domingo, 8 de junho de 2025

*Justiça à sombra do Palácio: até onde vai o poder de influência da filha de Ronaldo Caiado no Tribunal de Justiça de Goiás?


O caso Rafael Marra escancara uma prática que tem se tornado recorrente: a suposta interferência de Anna Vitória Caiado, filha do governador, em processos judiciais sensíveis — especialmente quando envolvem aliados políticos ou familiares do clã Caiado

**Por Cleuber Carlos 

**Opinião 

Até onde vai o poder de uma advogada no Tribunal de Justiça de Goiás quando essa advogada é filha do governador do Estado e frequenta os corredores do poder com a desenvoltura de quem se sente em casa? A resposta pode estar nas entrelinhas (ou nas entrecâmaras) de um caso que ultrapassa os limites do razoável.

No episódio mais recente, o Ministério Público determinou o afastamento de Rafael Marra da presidência do DEMAE em Caldas Novas após denúncia grave: ele teria usado a máquina pública para violar dados fiscais protegidos de sua ex-esposa, com o objetivo de enfraquecer o direito dela à pensão alimentícia. A decisão judicial, emitida no dia 26 de maio de 2025, foi clara: exoneração em cinco dias. Até hoje, a ordem não foi cumprida.

Mas o que poderia justificar esse descumprimento escancarado de uma decisão liminar? A resposta pode estar no nome da advogada de defesa: Anna Vitória Caiado.


Filha do governador Ronaldo Caiado (UB), Anna Vitória não é uma advogada qualquer. Além de carregar o sobrenome que comanda Goiás, ela goza de trânsito privilegiado entre desembargadores — muitos deles, curiosamente, indicados ao cargo pelo próprio pai. Em petição recente, ela solicitou que o processo fosse *redistribuído* para a 8ª Câmara Cível, sob a relatoria do desembargador Alexandre Kafuri. Um pedido atípico, para não dizer escandaloso.

A pergunta que fica é: desde quando advogados podem escolher onde seus clientes serão julgados?

Essa manobra — ou tentativa de manobra — levanta um sinal de alerta para a sociedade e uma sombra sobre o Judiciário goiano. Afinal, é legítimo que a filha do governador, representando o sobrinho do governador, peça para que o caso seja julgado justamente por um desembargador de confiança? O Tribunal de Justiça de Goiás pode continuar indiferente a esse tipo de articulação?

O Ministério Público não ficou calado. O promotor Wessel Teles de Oliveira reagiu com firmeza: reforçou que a simples interposição de recurso não suspende os efeitos da decisão liminar e pediu, inclusive, multa diária de R\$ 1.000,00 ao prefeito Kléber Marra (tio de Rafael) por descumprimento da ordem judicial. O MP agora exige não só a exoneração imediata, como também a suspensão dos salários e uma multa de R\$ 30 mil.

Mas e o Tribunal de Justiça?

Silêncio. Inércia. Conivência?

Enquanto isso, a imagem de uma Justiça imparcial vai sendo corroída. A atuação de Anna Vitória Caiado, por mais técnica que possa parecer, é vista por muitos como expressão de um poder paralelo, onde laços de sangue valem mais do que os códigos e regimentos. E essa percepção, por si só, já é gravíssima.

Não se trata apenas de um caso envolvendo pensão ou abuso de estrutura pública. Trata-se de algo maior: da confiança da população no sistema de Justiça. Uma confiança que não pode ser comprada, herdada nem imposta por sobrenomes.

Se o Judiciário não é capaz de colocar limites ao poder político que bate à sua porta, quem colocará?

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