terça-feira, 24 de junho de 2025

Caiado sob suspeita: espionagem, silenciamento e a sombra de um Estado policial em Goiás


Por Cleuber Carlos – Blog do Cleuber Carlos

📍Publicado em 24 de junho de 2025

A cada dia que passa, o que parecia mais uma crise institucional entre o Ministério Público de Goiás e o governo de Ronaldo Caiado ganha contornos de escândalo nacional. Informações recentes revelam que o governo estadual firmou contrato milionário com a empresa israelense Cognyte, desenvolvedora do software espião First Mile, para rastreamento de cidadãos por sinal de celular — sem licitação e, pior, sob sigilo absoluto.

Agora, surgem indícios gravíssimos de que o sistema pode ter sido usado para espionar opositores políticos, jornalistas, autoridades públicas e até uma promotora de justiça. A pergunta que ecoa entre os corredores do poder e da sociedade civil é direta: Caiado transformou o Estado de Goiás em uma máquina de vigilância política?

O contrato da discórdia: espionagem paga com dinheiro público

O contrato com a Cognyte, assinado em 2020, previa 10 mil acessos ao sistema First Mile, com custo superior a R$ 7,6 milhões. O software é capaz de rastrear qualquer cidadão por geolocalização de celular. Em junho de 2021, mês da execução de uma das maiores chacinas políticas de Goiás, envolvendo a morte de Fábio Escobar, ex-coordenador da campanha de Caiado, um aditivo ao contrato foi assinado ampliando os acessos ao sistema.

Coincidência? A família de Escobar não acredita. Morto após romper com o grupo político de Caiado e denunciar corrupção e caixa dois, Escobar foi assassinado em um crime brutal, onde nove pessoas foram executadas, incluindo uma mulher grávida. Hoje, a família levanta uma dúvida incômoda: Escobar foi monitorado pelo sistema contratado por Caiado antes de ser executado?

Silêncio, sigilo e medo

A execução do contrato foi colocada sob sigilo por cinco anos por decisão da Polícia Civil de Goiás. Isso impede que a sociedade saiba quem foi vigiado, por que motivos e como o sistema foi usado. A promotora de justiça Leila Maria de Oliveira, que recentemente passou a questionar as obras bilionárias da chamada “Taxa do Agro” — sem licitação — também está sob alerta: deputados da oposição suspeitam que ela também esteja sendo espionada.

Se confirmado, estaríamos diante de uma grave violação dos princípios democráticos, transformando o aparelho estatal em uma ferramenta de perseguição política, algo que remete aos períodos mais sombrios da história brasileira.

Impacto na pretensão presidencial de Caiado

Caiado articula sua candidatura à presidência da República em 2026. Mas um escândalo dessa magnitude pode enterrar de vez suas pretensões eleitorais. O uso de software espião contra opositores, somado ao sigilo imposto e ao rastro de sangue de um aliado assassinado, pinta o retrato de um político disposto a tudo para manter o controle — mesmo que isso custe a democracia e a liberdade de expressão.

E a oposição, vai deixar barato?

A oposição tem em mãos uma bomba prestes a explodir. Cabe aos deputados estaduais, senadores e partidos progressistas cobrar imediatamente:

  • quebra do sigilo do contrato com a Cognyte;

  • A investigação sobre quem foi espionado;

  • A responsabilização criminal por eventual uso indevido do sistema.

Quem pode investigar?

Casos de espionagem estatal, especialmente com uso de verba pública, podem ser investigados por:

  • Ministério Público Federal (MPF) – em caso de violação de direitos fundamentais e uso político da máquina pública;

  • Polícia Federal – caso envolva crimes contra a segurança nacional, interceptações ilegais e contratos com empresas estrangeiras;

  • Tribunal de Contas da União (TCU) – para apurar eventuais irregularidades nos gastos públicos;

  • Congresso Nacional – por meio de uma CPI da Espionagem Política, com foco na relação entre contratos de governos estaduais e perseguição de opositores.

Conclusão: não é apenas Goiás — é a democracia que está em risco

O que está em jogo não é apenas a reputação de Ronaldo Caiado. É a confiança da população na integridade das instituições. Se comprovado o uso de software espião contra opositores políticos, estamos diante de uma violação inaceitável das liberdades civis.

A história cobrará respostas. E o povo de Goiás, e do Brasil, merece saber: quem estava na mira de Caiado? E até onde vai o silêncio do Estado?

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