Sem liderança e talento decisivo, Seleção depende do craque para voltar a competir no mais alto nível mundial
Demóstenes Torres
Escrevo antes de Brasil X Croácia, portanto, alheio ao resultado, pois o que importa é a Copa do Mundo em Estados Unidos, México e Canadá. Pelo que os quase 100 jogadores já chamados apresentaram desde as eliminatórias, podemos nos preparar para mais 4 anos na fila. Falta algo. Falta alguém.
Culpa-se o pequeno ciclo, já que Carlo Ancelotti mal completou 1 ano à frente do elenco. Porém, Zagallo assumiu a Canarinho no fim de março de 1970 e trouxe o tri. Sim, os antecessores e os atletas do Velho Lobo não podem ser comparados aos do italiano, mas os adversários também não – seu país natal, por exemplo, é só um retrato na parede e vai ficar de fora pela 3ª vez seguida.
Felipão começou em junho de 2001 e no junho seguinte Cafu levantava a taça para uma Vila Irene do tamanho de um continente. Portanto, não é tempo o entrave.
Os elencos de 1982, 1998, 2006 e 2010 eram espetaculares. E não ficaram em 1º. Os mesmos Zagallo, Parreira e Felipão voltaram ao comando e perderam. The best dos bests à beira do gramado, Telê Santana, só ganhou um mundial em São Paulo. Então, a diferença pode ser algo. Ou alguém.
Esse alguém talvez fosse Ancelotti, desde que tivesse os galáticos do Real Madrid, uma espécie de seleção do mundo disputando La Liga – e que mesmo assim nem sempre sai vitoriosa.
Carletto recebeu da Confederação Brasileira de Futebol uma liberdade inédita para os técnicos locais. Convoca quem quer, dá as explicações que quer e ignora o que quer, nem aí para clubes, palpiteiros da mídia e outros corneteiros. Ou seja, antecipa-se a tempestade perfeita: presidente novato que atribuiu superpoder ao treinador, imprensa woke levando para o esporte a polarização eleitoral, 16 rivais europeus, uma geração nutella de bastante correria e habilidade apenas normal. Para estabelecer a diferença, falta algo. Ou alguém.
Esse alguém é Neymar Jr. e o algo é a coragem. O destemor se mostra indispensável porque Ancelotti se tornará o pior do planeta 1 minuto depois de ler, na convocação, o nome do cancelado pelos lacradores. O ódio da política partidária contaminou o país. Desde que divulgou um vídeo em que cantava “22 é Bolsonaro”, virou o inimigo público nº 1 de repórteres, comentaristas, apresentadores e editores disfarçados de independentes, que usam as sandálias da humildade de fachada para esconder as ferraduras da esquerda.
Neymar Jr. virou a Geni sem o Zepelim, pois “tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto” se esquece das pauladas que ele leva, acha que “seu corpo é dos errantes”, todo beque sem trato pode esmurrá-lo. Apanha, apanha, por isso cai, cai. Em vez de punir os brutamontes que o lesionam, os árbitros mandam o gênio levantar antes que quebrem a lâmpada com o apito.
Alguns militantes do microfone chegam a dizer que Neymar é um ex-jogador e que quem está mal no Santos pior se apresentaria entre os 11 (ou os 26 do rol definitivo). A ideologia cega, mesmo, pois não veem que a equipe precisa de referência, papel para o qual o atacante/meia é ultraqualificado. A Seleção precisa de diversas providências das quais Neymar se encarregaria naturalmente.
Ah, ele está bichado. Para 1958, espalhavam que Mané Garrincha era deficiente físico, por causa das pernas muito tortas; para 1962, que a artrose inviabilizava-lhe os joelhos; foi essencial em uma Copa e um deus na seguinte. Falaram que Tostão tinha visão monocular, mas o levaram, e ele brilhou na campanha do tri. Disseram o mesmo de Romário em 1998, deixaram-no, e o sonho do penta teve de ser adiado.
Num país de 213 milhões de fisioterapeutas e analistas de futebol, cada qual carrega sua opinião sobre a saúde de Neymar para o esporte de alto rendimento. A minha é como a de milhões: ele se arrastando, com uma perna no gesso e a outra amputada, ainda é melhor que a média internacional e sem parâmetro entre seus conterrâneos. Se perder ambas, cabe no meio-campo só com a criatividade, já que o nosso está tipo um Íbis de amarelo (e não me refiro ao hotel).
Uma série de circunstâncias aconselham que o fora de série, ainda que inspire cuidados, deve ser titular.
Lionel Messi pode estar andando em campo. Quem na Argentina faria a bobagem de não o convocar? Mbappé consegue ser bola de ouro em fominha. Quem na França o tiraria?
Subsidiariamente, como no vocabulário do Direito, caso o bom senso convença Ancelotti a listá-lo apesar das questões de preparo, aparecerá um filhote de cruz-credo lembrando que Neymar apronta, vai a festas, se diverte com artistas, conserva uns parças terríveis e frequenta o Carnaval estando em recuperação.
E daí? A gente o quer para fisgar o hexa, não para se casar com nossa neta/filha. Jogadores que deram lição de comportamento, como Zico, não conseguiram a Copa. Grandes cachaceiros voltaram do exterior comemorando. Farristas eméritos gastando o preparo com a mulherada, como Romário, foram decisivos nos títulos.
A CBF mudou de presidente para melhor, a seleção mudou de técnico para muito melhor, falta ao time, que tem ótimos craques, mudar de nível. Para isso, precisa de um maestro em campo. Com a batuta, Neymar, que joga de fraque e rege uma orquestra com seus lampejos de genialidade.





