terça-feira, 10 de março de 2026

GOIÁS DE FIBRA: CONTRATO DE R$ 500 MILHÕES EXPÕE CONSÓRCIO LIDERADO POR EMPRESA CONTROLADA POR MULTINACIONAL

Meio bilhão de reais. Cinco anos de contrato. Dez mil quilômetros de fibra óptica prometidos. No papel, o programa Goiás de Fibra aparece como uma das maiores iniciativas de conectividade pública da história do estado. Na prática, porém, a estrutura empresarial responsável pela execução do projeto revela um arranjo que merece atenção — especialmente quando se observa quem, de fato, lidera o consórcio vencedor da licitação.

O contrato foi adjudicado ao Consórcio Sonda Goiás de Fibra, formado por quatro empresas: Telsinc Comércio de Equipamentos de Informática Ltda., Sonda Procwork Informática Ltda., Sonda do Brasil Ltda. e Ativas Data Center Ltda.


O valor global da contratação é de aproximadamente R$ 484 milhões, com investimentos que podem chegar a R$ 500 milhões ao longo de cinco anos. 


O objetivo do programa é implantar cerca de 10 mil quilômetros de rede de fibra óptica, conectando 125 municípios goianos e cerca de 2,3 mil órgãos públicos, entre escolas, hospitais e unidades de segurança. 


Mas a análise da estrutura societária do consórcio revela um ponto pouco explorado no debate público.

A EMPRESA LÍDER DO CONSÓRCIO

Embora o projeto seja frequentemente associado à multinacional de tecnologia SONDA, o consórcio é oficialmente liderado pela empresa TELSINC Comércio de Equipamentos de Informática Ltda., que aparece como empresa líder no processo licitatório. 

A Telsinc é uma empresa fundada em 1996, registrada sob o CNPJ 01.096.059/0001-98, com sede em Santana de Parnaíba, na região metropolitana de São Paulo. 

Sua atividade principal, segundo registros da Receita Federal, é o comércio atacadista de equipamentos de informática, embora também atue na integração de soluções tecnológicas e telecomunicações. 

Apesar de aparecer como empresa líder do consórcio, a estrutura societária da companhia indica uma ligação direta com o grupo chileno SONDA.

QUEM SÃO OS DONOS DA TELSINC

Os registros empresariais mostram que a Telsinc possui como sócios:

  • Sonda Inversiones Internacionales S.A.
  • Sonda Procwork Informática Ltda.
  • Sonda S.A.

Entre os administradores aparecem nomes como:

  • Jorge David Ramirez Scott
  • Ricardo Scheffer de Figueiredo

Ou seja: embora formalmente apresentada como empresa integrante do consórcio, a Telsinc é, na prática, parte da própria estrutura corporativa da SONDA.

Isso significa que três das quatro empresas do consórcio pertencem ao mesmo grupo econômico, um ponto que, em grandes contratos públicos, costuma levantar discussões sobre concentração societária dentro de consórcios.

A ESTRUTURA DO PROJETO

O contrato não envolve apenas a construção física da rede de fibra.

Além da implantação da infraestrutura, o projeto inclui:

  • fornecimento de equipamentos
  • licenciamento de softwares
  • serviços de segurança da informação
  • operação da rede
  • criação de centros de gerenciamento de dados

Esses serviços ampliam significativamente o escopo do contrato e transformam o projeto em uma concessão tecnológica de longo prazo, e não apenas uma obra de engenharia. 

EXECUÇÃO E PAGAMENTOS

Aqui surge um dos pontos mais sensíveis da investigação.

Apesar do valor expressivo do contrato, a execução financeira e física do programa ainda é pouco detalhada publicamente.

Não estão claramente disponíveis, em painéis acessíveis ao público:

  • os valores já pagos ao consórcio
  • o cronograma financeiro da obra
  • o percentual de execução da rede
  • os municípios já conectados
  • as empresas subcontratadas para execução em campo

Em projetos de telecomunicações dessa escala, a implantação física normalmente envolve subcontratação de empresas locais de engenharia e infraestrutura, responsáveis por escavações, instalação de cabos e construção de pontos de rede.

Até o momento, porém, não há divulgação ampla dessas empresas executoras.

UMA PERGUNTA QUE COMEÇA A SURGIR

Projetos de conectividade pública são essenciais para a inclusão digital e modernização do Estado.

Mas quando envolvem R$ 500 milhões de recursos públicos, a transparência deixa de ser apenas uma formalidade administrativa.

Ela se torna uma exigência institucional.

A pergunta que começa a surgir entre especialistas em infraestrutura digital e gestão pública é direta:

quanto desse contrato já foi executado — e quanto já foi pago?

Enquanto essas respostas não aparecem com clareza, o programa Goiás de Fibra segue avançando tecnicamente, mas com uma lacuna que nenhuma política pública desse porte deveria carregar:

a falta de transparência detalhada sobre a execução de um dos maiores contratos de tecnologia da história recente do estado.


Se quiser, Cleuber, posso também preparar uma segunda matéria ainda mais explosiva, investigando:

  • quanto cada empresa do consórcio deve receber
  • quem articulou politicamente o projeto
  • todas as empresas que já receberam pagamentos do contrato
  • e as subcontratações que estão executando a obra em campo.

Isso normalmente é onde começam a aparecer as histórias mais fortes.


Um comentário:

Jadir Carvalho disse...

Parabéns pelos artigos postados e pela seriedade como são desenvolvidos. Altíssimo nível.
Sou fã de vocês.
Jadir Carvalho