Governador eleito de Alagoas enfrenta pressão de integrantes da própria aliança para declarar apoio a Flávio Bolsonaro. Arthur Lira, Célia Rocha e Cabo Bebeto já se posicionaram, enquanto Alfredo Gaspar evita confronto público. A indefinição também movimenta os bastidores da formação do futuro governo estadual.
A vitória de João Henrique Caldas, o JHC, na eleição para o governo de Alagoas colocou o ex-prefeito de Maceió diante de uma decisão política que ultrapassa as fronteiras do estado. Duas semanas depois de derrotar Renan Filho nas urnas, o governador eleito ainda não anunciou quem apoiará no segundo turno da eleição presidencial, marcado para 25 de outubro. O silêncio, que durante a campanha estadual permitiu reunir forças políticas de diferentes orientações, começa agora a provocar cobranças entre integrantes da própria aliança que o levou ao Palácio República dos Palmares.
A pressão tornou-se pública. Reportagem do jornalista Bruno Fernandes, publicada neste sábado, 17 de outubro, no Jornal Extra de Alagoas, aponta que aliados ligados ao Partido Liberal passaram a cobrar uma definição do governador eleito. Entre os nomes citados está o deputado estadual Cabo Bebeto, defensor do apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro. Em posição diferente, Alfredo Gaspar de Mendonça, candidato a vice-presidente na chapa do PL, tem evitado transformar a indefinição de JHC em um confronto público.
A situação apresenta uma particularidade política. JHC conquistou o governo estadual com o apoio de lideranças que hoje participam diretamente da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Arthur Lira, eleito senador e uma das principais figuras da aliança vitoriosa em Alagoas, já declarou apoio ao candidato do PL. A vice-governadora eleita, Célia Rocha, também se posicionou, assim como Cabo Bebeto e Fábio Costa.
O governador eleito, entretanto, mantém uma postura diferente da adotada por parte de seus aliados.
Essa diferença não representa, por si só, uma ruptura política. Mas revela a dificuldade de transformar uma aliança construída para disputar o governo estadual em um bloco inteiramente alinhado na eleição presidencial. O grupo de JHC reúne lideranças com trajetórias partidárias, interesses administrativos e relações distintas com Brasília.
A estratégia de neutralidade não começou agora. Durante o primeiro turno, JHC evitou vincular diretamente sua candidatura a um dos presidenciáveis. A posição permitiu concentrar a campanha na disputa estadual contra Renan Filho e preservar interlocução com setores políticos que não necessariamente compartilham as mesmas preferências na política nacional.
Depois da vitória, porém, o cenário mudou.
Em 5 de outubro, ao comentar a disputa presidencial, JHC afirmou que reuniria seus aliados para discutir o posicionamento do grupo. Desde então, Arthur Lira anunciou apoio a Flávio Bolsonaro, outras lideranças seguiram o mesmo caminho e o governador eleito permaneceu sem uma declaração formal.
A cobrança também tem relação com o desempenho eleitoral dos presidenciáveis em Alagoas. Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno em Maceió, onde recebeu 52,36% dos votos válidos, contra 41,09% de Lula. O candidato do PL também terminou à frente em outros 15 municípios, principalmente na faixa litorânea. No conjunto do estado, entretanto, Lula obteve a maioria, com 54,73%, diante de 40,45% de Flávio.
Esses números mostram que o eleitorado alagoano apresentou comportamentos distintos conforme a região. A capital e parte do litoral favoreceram Flávio Bolsonaro, enquanto o presidente Lula teve votação mais expressiva no interior e venceu a disputa estadual.
Para JHC, portanto, a decisão envolve um ambiente eleitoral dividido e uma base política que não possui posição inteiramente uniforme.
Outro elemento importante é a presença de Alfredo Gaspar na chapa presidencial. Deputado federal por Alagoas, ex-procurador-geral de Justiça e ex-secretário estadual de Segurança Pública, Gaspar disputa a Vice-Presidência da República. Uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro colocaria um alagoano no segundo posto do Executivo federal.
A circunstância amplia a atenção sobre o posicionamento de JHC. Entretanto, não existe demonstração de que uma declaração de apoio seja condição necessária para a futura relação institucional entre o governo estadual e a Presidência da República.
Essa distinção apareceu nas declarações do vereador Chico Filho, aliado de JHC, em 13 de outubro. Durante encontro com lideranças políticas, ele afirmou que o governador eleito deverá dialogar com quem vencer a eleição presidencial, independentemente de sua orientação partidária. O vereador manifestou preferência pessoal por Flávio Bolsonaro, mas evitou antecipar a decisão de JHC.
Nos bastidores, também circulam interpretações de que o governador eleito estaria preservando compromissos e canais de diálogo com o atual presidente. A coluna Fatos & Notícias, da Gazeta de Alagoas, registrou essa possibilidade em 15 de outubro. Trata-se, contudo, de uma avaliação política publicada pela imprensa, e não de uma explicação oficialmente apresentada por JHC.
A indefinição ocorre justamente quando começam as articulações para a formação do novo secretariado estadual. Arthur Lira, Alfredo Gaspar e outras lideranças participaram da construção da aliança eleitoral, mas ainda não existe confirmação de que a divergência sobre a eleição presidencial tenha provocado mudanças concretas na distribuição de cargos ou na composição da equipe de transição.
É nesse ponto que a discussão ganha importância para o futuro governo. JHC precisará administrar uma coalizão que reúne interesses partidários distintos e, ao mesmo tempo, preparar uma estrutura capaz de governar Alagoas a partir de janeiro de 2027. A composição do secretariado poderá indicar como essas diferentes forças serão representadas na administração.
A decisão sobre o segundo turno pertence ao governador eleito. Seus aliados têm liberdade para manifestar preferências e defender seus candidatos, assim como JHC pode optar por declarar apoio ou manter a neutralidade. O aspecto que merece acompanhamento público é a maneira como essas escolhas poderão repercutir nas relações políticas e institucionais do futuro governo.
A poucos dias da votação presidencial, a pressão tende a continuar presente no debate político alagoano. Até o fechamento desta reportagem, não havia sido identificada uma declaração oficial de JHC anunciando apoio a Lula ou Flávio Bolsonaro.
JHC venceu a eleição estadual reunindo uma aliança ampla. Agora, a disputa presidencial coloca à prova a capacidade desse grupo de conviver com posições diferentes sem comprometer a organização do próximo governo.
O desfecho da eleição de 25 de outubro e as primeiras decisões administrativas do governador eleito ajudarão a esclarecer os efeitos políticos dessa indefinição.

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