sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Hugo Motta, os 10% e o Congresso da Mamata


STF silencia diante de delação que expõe propina em emenda parlamentar

Por Cleuber Carlos

A delação do empresário José Aloysio Machado da Costa Neto, anexada a sentença da Justiça Federal da Paraíba, trouxe à tona um escândalo que poderia — em qualquer país sério — implodir carreiras políticas e abrir um rastro de investigações. Segundo ele, o deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB) teria exigido 10% de comissão sobre uma obra custeada por emenda parlamentar, no valor aproximado de R$ 78 mil.


A narrativa é simples, didática e devastadora: sem o “pedágio”, a emenda não andava. A obra, executada em Malta (PB), se tornou palco de desvio de recursos, empresa fachada e apropriação de verbas em município de baixo IDH.

O silêncio conveniente do STF


Apesar da gravidade, a delação — feita em 2017 — não foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal. Resultado: nenhuma investigação foi aberta, nenhum relator foi designado, nenhum despacho foi dado pela PGR. O depoimento repousa em gavetas do poder, enquanto os réus locais enfrentam sentenças e recursos.


Ou seja: para os peixes pequenos, o rigor da lei; para os graúdos de Brasília, o silêncio cúmplice.


A omissão não é inocente. Trata-se de uma engrenagem: enquanto o Congresso se blinda no poder das emendas e o STF seleciona quais casos avançam e quais são sepultados, a sociedade brasileira assiste ao espetáculo de impunidade. É o que já se chama nos bastidores de “Congresso da Mamata”, um arranjo em que dinheiro público vira moeda de troca para perpetuar mandatos e comprar lealdades.

O abalo político de Hugo Motta




Mesmo sem processo judicial aberto, a denúncia corrói a imagem do deputado. Presidente da Comissão de Orçamento da Câmara, cargo estratégico no controle de bilhões de reais, Hugo Motta se vê fragilizado. Como alguém acusado de cobrar comissão em emenda tem moral para arbitrar sobre os destinos do orçamento público?


A resposta é óbvia: não tem. Mas em Brasília, moral não é requisito. O que conta é força política, blindagem partidária e silêncio institucional.


No curto prazo, o deputado deve sobreviver politicamente. No médio prazo, porém, carrega uma marca: a de ser lembrado como o parlamentar dos “10%”. Em ano eleitoral, basta um vídeo viral para destruir reputações.

O veneno da impunidade

O caso Hugo Motta ilustra bem a teoria do fruto da árvore envenenada. Se a raiz é corrupta — emendas controladas por caciques, distribuídas mediante comissão — o fruto não pode ser saudável. Toda a política orçamentária, nesse modelo, é contaminada.


Enquanto isso, o STF mantém-se inerte. Não por falta de provas, mas por conveniência política. A blindagem seletiva dos poderosos é a marca registrada da nossa República.


E assim seguimos, entre um escândalo e outro, na certeza de que os culpados de sempre não pagarão.

📌 Opinião:

Hugo Motta é apenas um nome numa engrenagem maior. O verdadeiro escândalo não é apenas a comissão de 10%, mas a certeza da impunidade. O Congresso da Mamata continua intocado porque o Supremo prefere virar as costas. Quando o guardião da Constituição escolhe a quem punir, a República deixa de ser democrática e passa a ser apenas corporativa.


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