Ex-governador afirma que “contraditório não é crime” e coloca a liberdade de imprensa no centro do debate político estadual.
A declaração não foi protocolar. Não foi lateral. Não foi ambígua.
Marconi Perillo escolheu o lado do debate — e escolheu com palavras que não deixam margem para interpretação confortável.
Ao comentar a prisão do jornalista Cristiano Silva, editor do Portal 24Horas, o ex-governador foi direto: prender jornalista por fazer pergunta incômoda não fortalece governo, enfraquece a democracia. Em um estado onde o poder sempre operou com forte centralização política, a frase ecoa mais do que parece.
Não se trata apenas de solidariedade pessoal. Trata-se de enquadramento institucional.
Quando Perillo afirma que “liberdade de imprensa não é concessão de governo, é direito da sociedade”, ele desloca o eixo da discussão. A imprensa deixa de ser vista como antagonista eventual do poder e passa a ser reconhecida como instrumento estrutural do controle democrático.
E isso tem densidade jurídica.
A Constituição Federal, no artigo 220, veda qualquer forma de censura. A ADPF 130 do Supremo Tribunal Federal consolidou o entendimento de que a crítica jornalística, mesmo dura, mesmo ácida, está protegida no Estado Democrático de Direito. O contraditório não pode ser confundido com crime. Questionar não pode ser tratado como ameaça.
Se a prisão de um jornalista decorre do exercício da atividade de fiscalização e crítica, o debate deixa de ser penal e passa a ser constitucional.
Mas há também a dimensão política.
Marconi não é um ator periférico. Foi governador de Goiás por quatro mandatos. Foi senador da República. Presidiu partido nacional. Sua fala não é de bastidor; é posicionamento estratégico. Ao se manifestar, ele nacionaliza o tema. Retira o episódio da esfera local e o projeta para o debate sobre garantias democráticas.
E aqui está o ponto central: a crítica à prisão não é defesa automática de conteúdo específico, mas defesa do princípio de que o poder público deve suportar o escrutínio.
Em democracias maduras, governo forte é aquele que suporta crítica — não aquele que reage a ela com coerção.
Se jornalistas passam a atuar sob a sombra do medo, não é apenas a imprensa que perde. É a sociedade que perde o direito de saber.
O que está em jogo não é simpatia por A ou B. É a fronteira entre autoridade legítima e intimidação institucional.
E quando um ex-governador com o peso histórico de Marconi Perillo diz publicamente que “Goiás não pode viver sob medo, intimidação e perseguição a quem fiscaliza o poder”, o recado deixa de ser retórico.
Vira marco político.
Porque democracia não se mede apenas pelo direito de votar. Mede-se pela liberdade de questionar.
E quando questionar passa a custar caro, o problema deixa de ser individual — torna-se estrutural.
A declaração de Marconi não encerra o debate. Pelo contrário. Ela o amplia.
E agora a pergunta que permanece no ar não é apenas sobre a prisão de um jornalista. É sobre o ambiente institucional que Goiás quer sustentar nos próximos anos.
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