
ELEIÇÕES 2026 | A disputa dentro do Podemos pela Assembleia Legislativa promete ser uma das mais apertadas desta eleição. Henrique César tenta renovar o mandato, enquanto Felipe Mabel, Willian Panda, Isaac Martins, Léo Portilho, Vanilson Bueno e outros nomes disputam espaço numa chapa em que três cadeiras são mencionadas em levantamentos publicados. Pesquisa recente coloca Mabel, Henrique e Rafael Marra empatados numericamente, mas a situação jurídica de Marra adiciona uma variável importante à corrida.
A eleição para deputado estadual não é uma corrida em que basta olhar quem aparece na frente individualmente.
Primeiro, o partido precisa produzir votos suficientes para conquistar cadeiras. Depois começa outra batalha: saber quem ficará com essas vagas dentro da própria chapa.
E é exatamente aí que está uma das disputas mais interessantes do Podemos em Goiás.
O partido chegou ao registro eleitoral com 39 candidaturas estaduais na base consultada, embora a convenção inicialmente tenha homologado 37 nomes. O único deputado estadual da legenda buscando permanecer no cargo é Henrique César. A nominata reúne ainda políticos com votação anterior relevante, vereadores, ex-secretários e lideranças principalmente de Goiânia, Aparecida e do interior.
A referência de três cadeiras aparece em publicações recentes sobre a disputa do partido, mas deve ser entendida como cenário divulgado, e não como resultado assegurado: a quantidade final dependerá da votação total da legenda e das regras do sistema proporcional.
E, se forem mesmo três vagas, a pergunta passa a ser:
quem consegue chegar nelas?
HENRIQUE CÉSAR TEM O PESO DO MANDATO
Henrique César entra na eleição com uma vantagem objetiva sobre os adversários internos: já demonstrou capacidade de produzir votação estadual suficiente para chegar à Assembleia.
É o único deputado estadual do Podemos tentando a reeleição e, portanto, dispõe da visibilidade proporcionada pelo exercício do mandato. A própria imprensa política vem tratando Henrique como uma referência importante dentro da nominata.
Mas a disputa interna deixou de ser confortável.
Reportagens recentes, citando informações atribuídas ao núcleo político do parlamentar e pesquisas internas, afirmam que o crescimento de Felipe Mabel levou a campanha de Henrique a intensificar agendas e articulações. Essas pesquisas internas não são verificáveis da mesma forma que pesquisas públicas registradas e, por isso, devem ser tratadas como informação de bastidor atribuída às fontes que as divulgaram.
Há, portanto, uma disputa paralela: não apenas entrar na faixa dos eleitos, mas também terminar como uma das maiores votações do partido.
FELIPE MABEL ENTROU FORTE NA DISPUTA
Felipe Mabel apresenta indicadores recentes que ajudam a explicar por que passou a ocupar espaço no debate interno.
Na pesquisa IGAPE/TV Atual realizada entre 9 e 14 de setembro, com 2 mil eleitores de 86 municípios, Mabel, Henrique César e Rafael Marra apareceram numericamente empatados, todos com 0,6%.
A margem de erro geral informada é de 2,2 pontos percentuais e o nível de confiança de 95%. Portanto, diferenças individuais dessa dimensão não permitem estabelecer estatisticamente uma ordem segura entre candidatos. O levantamento está registrado sob o número GO-01814/2026.
Mabel também declarou já ter percorrido 150 municípios.
E existe dinheiro de campanha.
Dados de prestação de contas compilados pelo 72Horas apontavam R$ 610 mil recebidos, incluindo R$ 400 mil do Fundo Especial de Financiamento de Campanha. O valor representava quase metade do teto de gastos indicado pela fonte para uma candidatura estadual.
É uma combinação relevante: presença em pesquisa, recursos e campanha territorial.
WILLIAN PANDA TEM UMA BASE QUE PODE SER MEDIDA
Se Mabel apresenta crescimento recente, Willian Panda carrega uma característica diferente: votos anteriores concretos e uma base eleitoral concentrada em Aparecida de Goiânia.
Panda recebeu 15.612 votos para deputado estadual em 2022, ficando na suplência. Dois anos depois, disputou a Prefeitura de Aparecida e recebeu 20.443 votos.
Isso não significa que os 20 mil votos municipais sejam automaticamente transferíveis para uma eleição estadual. São eleições diferentes, com universos de candidatos e comportamentos eleitorais diferentes.
Mas existe um dado atual interessante.
Na pesquisa IGAPE realizada especificamente em Aparecida entre 30 de agosto e 2 de setembro, Panda apareceu com 4,9%, numericamente atrás de Felipe Cortez, com 5,1%, e à frente de Felipe Mabel, com 4,1%. Como a margem de erro era de 3,5 pontos, os números precisam ser interpretados dentro dessa incerteza estatística.
Panda também já recebeu recursos significativos nesta campanha. A prestação consultada registra R$ 217,5 mil arrecadados e R$ 210,7 mil em despesas contratadas.
Seu desafio é transformar a força que possui em Aparecida numa votação estadual suficientemente ampla.
ISAAC MARTINS CORRE PELO MESMO TERRITÓRIO
Isaac Martins acrescenta outro componente interessante à briga porque também possui estrutura eleitoral em Aparecida.
E isso cria um fenômeno que pode ser decisivo para o Podemos: vários candidatos competitivos da mesma chapa disputando fatias do mesmo eleitorado.
Na pesquisa municipal do IGAPE, Isaac apareceu com 2,9% em Aparecida.
No mesmo levantamento, Panda marcou 4,9%, Mabel 4,1% e Vanilson Bueno 1,8%.
Ou seja, quatro nomes do Podemos estão simultaneamente tentando extrair votos de uma das maiores cidades do Estado.
Essa concentração transforma Aparecida numa espécie de eleição dentro da eleição para a chapa.
LÉO PORTILHO TEM HISTÓRICO DE SUPLÊNCIA
Léo Portilho também não pode ser ignorado na disputa interna.
Na eleição de 2022, terminou como primeiro suplente da legenda pela qual concorreu, e em 2025 chegou a exercer temporariamente mandato na Assembleia durante licença de Henrique César. Em 2026, o Podemos voltou a incluí-lo entre os nomes da nominata estadual.
A questão central para sua campanha é verificar quanto daquela votação anterior permanece organizada quatro anos depois e qual será sua capacidade de competir com candidaturas que hoje dispõem de mandato, bases municipais ou investimento partidário expressivo.
VANILSON BUENO TAMBÉM DISPUTA O VOTO DE APARECIDA
Vanilson Bueno completa outro núcleo relevante da chapa.
Ele aparece entre os nomes destacados na composição política do partido e registrou 1,8% na pesquisa IGAPE realizada em Aparecida.
Isoladamente, o percentual não determina seu desempenho estadual.
Mas reforça a característica incomum dessa chapa: boa parte da disputa interna passa por Aparecida de Goiânia.
Panda, Mabel, Isaac e Vanilson precisam crescer eleitoralmente ao mesmo tempo em que competem, em maior ou menor medida, por eleitores geograficamente próximos.
E RAFAEL MARRA?
Aqui está uma variável que pode mexer diretamente com a composição da disputa.
Rafael Marra registrou 0,6% na pesquisa estadual IGAPE/TV Atual — exatamente o mesmo percentual de Felipe Mabel e Henrique César.
Mas sua situação jurídica é diferente.
Na base eleitoral atualizada em 19 de setembro consultada para esta reportagem, sua candidatura aparecia “sob recurso”.
Portanto, qualquer análise eleitoral envolvendo Marra precisa separar duas perguntas: seu desempenho político e a situação jurídica definitiva de sua candidatura.
Enquanto essa questão não estiver encerrada, existe uma variável adicional sobre a chapa.
HÁ OUTROS NOMES COM DINHEIRO DE CAMPANHA
Outro erro seria reduzir toda a nominata aos candidatos mais conhecidos.
A prestação parcial de contas mostra investimentos relevantes em candidaturas que aparecem menos no debate público.
No levantamento financeiro consultado, Débora Domingues aparecia com R$ 280 mil recebidos, enquanto Willian Panda, Professor Marcos Júnior e Elisa da Saúde apareciam com R$ 200 mil cada. Os valores são retratos da prestação disponível no momento da consulta e podem mudar conforme novas receitas e despesas sejam declaradas.
Dinheiro, evidentemente, não é voto.
Mas recursos permitem ampliar material, equipes, deslocamentos, publicidade e presença digital. Por isso, essas candidaturas também precisam ser observadas até o fechamento das urnas.
A CONTA MAIS IMPORTANTE É A DO PARTIDO
Existe uma diferença fundamental entre eleição majoritária e proporcional.
Na disputa pela Assembleia, não basta um candidato ter uma boa votação individual.
A quantidade de cadeiras conquistadas depende da votação partidária e das regras de distribuição previstas pela legislação eleitoral.
Por isso, dizer antecipadamente que o Podemos terá exatamente três deputados seria tratar um cenário eleitoral como resultado consumado.
Três cadeiras são hoje uma referência publicada para a legenda, não uma garantia matemática.
Se o partido alcançar esse número, porém, a disputa interna ficará extremamente apertada.
UMA CHAPA COM VÁRIAS GUERRAS AO MESMO TEMPO
Os dados disponíveis mostram pelo menos três movimentos simultâneos.
Henrique César tenta defender o espaço construído pelo mandato. Felipe Mabel apresenta crescimento nas medições recentes e estrutura financeira significativa. Willian Panda tenta transformar sua votação anterior e sua presença em Aparecida numa votação estadual maior.
Ao redor deles estão Isaac Martins, Léo Portilho, Vanilson Bueno e outras candidaturas tentando entrar nessa disputa, enquanto Rafael Marra combina presença nas pesquisas com uma situação jurídica que ainda precisa ser acompanhada.
A pesquisa estadual mais recente citada nesta reportagem ainda mostrou mais de 23% de entrevistados sem candidato declarado ou que não responderam.
Isso ajuda a explicar por que a fotografia de setembro ainda pode mudar bastante até as urnas.
Se o Podemos conquistar três cadeiras, haverá 39 candidatos disputando posições numa chapa em que alguns nomes chegam com mandato, outros com votos anteriores, outros com dinheiro, estrutura territorial ou crescimento recente.
E talvez esteja justamente aí a parte mais interessante dessa eleição:
o Podemos não disputa apenas contra os outros partidos. Seus candidatos também travam uma intensa disputa entre si pelos lugares que a votação coletiva da legenda conseguir abrir na Assembleia Legislativa.