubro, JHC figurava entre os governadores eleitos que ainda não haviam declarado apoio formal a nenhum dos candidatos no segundo turno. Enquanto isso, integrantes importantes de seu grupo já apresentaram suas escolhas. A vice-governadora eleita Célia Rocha anunciou apoio a Flávio Bolsonaro em 9 de outubro, seguindo uma direção também adotada por aliados como Arthur Lira, Cabo Bebeto e Fábio Costa. 

A posição dos aliados, entretanto, não substitui a palavra de quem comandará o estado. JHC construiu sua vitória com protagonismo próprio. É dele, portanto, a responsabilidade política de explicar aos alagoanos como enxerga a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro. Permanecer em silêncio enquanto seu entorno se movimenta deixa uma lacuna justamente onde deveria existir liderança.

Este editorial defende uma exigência democrática simples: quem ocupa uma posição de tamanha relevância pública deve apresentar suas convicções e assumir os custos de defendê-las. JHC tem liberdade para escolher seu candidato. Tem também a possibilidade de declarar neutralidade e explicar os motivos. O que merece cobrança é a indefinição prolongada, que preserva todas as portas abertas para o dirigente e mantém o eleitor sem uma resposta clara.

A Presidência da República influencia diretamente o ambiente em que Alagoas será governada. Investimentos federais, infraestrutura, saúde, educação, segurança e políticas sociais fazem parte dessa relação. Um governador eleito precisa avaliar propostas, identificar convergências e dizer quais compromissos considera indispensáveis para seu estado. A escolha presidencial exige mais do que afinidade pessoal ou cálculo sobre quem está à frente nas pesquisas.

Se JHC considera Flávio Bolsonaro a melhor alternativa, deve declarar esse apoio e explicar suas razões. Se prefere Lula, deve assumir essa posição com a mesma transparência. Se rejeita os dois projetos, precisa dizer por quê e apresentar os critérios que sustentam essa decisão. Em qualquer dessas hipóteses, o eleitor recebe uma informação necessária para compreender a liderança que acaba de escolher.

Ficar em cima do muro pode parecer uma estratégia prudente quando se pretende preservar relações com todos os lados. Mas governar exige decisões que desagradam, escolhas que produzem consequências e compromissos que podem ser cobrados depois. A autoridade de um líder se fortalece quando suas posições são conhecidas antes do resultado, no momento em que ainda existe risco político em assumi-las.

Também seria insuficiente apresentar o apoio apenas como uma aposta em vantagens futuras para Alagoas. Recursos públicos e cooperação federativa devem atender à população, qualquer que seja a escolha partidária do governador. O posicionamento precisa expressar uma avaliação sobre o país: economia, instituições, políticas sociais, responsabilidade fiscal e capacidade de governar.

JHC não precisa acompanhar automaticamente sua vice ou seus aliados. Sua liderança lhe permite formular uma posição própria. É justamente por isso que sua manifestação importa. A sociedade deve ouvir do governador eleito o que ele pensa, e não tentar deduzir sua preferência a partir das declarações de outras pessoas.

O Blog do Cleuber Carlos cobra essa clareza. O homem público tem liberdade de escolha, mas carrega uma responsabilidade de transparência proporcional ao poder que recebeu. Alagoas escolheu seu próximo governador. Agora, merece conhecer, pela voz dele, qual caminho considera melhor para o Brasil.

JHC, apresente sua posição. Explique suas razões. Assuma sua escolha enquanto ela ainda pode contribuir para o debate público.

VILA NOVA DIANTE DE SEUS FANTASMAS: O TIGRÃO VAI SUPORTAR A PRESSÃO DO JOGO DECISIVO CONTRA O NOVORIZONTINO?

O Vila Nova chega à reta final da Série B de 2026 diante de um adversário que não aparece na classificação, não veste camisa e não entra em campo: sua própria história. Líder do campeonato, com 61 pontos, o clube colorado volta a alimentar o sonho de disputar a Série A do futebol brasileiro. Mas, para o torcedor que acompanhou décadas de frustrações, a pergunta não é apenas se o Vila tem futebol suficiente para subir. É se terá equilíbrio emocional para vencer quando a vitória se tornar indispensável.

O próximo confronto, contra o Novorizontino, no estádio Onésio Brasileiro Alvarenga, reúne todos os ingredientes de uma decisão antecipada. O adversário está apenas um ponto atrás, a torcida deverá transformar o OBA em um ambiente de enorme pressão e o resultado poderá influenciar diretamente a disputa pelas primeiras posições. É exatamente nesse tipo de circunstância que o passado colorado costuma voltar à memória de seus torcedores.

O Vila Nova construiu uma relação dolorosa com partidas que pareciam representar a oportunidade de encerrar sua longa ausência da elite nacional. A lembrança do Serra Dourada tomado pela torcida diante do América Mineiro, assim como a frustração contra o ABC de Natal, integra uma memória coletiva marcada por expectativas gigantescas e resultados que não corresponderam à mobilização das arquibancadas.

O problema não é perder uma partida de futebol. Isso acontece com qualquer equipe. O que chama atenção na trajetória colorada é a repetição de momentos em que a possibilidade de uma conquista importante se aproxima e, justamente quando a torcida acredita que chegou a hora, o resultado esperado não aparece.

A história oferece dois episódios especialmente marcantes. Em 1997, o Vila Nova enfrentou o América Mineiro no Serra Dourada, diante de um público estimado em 55 mil pessoas, das quais 43.808 eram pagantes. Uma vitória deixaria o clube muito próximo do acesso. Mas, diante de sua torcida, perdeu por 2 a 0. O estádio lotado, que deveria representar uma vantagem, tornou-se cenário de uma das grandes decepções do futebol goiano.

Em 25 de novembro de 2023, a história voltou a castigar o torcedor colorado. Na última rodada da Série B, o Vila Nova enfrentou o ABC, em Natal, adversário que já estava rebaixado. Dependia apenas de uma vitória para conquistar o acesso. Não precisava de uma combinação improvável de resultados. Bastava fazer sua parte. Mesmo assim, perdeu por 3 a 2, terminou na oitava colocação e viu desaparecer uma oportunidade histórica.

Entre esses dois episódios, outras campanhas alimentaram a percepção de que o Vila Nova encontra dificuldades para transformar boas oportunidades em conquistas. Em 1999, o clube voltou a disputar uma fase decisiva da Série B, mas não conseguiu superar os obstáculos que o separavam da primeira divisão. Em 2008, outra campanha promissora terminou sem acesso.

É preciso reconhecer que os jogadores, treinadores e dirigentes mudaram ao longo dessas décadas. Não existe uma maldição esportiva comprovável, tampouco é possível afirmar que os fracassos anteriores determinem o resultado de domingo. Mas existe uma história institucional que acompanha o clube, alimenta a ansiedade da torcida e aumenta a dimensão emocional de cada oportunidade.

Agora, o Vila Nova chega ao confronto com o Novorizontino ocupando a liderança, com 61 pontos, apenas um à frente do adversário paulista e do Juventude. A matemática da UFMG atribui ao Colorado 72,2% de probabilidade de acesso, considerando tanto as vagas diretas quanto a possibilidade de classificação pelos playoffs. É uma perspectiva favorável, mas que não elimina a necessidade de conquistar pontos em campo.

A partida de domingo, 18 de outubro, às 18 horas, no OBA, terá peso especial. Uma vitória colocará o Vila Nova com 64 pontos e abrirá quatro de vantagem sobre o Novorizontino. Uma derrota permitirá ao adversário ultrapassar o time goiano e poderá provocar uma mudança importante na disputa pelas duas vagas de acesso direto.

O regulamento de 2026 acrescenta pressão: somente os dois primeiros colocados sobem diretamente, enquanto as equipes do terceiro ao sexto lugares disputam as outras duas vagas em confrontos eliminatórios. Para um clube cuja história recente registra frustrações em partidas decisivas, evitar esse caminho adicional pode representar uma vantagem importante.

A grande questão não é se o Vila Nova possui condições matemáticas de conquistar o acesso. Possui. Também não é se tem uma torcida capaz de transformar seu estádio em um ambiente de pressão sobre o adversário. Tem demonstrado isso ao longo de sua história.

A questão é como o Vila Nova reagirá quando a responsabilidade de vencer estiver inteiramente sobre seus ombros.

Em 1997, o Serra Dourada lotou e o acesso escapou. Em 2023, a torcida viajou até Natal e a esperança terminou diante de um adversário rebaixado. Em 2026, o cenário é novamente de expectativa elevada, mas o desfecho ainda está por ser escrito.

O Novorizontino não é o América Mineiro de 1997 nem o ABC de 2023. E o Vila Nova de hoje não é aquele das campanhas anteriores. Ainda assim, o confronto oferece uma oportunidade concreta de demonstrar que o clube pode administrar a pressão de uma partida decisiva sem repetir os erros que marcaram seu passado.

O Vila Nova já mostrou inúmeras vezes que sabe chegar perto da Série A. O que ainda precisa demonstrar é que sabe atravessar a porta quando ela se abre.

Domingo, contra o Novorizontino, não estará em jogo apenas a liderança da Série B. Estará em jogo mais um capítulo da relação entre o Vila Nova, sua torcida e o sonho de voltar à elite do futebol brasileiro.