Quando Ronaldo Caiado assumiu o governo de Goiás, em 2019, o roteiro era conhecido: barulho, indignação e o velho enredo da “herança maldita”. A dívida, dizia-se, era um esqueleto acumulado desde os anos 80. O número girava em torno de R$ 20 bilhões.
Sete anos depois, a pergunta é simples — e matemática não tem ideologia:
Se o Estado entrou no Regime de Recuperação Fiscal, suspendeu pagamentos e ainda contou com cerca de R$ 6,5 bilhões bancados pela União nesse período, por que a dívida chegou a aproximadamente R$ 28 bilhões?
Não é retórica.
É aritmética.
📊 A RECUPERAÇÃO QUE NÃO RECUPEROU
O Regime de Recuperação Fiscal foi vendido como salvação. Suspensão de pagamentos, fôlego orçamentário, reestruturação da máquina. O discurso era de responsabilidade e austeridade.
Mas o estoque da dívida cresceu.
Ou seja: mesmo com alívio temporário, a conta aumentou.
É legítimo questionar:
Se houve socorro federal e suspensão de desembolsos, o que fez a dívida avançar quase R$ 8 bilhões?
Juros? Correção? Rolagem?
Então por que o discurso foi de saneamento definitivo?
🏗 O ESTADO ENGESSADO E A PROMESSA DE OBRAS
Durante esses sete anos, Goiás ficou submetido ao teto fiscal do RRF.
Congelamentos, restrições, limitações.
A promessa era clara: sacrifício agora para colher equilíbrio depois.
Mas onde está a transformação estrutural compatível com esse aperto?
Não se fala aqui de inauguração de praça ou pintura de meio-fio.
Fala-se de infraestrutura estruturante, de recuperação ampla de rodovias, de entregas proporcionais ao discurso de austeridade.
Nem mesmo a recuperação prometida com recursos da chamada taxa do agro virou símbolo de mudança estrutural.
O Estado apertou o cinto.
Mas a conta continuou crescendo.
📉 O DADO QUE DESMONTA O DISCURSO
O próprio balanço oficial entregue à Assembleia no último quadrimestre de 2025 aponta déficit de R$ 4,5 bilhões.
Repita devagar:
🔺 Receita cresceu 19%.
🔺 Despesa cresceu 34%.
Se a gestão foi marcada pelo discurso da austeridade, por que a despesa cresceu quase o dobro da receita?
Essa é a pergunta que desmonta narrativas.
Não se trata de acusação criminal.
Trata-se de coerência administrativa.
⚖️ A HERANÇA QUE FICA
A dívida projetada dentro do regime de recuperação fiscal terá impacto por décadas. Não é discurso oposicionista. É estrutura contratual.
A pergunta que ficará para os próximos governadores é simples:
O Estado foi efetivamente reequilibrado ou apenas postergou o problema?
Porque, se a dívida cresceu mesmo com suspensão de pagamentos e ajuda federal, o discurso de “arrumação histórica” precisa ser confrontado com os números frios.
E número não grita.
Número revela.
Se a promessa era reconstrução fiscal, os dados sugerem outra coisa:
um Estado travado, com despesa crescente e dívida ampliada.
A conta não desapareceu.
Ela só ficou mais cara — e mais longa.
E essa, sim, pode ser a verdadeira herança política dos próximos 40 anos.
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