segunda-feira, 21 de setembro de 2026

EMPRESA INVESTIGADA PELA PF ASSUME R$ 8,9 MILHÕES POR MÊS NA SAÚDE DE GOIÁS



SAÚDE PÚBLICA | Hospitais administrados pelo Imed começaram a romper contratos com empresas relacionadas, segundo investigação policial citada pelo Metrópoles, a intermediários de uma rede de lavagem ligada ao PCC. No lugar, aparece a Fabermed FMC, cuja sócia é investigada em outro inquérito sobre suspeita de simulação de concorrência.




A troca de fornecedores nos hospitais públicos de Goiás administrados pelo Instituto de Medicina, Estudos e Desenvolvimento (Imed) abre uma pergunta que exige resposta: quais critérios estão sendo utilizados para escolher as empresas que recebem contratos milionários pagos, em última instância, com dinheiro público?

Reportagem publicada neste domingo (21) pelo Metrópoles revela que a Fabermed FMC Soluções em Saúde conquistou contratos para fornecer médicos aos hospitais estaduais de Formosa, Uruaçu e Trindade.

O valor impressiona: R$ 8,9 milhões por mês.

Mantido esse patamar durante 12 meses, são aproximadamente R$ 106,8 milhões.

Mas o tamanho dos contratos é apenas parte da história.

SÓCIA É INVESTIGADA

Uma das sócias da Fabermed, a médica Gleycianne França, aparece em inquérito que atualmente tramita na Polícia Federal e no Tribunal Regional Federal da 1ª Região.

Segundo documentos da investigação reproduzidos pelo Metrópoles, policiais apontaram suspeita de utilização de empresas para “simular concorrência inexistente” em processos que teriam beneficiado a Amme Saúde Ltda., empresa ligada ao irmão do então secretário estadual de Saúde e hoje deputado federal Ismael Alexandrino (PSD-GO).

Decisão judicial citada pela reportagem registra que investigadores atribuíram a Gleycianne declarações falsas em 11 processos de seleção de fornecedores.

É fundamental registrar: trata-se de investigação, não de condenação. A médica nega categoricamente participação em simulação de disputa ou combinação de preços. Seu advogado ressalta ainda que ela não foi denunciada pelo Ministério Público. A defesa de Ismael Alexandrino também nega qualquer irregularidade. 

UMA DIFERENÇA DE APENAS R$ 770

Outro dado chama atenção.

Em uma das seleções vencidas pela Fabermed, a proposta apresentada teria ficado apenas R$ 770 abaixo da segunda colocada. Outras quatro empresas concorrentes foram desclassificadas, segundo documentos obtidos pelo Metrópoles. 

A proximidade dos valores, isoladamente, não demonstra fraude. Mas, diante do histórico da investigação envolvendo uma das sócias, torna legítimo perguntar:

quem participou das seleções? Por que quatro empresas foram desclassificadas? Quais foram os critérios? Quem analisou as propostas? E onde estão todos os documentos desses processos?

Há mais.

Segundo o Metrópoles, depois de semanas de questionamentos, nem os empresários da Fabermed, nem o Imed nem a Secretaria Estadual de Saúde forneceram à reportagem os e-mails necessários para comparar datas e horários de apresentação das propostas e das respostas nos processos questionados. 

O DINHEIRO É PÚBLICO

O argumento de que a contratação é realizada diretamente pela organização social não elimina o interesse público sobre o dinheiro.

Segundo a apuração publicada neste domingo, o Estado repassou ao Imed R$ 1,7 bilhão entre 2020 e 2025, com recursos do Ministério da Saúde. Atualmente, a organização administra três hospitais e duas policlínicas em Trindade, Formosa, Uruaçu e Posse. 

Em reportagem anterior, o Metrópoles revelou que empresas ligadas a Thiago Telles Batista de Souza receberam mais de R$ 200 milhões por meio de contratos com o Imed. Telles foi investigado pela Polícia Civil de São Paulo sob suspeita de envolvimento em esquema de lavagem relacionado ao PCC; sua defesa negou vínculo com a facção. 

Depois das revelações, o Imed começou a encerrar ou anunciar o encerramento de contratos com empresas citadas nas apurações.

E é justamente aí que surge a questão central:

se empresas sob investigação estavam deixando os hospitais, quais mecanismos de integridade foram utilizados para selecionar as substitutas?

A SAÚDE DE GOIÁS PRECISA DE TRANSPARÊNCIA

O problema não é afirmar antecipadamente que houve irregularidade na nova contratação. Isso precisa ser provado.

O problema é outro: contratos de R$ 8,9 milhões todos os meses exigem transparência proporcional ao tamanho do dinheiro envolvido.

A Secretaria Estadual de Saúde informou ao Metrópoles que a contratação dos fornecedores é responsabilidade das organizações sociais. O Imed não respondeu aos questionamentos específicos apresentados pela reportagem. 

O próprio Imed informa em seu portal de transparência que documentos complementares e prestações de contas podem ser solicitados, embora diga que a relação completa de contratos vigentes não seja publicada em bloco. 

Diante disso, algumas respostas são indispensáveis: os processos completos de seleção da Fabermed; todas as propostas concorrentes; os motivos das desclassificações; atas e pareceres; datas e horários de envio das propostas; valores individualizados de cada contrato; e os mecanismos de compliance utilizados para verificar antecedentes e riscos dos fornecedores.

Porque trocar uma empresa questionada por outra cujo quadro societário inclui pessoa investigada não encerra a discussão.

Abre uma nova.

E quando estão em jogo hospitais públicos, pacientes e dezenas de milhões de reais, transparência não é favor.

É obrigação.

Fonte principal da apuração: Metrópoles, reportagem de Eduardo Militão, publicada em 21 de setembro de 2026. 



Nenhum comentário: